terça-feira, 12 de maio de 2015

TELINHA QUENTE 163

Roberto Rillo Bíscaro

A quantidade de assassinos seriais mortos por Dexter na Grande Miami sempre me pareceu exagerada. Imagine uma divisão policial especializada em caçar serial killers em Copenhague, cidade bem mais pacata? Den som dræber (2011) parte dessa premissa.
Katrine Ries Jensen é a detetive que encabeça o time, que tem no psicanalista Thomas seu personagem mais peculiar. Foram produzidas 5 histórias divididas em 2 partes e um filme pra cine, que fechou o arco duma das personagens, concluindo a série. Vi tudo.
Não é mau programa, mas o sucesso e influência de Forbrydelsen, Borgen ou Bron/Broen fazem com que nós estrangeiros os tomemos como parâmetros, porque conhecemos pouco de TV dinamarquesa e o que acessamos foram os pontos altos, geralmente fora da curva. Por isso, esperamos obra-prima atrás da outra e nenhuma TV consegue isso, daí a decepção com produtos medianos como Den som dræber.
É tudo meio genérico, dos roteiros às tomadas e construção das personagens. A protagonista pretendida muitas vezes não tem função e as deduções de Thomas a respeito do comportamento e movimentos dos assassinos são baseadas em fiapos de evidência, em fragmentos de conversa que duram segundos ou em pura coincidência. Difícil crer nele. Daí, sem ninguém com quem empatizar, o show não gruda.
Aqueles Que Matam (tradução do título) não fez sucesso na Dinamarca e foi cancelado após a temporada inicial. Vai ver que seus conterrâneos também o compararam com Forbrydelsen, de onde saiu Lars Mikkelsen (o Victor Petrov de House of Cards), interpretando o chefe de Katrine.
Kim Bodnia, o Martin Rohde, de Bron/Broen, aparece como mafioso russo em um episódio. Considerando-se que a série de Martin e SagaNorén saiu no mesmo ano que Den som dræber, esta tinha mesmo poucas chances de se destacar.
Os norte-americanos fizeram sua versão, batizada Those Who Kill, que também não vingou por falta de público. Se nem as versões da maravilhosa Bron/Broen me seduziram, quem dirá uma do segundo escalão? 

PROSTITUIÇÃO À BRASILEIRA

Prostituição à Brasileira
Há algumas semanas, resenhei Prostituição à Brasileira, mais recente livro do historiador José Carlos Sebe Bom Meihy (leia aqui).
Incentivador e colaborador do blog desde sua fundação, nosso cronista favorito estará na Livraria Cultura, na Av. Paulista, para o coquetel de lançamento oficial da obra nesta quinta, a partir das 18:30.
Assista ao autor falando sobre o livro, realmente muito gostoso de ler, além de instrutivo. 

segunda-feira, 11 de maio de 2015

CAIXA DE MÚSICA 169

Resultado de imagem para empire soundtrack
Roberto Rillo Bíscaro

Considerando-se os recentes distúrbios em Baltimore, mais de um grama de soda cáustica deve ser despejado pra dissolver o exagero crítico cercando Empire, novelão de sucesso da FOX, estrelada por afrodescendentes. Claro que a presença de grupos oprimidos no horário-nobre é importante, mas não deve servir pra justificar discursos ilusórios de igualdade racial.
A trilha sonora lançada na mesma semana que o mais recente (e chato) trabalho de Madonna vendeu bem, mas não arrancou aleluias da imprensa musical. Com razão: as 18 faixas da edição de luxo (acha que eu ouviria a standard, com apenas 11?) são em sua maioria interessantes e competentes (com Timabaland na direção musical, não é mais que obrigação), mas só, impossibilitando a duplicação das loas ao show.
Dispondo de 3 ou 4 atores que também cantam bem, a trilha de Empire interessa sobretudo como aperitivo pro vindouro álbum-solo de Jussie Smollett - o Jamal Lyon, filho gay de Lucius e Cookie – que chamou tanto a atenção a ponto de descolar contrato com a Columbia Records. Ele arrasa no sentido R’n’B de abertura, Good Enough, uma das diversas letras dirigidas à não aceitação da homossexualidade de Jamal pelo pai. Jussie coloca os bofes pra fora nas baladas Nothing to Lose e Conqueror, dueto com a britânica Estelle; sabe ser elegante no deslizante acid jazz de I Wanna Love You; incisivo na ameaçadora de butique Keep Your Money e brejeiro na saltitante You’re So Beautiful.
Nessa última, ele dueta com Yazz, nome de rapper de Bryshere Y. Gray, que interpreta Hakeen, filho mais jovem de Lucius. Yazz também conseguiu contrato com a Columbia, mas a julgar pelos duetos com Smollett, precisa amadurecer bastante ainda. É um rapper correto e mais nada. Falta-lhe o tom ameaçador de verdade dum Brother Ali, por exemplo. Confira o pastiche gangsta Drip Drop e veja se dá pra sentir medo. Puro consumo. Mas a faixa tem produção impecável e aquele cacoete sonoro que parece uma sirene, repetido diversas vezes, é chupado de Die Roboter, do Kraftwerk de Die Mensch Maschine (1978). Não me entendam mal, Yazz não é ruim, talvez falte maturar. Não paro de cantarolar “drip drop drip drippity drop drip drop.” Mas falta-lhe gume em Can’t Truss e Power of the Empire, por mais energéticos que sejam os hip hops.

Serayah McNeill também consegue roubar-lhe a cena na delícia sexy Keep It Movin’, mas é meio covardia compará-lo com uma gostosona cantando “Oh my God, I got a body like a weapon,

It goes ba-ba-bang,bang, bang”. Amo. 
Como na série, o álbum traz ilustres convidados, como Mary J. Blige num dueto demolidor com Terrence Howard, o Lucius Lyon. Paraíso pra quem ama uma boa gritaria black.  
Os 2 deslizes ficam por conta de Money For Nothing, rap-dueto de Jussie e Yazz, que de interessante tem apenas o riff de guitarra do clássico oitentista do Dire Straits e o gospel bluesy de Courtney Love em Walk Out On Me. Queridinha, tu nunca serás Marianne Faithful, desista.
Mais “tradicional” que o inovador show, a trilha de Empire tem bastante pique. Talvez se substituíssem o já establishment Timbaland por produtor mais mudérrnu, a trilha da segunda temporada poderia ser tão influente quanto Empire certamente será.  

domingo, 10 de maio de 2015

A SUPERAÇÃO DE DREIDY

Vendo sua filha isolada, sem brincar com outras crianças e cada vez mais triste, Dreidy se lembrou da sua infância e de como era feliz com jogos simples, brincadeiras movimentadas e resolveu apresentar algumas dessas brincadeiras para sua filha Ana Júlia e seus amiguinhos. As brincadeiras fizeram com que Ana Júlia fosse se tornando uma criança mais alegre e espontânea. Porém, após algumas idas ao médico, Dreidy descobriu que sua filha tinha contraído uma bactéria que se alojou na meninge e dois dias depois do seu aniversário de 11 anos Ana Júlia faleceu. Faz oito meses que Ana Júlia morreu e para superar essa dor, Dreidy tomou uma iniciativa inusitada, confira na matéria!

sábado, 9 de maio de 2015

SÚPLICA ALBINA

On the road to recovery: This picture, taken six months after the attack, shows how well her wounds healed

Implorei Para Não Me cortarem o Braço’: albina revela o horrível momento em que uma gangue decepou seu membro com um machado para vendê-lo no mercado negro tanzaniano dos curandeiros. 


Tradução: Roberto Rillo Bíscaro

Uma mulher com albinismo relatou a “dor indescritível” que lhe sacudiu o corpo no momento que uma gangue decepou seu braço, porque acreditavam que sua pele albina lhes traria riqueza e sorte.  
Kulwa Lusana era adolescente quando os 5 homens a renderam e atacaram-na com machados enquanto ela jazia em sua cama no noroeste da Tanzânia. Eles esconderam seu braço em um de seus casacos e fugiram noite adentro.
Pode parecer estranho, mas Kulwa teve sorte: ela é mais uma na lista de centenas de vítimas do comércio doentio de partes de corpos albinos, usados em poções por curandeiros para os ricos e poderosos. Nem todos aqueles que se tornam alvo pela cor de sua pele escapam aos ataques. 
Nos últimos seis meses, 15 pessoas com albinismo foram mutiladas ou mortas, inclusive diversos bebês arrancados de seus lares.
É um negócio lucrativo para quem está disposto a mutilar e assassinar: corpos inteiros podem alcançar o preço de 50 mil libras e os membros alguns milhares, fortunas para aqueles depravados o bastante para executar os horrendos ataques.  
E tem mais: a taxa de condenação para os capturados é ainda baixíssima, significando que esse crime tenebroso apresenta relativamente baixo risco para os envolvidos. 
Kulwa foi atacada em 2011, enquanto dormia em sua cama no precário cômodo que lhe servia de quarto. Sua irmã gêmea e o resto da família dormiam numa casa de tijolos não muito longe – seguros atrás de portas trancadas. 

Ela contou à UNICEF: “eu tinha 15 quando aconteceu. 5 pessoas invadiram o quarto. Eles me viram e já foram cortando meu braço. Nem consigo descrever a dor.”  
Ela revelou mais detalhes à ONG Under the Same Sun (UTSS), logo após o ataque, enquanto se recuperava no hospital: “Eu tentava esconder o pedaço que restava de meu braço debaixo das cobertas. Implorei para que não me arrancassem o braço e gritava por socorro. Chamei meu pai. Senti mais 2 golpes no ombro esquerdo e um na cabeça, enquanto tentava escapar. Eles fugiram enquanto eu estava tentando correr para a casa de meu pai.”
Seu braço – como os membros de tantos outros albinos – devem ter sido levados a algum curandeiro.
Jamai foi provado para quem os feiticeiros vendem suas poções; nenhum comprador foi julgado até agora, mas diz-se que estão dispostos aa pagar uma fortuna pelos preparados.
Kulwa não tem dúvidas sobre o que deveria acontecer aos homens que levaram seu braço, caso fossem pegos: “Eles devem ser mortos do mesmo jeito que nos matam. “
A discriminação enfrentada por Kulwa começara muito antes de os homens invadirem sua casa, a qual compartilhava com seus pais e irmãos. Muitos creem que albinos trazem má sorte ou são “fantasmas”, tratados quase como cidadãos de segunda classe por suas famílias.
“Meu pai não me matriculou em escola, porque tinha medo de eu pegar insolação e desmaiar”, conta. Então, a história de suposto cuidado parece tomar rumo preocupante. “Eu ficava em casa e ajudava no serviço, como cozinhar, lavar a louça e roupas. Quando meus irmãos iam à escola, eu lhes preparava o café da manhã e os uniformes. Esse era meu papel.”
O fato de ela estar dormindo em um cômodo precário e adaptado, enquanto sua irmã – que não tem albinismo – dormia em casa é forte indicativo de como seu pai a considerava.
Aos 19 anos, as coisas mudaram para Kulwa.
Depois de perder o braço, ela foi levada para uma casa segura administrada pela UTSS, que trabalha para proteger os albinos tanzanianos e mudar as crenças que cercam a cor da pele.
Graças a UTSS, Kulwa começou a educar-se e tornou-se costureira. “Também aprendi a tricotar suéteres. Tudo isso com apenas um braço.”  
Ela espera começar seu próprio negócio de tricô e seu sorriso demonstra quão orgulhosa está das habilidades adquiridas.
Vicky Ntema, da UTSS, disse para o MailOnline que ainda há alguns obstáculo a transpor antes que ela alcance seu objetivo: “ela seria mais competente com uma prótese, além de necessitar de máquinas de costura e de tricô para abrir seu negócio ou trabalhar com outras mulheres”.
Kulwa está em segurança, mas há muitos que não, e, além disso, haverá eleição em outubro, o que, segundo ativistas da causa albina, coloca essas pessoas em grande risco. 
Eleições são épocas perigosas para albinos, porque alguns candidatos procurar levar vantagem sobre seus rivais servindo-se das poções mágicas.
Governos estão começando a tomar medidas decisivas. A polícia do Malawi recebeu ordens para atirar em qualquer um pego atacando albinos. O Primeiro-Ministro da Tanzânia tem incentivado os cidadãos a matarem aqueles de posse de partes de corpos de albinos.
No vizinho Burundi, jovens albinos de toda a África Oriental estão sendo abrigados em alojamentos especiais sob proteção do exército numa tentativa de deter os agressores.
Trade: It is believed albino people's skin can bring luck and wealth to a person - and some are willing to pay thousands for a limb, let along a whole body, in order to give themselves an advantage
Birgithe Lund Henriksen, chefe da proteção infantil da UNICEF Tanzânia, que trabalha com o governo, agências da ONU na Tanzânia e outras organizações, dá apoio a centros similares para crianças com albinismo, “onde podem viver e frequentar a escola”.
“Essa, porém, não é a solução ideal para essas crianças, frequentemente separadas de suas famílias e comunidades”, acrescenta. “A curto prazo, considerado o risco, o mais importante é mantê-las em segurança, mas a longo prazo a UNICEF trabalha para fortalecer o sistema de proteção às crianças na Tanzânia, desde o nível governamental até o comunitário.”  
Para Kulwa, agora em segurança graças à UTSS, há ainda uma coisa incomodando-a: ela não viu ninguém de sua família desde o ataque.
“Se eu pudesse ver minha mãe novamente, seria tão feliz. Tenho muita saudade dela. Na verdade, sinto falta de toda minha família”,, desabafa.

http://www.dailymail.co.uk/news/article-3070662/Albino-woman-reveals-horrific-moment-gang-hacked-limb-machete-sell-Tanzanian-black-magic-witchdoctor.html

quinta-feira, 7 de maio de 2015

SITE INTERNACIONAL SOBRE ALBINISMO

«Estas pessoas não são fantasmas, mas seres humanos»

O gabinete do Alto Comissariado para os Direitos Humanos (OHCHR) lançou um site dedicado à questão do albinismo destinada a desmascarar os mitos de uma condição rara que é «ainda profundamente incompreendida, social e medicamente»
O site, em inglês, traz informações sobre albinismo com links para outros endereços sobre o assunto, todos em inglês. Também há um quizz mito legal sobre albinismo, preconceito e direitos humanos; todas as perguntas envolvem albinismo. Finalmente, há um espaço onde albinos e parentes/amigos podem compartilhar suas histórias, inclusive podendo enviar fotos. 
Enviarei a minha e conforme tenha tempo traduzirei seções do site aqui para o blog. 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

CONTANDO A VIDA 109

Nosso historiador-cronista sempre dá importância aos sonhos dos colaboradores em seus trabalhos de História Oral. Na crônica de hoje, ele escreve sobre a validade acadêmica de se atentar para o conteúdo onírico, além de apontar a maciça presença sonhadora em nossa cultura, citando Bandeira, Drummond e até enredo oitentista da Vila Isabel.


O SONHO ENTRE O POÉTICO E O SOCIOLÓGICO.

José Carlos Sebe Bom Meihy
Percorrendo a História, através dos tempos, o sonho tem sido um tema constante, inquietante e de intermitente saliência. É certo que sem ele ninguém vive e nenhuma sociedade o prescinde, ainda que seu reconhecimento como fenômeno social padeça de apropriações variadas. Sutil onipresença, apesar de titubeante em termos de consideração e prestígio objetivo, a realidade do sonho é sempre questionada tornando-se, na maioria das vezes, divisor d’água entre a crença, o senso comum e a ciência. Se o popular o implica sem muitas barreiras, o religioso o arrola como dogma, o científico exige critérios analíticos, métodos exegéticos e afastamento das interpretações corriqueiras que também afetam sua aceitação como matéria de estudo.
Frequente nas conversas diárias, nos consultórios de analistas, em círculos privados ou de estudos e em leituras variadas, o entendimento do sonho como fato passível de análise crítica padece de crivos múltiplos e sua apropriação como matéria de especialistas tem sido tema avassalado pelo debate médico-psicológico. Outras possibilidades, como o trato de palpite definido pela tradição oral, mensagem religiosa, metáforas de falas cordiais, ficam, quase sempre, à deriva de considerações equivocadamente tidas como “sérias” porque quase exclusivamente decorrentes de saberes dominantes. Dado o poder e a concentração da análise dos sonhos pela ordem médica em geral, não obstante, equacionar debates sobre o sonho em diferentes manifestações e níveis da cultura, situá-lo de maneira a promover alternativas estruturadas em moldes do conhecimento acadêmico é matéria, quase sempre, arriscada.

Substância invariavelmente dependente da interpretação, os dilemas caracterizadores do sonho enquanto discurso se mostram mais ligados ao plano do subjetivo do que propriamente da objetividade. Ainda que este pressuposto seja discutível, não há como recusar a aceitação de que o sonho é tema permanente no convívio cotidiano em todos os quadrantes, nas várias camadas sociais, etárias, étnicas. A par da insistente presença no discurso urbano – que dada à composição das relações permite o dimensionamento social das narrativas –, a Cultura Popular ou de Massas, a Literatura em seus diversos gêneros, a Pintura, a Ópera, os quadrinhos, têm investido com fartura na temática onírica moldando discursos que clamam por definições cada vez mais específicas. Analisando o cancioneiro nacional por meio da poética temática, é impressionante como as manifestações oníricas ganham atenções. Pode-se mesmo dizer que há uma tendência “sonhográfica” permeando o imaginário da cultura nacional. Vejamos alguns exemplos, a fim de motivar reflexões e é bom começar por Manuel Bandeira que versejou “Sonhei ter sonhado/ que havia sonhado/ Em sonho lembrei-me/ de um sonho passado: o ter sonhado/ que estava sonhando”. O jogo de espelhos é espetacular e a colocação de um sonho dentro do outro desorganiza a lógica racional do leitor. Curiosamente a proposta de Bandeira se reproduz na poética de Carlos Drummond de Andrade colorindo a temática de maneira desafiadora “Sonhei que estava sonhando/ e no meu sonho havia/ um outro sonho esculpido/ os três sonhos superpostos/ dir-se-iam apenas elas/ de uma infindável cadeia/ de mitos organizados/ em derredor de um pobre eu/ Eu que, mal de mim! Sonhava”. Mais do que simplesmente alargar a temática, repetindo o mote matriz, Drummond arrasta a questão para o espaço mítico da memória coletiva. Na mesma linha, Martinho da Vila (juntamente com os parceiros Rodolfo e Graúna) musicaram o popular “sonhei que estava sonhando/ um sonho sonhado” O sonho de um sonho magnetizado/ As mentes abertas sem bicos calados/ Juventude alerta os seres alados/ Sonho meu eu sonhava que sonhava/ Sonhei que eu era um rei que reinava/ Como um ser comum era um por milhares/ Milhares por um”. O que fascina neste giro de retomadas é a apropriação do sonho como atalho para o entendimento da relação indivíduo e história. Um sonho dentro do outro, o eu pessoal ganha foros de importância na medida em que no devaneio onírico os sonhadores se tornam o centro do universo e ganham eles o direito de ver a história em perspectiva, um sonho dentro do outro. Curioso: num instante em que tantos insistem em nos manter acordados, como produtores de mercadorias ou consumidores de bens, o inconsciente trai tudo e nos permite sonhar.

terça-feira, 5 de maio de 2015

ELLE ALBINA

Em maio, a versão nacional da prestigiosa revista Elle completará 27 anos. Pra celebrar a efeméride a publicação apostou na diversidade e na inclusão. A capa da edição em papel será espelhada, pra dar a sensação de que os leitores estampam a frente da publicação. 
A edição para iPad contará com diversas possibilidades de capa, com modelos destoantes do padrão magreza jovem pigmentada de beleza. 
Uma das capas traz Andreza Cavalli, a albina mais famosa do Brasil.

TELINHA QUENTE 162

Roberto Rillo Bíscaro

Quando resenhei o sessentista The Outer Limits (aqui), frisei a existência de personagem negro que fugia do padrão empregado/palhaço manso e subserviente. Desde então, a presença afrodescendente só tem feito crescer nas telinhas e lonas ianques. Eles protagonizam sitcoms e séries de sucesso (Scandal) e também têm sua cota de fracassos (Deception). Em janeiro, a Fox barbarizou com a primeira soap em horário-nobre cuja trama e elenco estão majoritariamente ligados ao universo negro.
A dúzia de capítulos da primeira temporada de Empire bombou e a série foi renovada. A descrição “Dynasty negra” fez com que eu passasse o show na frente de minha longa fila; imagine se eu não me interessaria por um programa com um nome desses, cheio de gente rica sofrendo e fazendo maldade?
Lucious Lyon (“luscious lion”o leão voluptuoso? Profundo!) saiu da vida bandida do gueto e criou um império musical, que se ramificou em n segmentos. Em menos de 20 minutos do capítulo inicial, aprendemos que ele tem doença degenerativa incurável, reúne os 3 filhos pra comunicar que em breve escolherá seu sucessor, sua ex-esposa sai da cadeia (de casaco de peles, porque ela não é obrigada, tá?), invade uma reunião de diretoria e exige metade da Empire Enterprises (sei lá se é enterprises, mas quem liga?), afinal, os 17 anos passados no xilindró foram pra livrar a barra de Lucius, que nesse ínterim obviamente se envolveu com uma jovem ambiciosa. A ex-presidiária é Cookie, minha favorita, porque desbocada, barraqueira e de casacão. Mas, se aparecer megavilã, Cookie perde o trono fácil, fácil!
O filho mais velho é bipolar e casado com uma loirona, união jamais aceita por Lucius; o filho do meio é músico talentoso, mas e gay, orientação abominada pelo papi macho; o mais novo é o rapper rebelde buscando identidade, envolvido com uma mulher mais velha (Naomi Campbell!). Estão de bom tamanho os conflitos? Mas aparecem mais, razão de ser das soaps.
Empire aproveitou o sucesso de Revenge e Scandal e juntou novelão com The Voice, X Factor, American Idol ou seja lá qual o Show de Calouros superestimado da moda. Números de black music - de spiritual a hip hop - abundam, então, quem não curte musicais/rap mantenha distância!
Há certa falta de foco no roteiro, que por vezes não sabe qual trama priorizar, mas de modo geral Empire é divertida. Soap é assim, uma salada onde não se pode esperar muita consistência.
O investimento e repercussão foram altos, resultando em diversas participações especiais, como Gladys Knight, Mary J. Blige, Patti LaBelle, Courtney Love e muito mais.
A imprensa saudou a série como desbravadora e a Fox como corajosa. Sem dúvida, um grande passo na representação protagônica afro. Por outro lado, também prova que negros podem ser tão imaturos, estúpidos e canalhas quanto os brancos.
Muito legal e verei a temporada 2, mas chamar Empire de Dynasty é um pouco meio muito. Cookie Lyon não é Alexis Morel Carrington Colby Dexter!

segunda-feira, 4 de maio de 2015

CAIXA DE MÚSICA 168


Roberto Rillo Bíscaro

Nós professores não cansamos de passar sermão nos estudantes sobre a importância da educação. Depois de ouvir a impressionante estreia do Native Construct, penso ser mais produtivo tocar o álbum Quiet World, lançado dia 21, pela Metal Blade Records. Robert Edens (vocais), Myles Yang (guitarra) e Max Harchick (baixo) são egressos da Berklee College of Music, de Boston, daí sobram técnica e conhecimento sobre composição, estilos musicais, arranjo e produção. Auxiliados por colegas da academia, o trio saiu-se com uma obra-prima do prog metal.
As 7 faixas de Quiet World contam a história de Sinister Silence, mudo rejeitado por uma garota. Ressentido e com problemas mentais, cria um mundo onde as diferenças são abolidas como meio de promover a felicidade coletiva. Mas, nem todos estão contentes com tamanha quietude e insipidez; não tarda a aparecer um líder, Archon, que unirá dissidentes contra o lúgubre SS.
Quiet World foi composto e executado em um período de anos. Erudição musical e tempo gestaram um trabalho onde cada nota foi meticulosamente pensada, bem ao estilo do rigor dos áureos tempos do Yes, em Close to the Edge (1972). Mas a semelhança para aí; Native Construct não faz prog sinfônico carbonado dos anos 70. Seu prog vem misturado com diversas vertentes do metal, música de Broadway e até pop num vórtice que chupa o ouvinte quase a ponto de afogá-lo num mar de acordes e notas.
A variação de ritmos e tempos muito frequentemente acontece com um dos instrumentos entrando numa nova convenção enquanto os demais estão em outra e não com paradas abruptas. Desse modo, há momentos em que uma bateria esporrando death metal faz fundo prum vocal e orquestração totalmente Broadway, como em Passage.
Os vocais de Robert Edens são um milagre a parte, indo do fininho ao “podre” do black/death metal. Esse ecletismo do Native Construct é um de seus muitos pontos fortes. A monumental Mute, que abre o álbum com seus quase 13 minutos, passeia pelo prog, death metal, etéreo e pop de modo tão competente que apenas ouvintes dinoussaramente “puristas” (burristas?) reclamarão. Pontuando as diferenças, os cambiantes vocais de Edens. Come Hell or High Water começa como caixa de música, transforma-se em pirotecnia guitarreia a la Queen ou Angra, explode em atonalidade saxofônica, tipo King Crimson, incandesce em momentos de vocal thrash metal pra terminar em orgasmo progressivo. Em 8 minutos.
A dupla final Chromatic Lights e Chromatic Aberrration perfaz outra dúzia de minutos delirante e repleta de variações, a ponto de alguns segundos da última canção referirem-se a Burt Bacharach! Isso também é supimpa em Native Construct: eles jogam pop e música “careta” na fuça do público roqueiro sem que esses gêneros necessariamente pareçam ou soem como pop ou careta.

Há uma semana não consigo ouvir outro álbum e ainda estou na fase de descobrir elementos, instrumentos, viradas rítmicas e de andamento. Não quero nem pensar na pressão que o Native Construct terá pro segundo álbum, depois duma estreia que, sem exagero, tem potencial pra redefinir o sub-gênero. 

domingo, 3 de maio de 2015

A SUPERAÇÃO DE LUAN

'Enxergo a beleza pelos sons', afirma jovem cego que toca 7 instrumentos

Luan Fadel, de 13 anos, mora em Guarapuava e não enxerga desde bebê.
Ele pratica esportes, interage na internet e pretende cursar direito.

Alana Fonseca
Luan toca sete instrumentos. (Foto: Arquivo pessoal)Exemplo de superação: Luan toca sete instrumentos musicais (Foto: Luan Fadel/Arquivo pessoal)
Dos primeiros dias de vida até hoje, aos 13 anos, Luan Fadel dá exemplos de superação. Cego, o adolescente de Guarapuava, na região central do Paraná, toca sete instrumentos musicais. No piano, sua paixão desde criança, ele vai de Ballade pour Adeline a Avicii. Luan também canta, inclusive em inglês. “Enxergo a beleza através dos sons”, explica.
O adolescente tem quase todos os instrumentos que toca: piano, violão, guitarra, gaita, teclado e bateria. Só falta a gaita de fole. Ele conta que aprendeu a gostar de música com o pai. “Temos em casa três pianos: dois de madeira e um elétrico”, conta. De acordo com Luan, os sons variam de um para outro. O piano preferido é o de madeira que fica em um quartinho no quintal.
Luan pratica judô e natação (Foto: Luan Fadel/Arquivo pessoal)Luan pratica judô, natação e anda de bicicleta
(Foto: Luan Fadel/Arquivo pessoal)

Sem tempo
Apesar de passar boa parte do dia se dedicando à música, ele também gosta de fazer outras atividades.
Ele luta judô, faz natação e ainda anda de bicicleta. Para ele, o esporte é tão importante quanto a música.
O adolescente lamenta não poder jogar futebol com os amigos, mas diz que se contenta em ouvir narrações de partidas pelo rádio.
“Os narradores nos transmitem uma emoção enorme. No rádio, a gente ouve detalhes que a televisão não dá. É como se eu enxergasse por 90 minutos”, explica.
Para a televisão, Luan conta que não dá muita atenção. Quanto a filmes, o adolescente garante que se esforça. “Só não tem condição os filmes do Charlie Chaplin!”, brinca. Mas ele ainda prefere os vídeos do Youtube.
Como qualquer adolescente, Luan passa horas na internet. Ele decorou todas as teclas do celular e do computador. A agilidade é tanta que a voz que sai dos aparelhos - e que deveria guia-lo - chega a se perder. Sem contar que, mesmo sem enxergar, ele consegue tirar fotos quase perfeitas das pessoas.
 Quase todos os dias da semana, ele vai à Associação dos Pais Amigos Deficiente Visual (Apadevi). Lá, ele se dedica ao artesanato, ao teatro, tem reforço escolar e também aprende como realizar atividades do dia a dia sozinho, como arrumar uma cama. Luan frequenta o local desde os sete meses de idade.
"Nós, cegos, sempre damos um jeito de fazer as coisas. A minha deficiência não me impede de fazer quase nada", garante. Dirigir é a única atividade que ele lista como impossível. "Mas meu pai sempre diz que, se eu quiser, posso ser piloto de avião porque no céu não tem no que bater", relata.
Luan toca sete instrumentos musicais; entre eles, o piano (Foto: Alana Fonseca/G1)O piano é o instrumento musical predileto do adolescente de Guarapuava (Foto: Alana Fonseca/G1)

Choque
A mãe, Fátima Grott Arruda, de 42 anos, nem acredita na quantidade de atividades que o filho faz todos os dias. "Ele não para". Quando soube que Luan era cego, logo que o menino nasceu, Fátima teve medo de que o menino não conseguisse levar uma vida normal.
A mãe temeu mais ainda pelo fato de o irmão gêmeo enxergar perfeitamente. Os bebês nasceram antes dos sete meses. O parto prematuro prometia complicações, mas as sequelas acabaram afetando apenas Luan.
Bebês nasceram antes dos sete meses de vida e o parto prematuro trouxe complicações, mas apenas para Luan (Foto: Luan Fadel/Arquivo pessoal)Bebês nasceram antes dos sete meses. Parto prematuro trouxe complicações, mas apenas para Luan (Foto: Luan Fadel/Arquivo pessoal)
Apesar de os recém-nascidos terem ficado quase três meses na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), a deficiência física do menino foi notada pelos pais apenas em casa. “Um dia, meu marido colocou os dois em um colchão no sol. O Lucas não conseguia olhar diretamente para a luz, se batia. O Luan, sim. Foi, então, que notamos que havia algum problema com ele”, lembra.
A dona de casa conta que quase entrou em depressão, principalmente porque teve uma gravidez tranquila. “Eu quase me entreguei; fiquei forte depois porque tinha que cuidar dos meus filhos”, explica. Então, aos poucos, Fátima e o marido começaram a aceitar a deficiência de Luan e a tratá-lo da mesma maneira que Lucas. “Eles caminharam sempre juntos”, diz.
Desde pequenos, os dois frequentam a mesma escola. As apostilas de Luan são passadas para braile e ele tem acesso aos conteúdos didáticos em áudio. “Aprendemos a mesma coisa”, explica o irmão Lucas.
Até pouco tempo, uma auxiliar ajudava Luan em pequenas tarefas, como pegar objetos na mochila e levá-lo ao banheiro. “Hoje, tento fazer as coisas mais sozinho. Afinal, uma hora vou para a faculdade e aí quero ser mais independente”, planeja. Mesmo no 9º ano do ensino fundamental, ele já tem o futuro bem definido.
'Eles sempre caminharam juntos', diz a mãe dos gêmeos (Foto: Luan Fadel/Arquivo pessoal)'Eles sempre caminharam juntos', diz a mãe dos gêmeos (Foto: Luan Fadel/Arquivo pessoal)
“Assim como ele, quero mostrar a todos que o cego pode e deve ser mais incluído na sociedade, principalmente em cargos assim. Quero mostrar que nós não temos limites para trabalhar. E nem para viver”, afirma.
Por fim, Luan garante que ainda não tem uma namorada. "Mas vou escolher uma bem bonita", diz. De acordo com ele, a beleza de uma mulher também é medida por sua voz. "Para mim, mulheres bonitas são as que têm voz bonita", explica.
'Quero mostrar que nós não temos limites para trabalhar. E nem para viver”, diz Luan (Foto: Luan Fadel/Arquivo pessoal)'Quero mostrar que nós não temos limites para trabalhar. E nem para viver', diz Luan (Foto: Luan Fadel/Arquivo pessoal)http://g1.globo.com/pr/campos-gerais-sul/noticia/2015/04/enxergo-beleza-pelos-sons-afirma-jovem-cego-que-toca-7-instrumentos.html

sábado, 2 de maio de 2015

ALBINO GOURMET 176

sexta-feira, 1 de maio de 2015

PAPIRO VIRTUAL 92

Empreendedorismo da pessoa com deficiência é tema de livro


Capa do livro ‘Empreendedorismo Sem Fronteiras’

Cid Torquato, o autor, falou que o livro já contava com 2 mil exemplares adquiridos pelo SEBRAE, que irá distribuir para seu público.

Acaba de ser lançado na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, o livro “Empreendedorismo Sem Fronteiras – Um Excelente Caminho para Pessoas com Deficiência”, escrito em coautoria pelo secretário-adjunto de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo, Cid Torquato, e Fernando Dolabela, consultor, professor e autor de vários outros títulos voltados ao empreendedorismo.
Cid Torquato falou que o livro, antes de seu lançamento, já contava com 2 mil exemplares adquiridos pelo SEBRAE, que irá distribuir para seu público. Além disso, Torquato discorreu sobre a maior mensagem que o livro traz. “A principal razão da existência desse livro é querer passar algumas mensagens, uma muito importante é a do ‘eu posso’”. O secretário-adjunto ressaltou, ainda, que essa é uma mensagem essencial para quem tem deficiência. “Temos vários cases no livro. A mensagem básica vivenciada pelas pessoas que se deparam com a deficiência, em geral, é ‘você não pode’. Então, dizer para esse segmento da sociedade, para essas pessoas ‘eu posso’, ‘você pode’, é o mais importante”.
Os autores apresentam formas de empreender com viés na inclusão social, convidando as pessoas com deficiência aos desafios do empreendedorismo. Documenta possibilidades no horizonte da inclusão, como despertar o empreendedor e transformar o sonho em realidade produtiva. Aprofunda a discussão sobre inclusão e empreendedorismo, para que possam ser criadas políticas públicas de incentivo para que pessoas com deficiência se aventurem a empreender.
No Brasil, as dificuldades para entrar no mercado de trabalho são grandes para quem tem alguma deficiência, já que muitas empresas declaram não ter estrutura para contratá-las. Alegam, por exemplo, falta de rampas de acesso e piso tátil. Assim, a Lei de Cotas (que reserva em empresas com mais de cem funcionários de 2 % a 5% de seus postos a pessoas com deficiência) torna-se a única alternativa de inserção profissional. “É notório o preconceito que ainda há na sociedade. Há um potencial de 1,5 milhão de vagas de trabalho para pessoas com deficiência no país e só 360 mil são ocupados”, comenta Cid Torquato.
“Empreender pode ser alternativa muito positiva, tendo em vista que ter o próprio negócio possibilita definir com autonomia o ambiente de trabalho e a rotina do dia a dia, aspectos importantes para a inclusão de quem tem deficiência”, destacam os autores da publicação.
O livro “Empreendedorismo Sem Fronteiras – Um Excelente Caminho para Pessoas com Deficiência” está disponível pela editora Altabooks também em versão digital.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

CONTANDO A VIDA 108

Preservar a natureza é vital,, mas, como pensar/proceder quando não se tem alternativa a não ser viver disso? Essa e outras questões na linda crônica de nosso cronista-historiador. 


A DAMA DAS BROMÉLIAS 

José Carlos Sebe Bom Meihy

A serra carioca, entre o Rio de Janeiro e Petrópolis, se abre numa sucessão de árvores frondosas, lindas, retalho da vegetação natural. Entre variedades, aqui e ali repontam bromélias. Resistentes, adaptáveis, exóticas, as mudas vendidas explicam a atividade da família “da Silva”. A mãe, o marido e dois filhos sobrevivem dessa prática retirada da fraçãozinha que lhes cabe na mata em volta da casa tosca. Por lógico, isso é proibido e altamente condenável: imagine arrancar bromélias, vendê-las!... Essa, porém não é a preocupação da zelosa dona Maria que bem sabe do veto do IBAMA, mas chega a supor que é pelo risco de vender perigosamente “na beira da estrada”. Mesmo cientes da lei ela se justifica afirmando que as crianças precisam ter uma lida, já que não dá para ir à escola que fica distante como o diabo. A falta de transporte para qualquer lugar obriga a família a se virar por ali mesmo. A atividade familiar se organiza da seguinte forma: o sr. Joãozinho, de 36 anos, cuida do mato, corta árvore, faz carvão, caça, colhe as bromélias – ah! as bromélias da serra. Dona Maria recebe as plantas do marido, seleciona-as e, juntamente com o filho Zé Antonio, prepara os vasos de xaxim comprados baratinhos, baratinhos dos caminhoneiros que fazem aquele circuito. Além disso, o menino de 11 anos cuida com o pai da pequena horta e também transporta o material que a menina, Izildinha vende com a mãe. Os filhos cuidam de tudo direitinho, e, sob o comando dela promovem o sustento familiar. Valente, é dona Maria quem aparece quando surge algum problema como o temível controle florestal. 
Nesses casos, sua estratégia é simples: apela para os melhores sentimentos dos mantenedores da ordem e exibe, quase chorando, seu projeto de vida garantindo que são uns coitados, que morando no fim do mundo não têm outro jeito e garante mais: que sempre fizeram isso desde o tempo do nada. Indo em frente diz que o resultado é uma quirelinha, uma bostinha. Com esse argumento demolidor a senhora da mata prova que a ação familiar não iria, jamais, arrasar a exuberante floresta tropical e que assim, os pais, avós, agiram e que tudo continua do mesmo jeitinho, no mesmo lugar, igualzinho. Talvez, mais forte argumento, fosse mostrar que não seriam aquelas poucas folhagens que iriam justificar o importante trabalho dos guardas, profissionais sérios, que com certeza, teriam muito mais o que controlar. Convencendo de que trabalhavam só com essas parasitas, os “da Silva” provam um contraditório traço histórico, caboclo, que sempre sobreviveu à margem do sistema. Metáfora da bromélia, também parasita da floresta, eles não se mostravam tão ameaçadores. 
  
Ao contrário do que se pode supor, Izilidinha, não é acanhada. Matreira, quando chegam os guardas, faz o irmão sumir, monta cara de desvalida e agarrada à saia da mãe, e lá vão as duas, no encalço dos representantes da ordem. Argumentando em favor da causa parental, ambas permitem dimensionar o significado da imagem feminina frente aos senhores uniformizados, homens imponentes. Mesmo que o quadro seja da mãe/filha pobres, miseráveis, são elas, mulheres na defesa do patrimônio familiar. Izildinha, com graça comovente, oferece aos guardas bonitas bromélias e assim marca uma estratégia sofisticada, sutil, traiçoeira operação comercial. Os guardas, esquecendo os preceitos do IBAMA, primeiro rejeitam, depois... depois supõem outras alegrias femininas em lares enfeitados... Ou será que pensam no Código de Preservação Ambiental?!...