quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

TELONA QUENTE 277

Roberto Rillo Bíscaro

Quando criança, achava o máximo da civilização os casais dormindo no mesmo quarto, mas cada um em sua cama. Era assim nos filmes da Sessão da Tarde e no desenho dos Flintstones. Sem que eu suspeitasse, aquela representação noturna de casais de respeito era fruto da censura em Hollywood. Como há 40 anos ainda se exibia muito da produção cinquentista na TV, eu cria que nos EUA era assim que acontecia.
Lembrei disso, quando vi o casal de Invasores de Marte (1953) dormindo separados, logo no começo do influente filme. Invaders From Mars é a história do menino que acorda de madrugada com barulhão de espaçonave alienígena pousando bem atrás de seu quintal e logo percebe que seus pais e diversos a seu redor estão possuídos pelos verdes (literalmente) marcianos.
Produzido independentemente pela National Pictures Corp., por menos de 300 mil dólares, Invaders From Mars (IFM) não tinha muito tempo pra enrolação: o pequeno leva suas suspeitas pro Exército, que prontamente crê e entra em ação. Ao invés de gastar dinheiro com mais tempo de exibição, IFM preferiu investir numa trilha-sonora fantasmagórica e em efeitos especiais decentes pra época, resultando num produto que dá pra ver até hoje, porque tem ação e clima até meio de medinho. Aquele coro sobreposto à instrumentação meio do além, mostrando o redemoinho de areia ou o marciano capacetado, deve ter grudado na cabeça de muito Steven Spielberg no escurinho do cinema dos 50’s.
Roteiros cuja “solução” final é o “tudo não passou dum sonho” estão entre os mais toscos na pirâmide da criatividade, porque equivale a admitir que você criou uma história, mas não sabe termina-la. O final onírico de IFM, porém, pré-data em décadas o aprisionamento temporal d’O Feitiço do Tempo. Será que o pobre David está preso num ciclo eterno de pesadelo? Que cruel.
E não é que um final diferente teve que ser filmado pra exibição na Grã-Bretanha, porque o original era aberto demais? Ué, mas não é na Europa que tem mais “cultura” que nos EUA? Pelo menos é o que muita gente diz até hoje, em frente aos portões da Eurodisney.
A inserção na dimensão do sonho também faz com que IFM drible algumas de suas falhas. Como quem sonha é David, dá pra perdoar porque os ETs já não o cooptam desde o começo ou porque tantas imagens de arquivo do exército são usadas. Sabemos que é pra poupar dinheiro, mas no universo de IFM é expressão do fascínio e confiança infantil no exército, que vencera a Segunda Guerra e em 53 defendia o “mundo ocidental livre” na Coreia.
Em 1986, Tobe Hooper dirigiu releitura de Invaders From Mars, a partir do roteiro original, colocando até o ator que fazia David como o chefe de polícia. Quando ele se dirige à colina onde caiu o disco voador, diz algo como “Gee, I haven’t been here since I was a kid”. O David original dizia “gee whiz”, quando via os OVNIs.
Fracasso de bilheteria e crítica, houve quem malhasse o IFM oitentista, pelo uso excessivo de efeitos especiais. Desconfio que esse não seja o problema, afinal, será que se os produtores cinquentistas tivessem dinheiro, não bombariam seu filme com os efeitos à disposição então?
O que pega mesmo é que enquanto o original é cheio de personalidade, Hooper dirigiu versão gremlinizada, claramente influenciada por Spielberg. Os marcianos de Hooper parecem versões com elefantíase de Mr. Potato Head, fazendo aqueles barulhinhos característicos de monstro oitentista. Brocha, porque Hooper tem talento pra ser mais do que mero copista: ele é o cara por trás do influente Massacre da Serra Elétrica.
O original praticamente inventou as narrativas de despersonalização por meio de invasão alienígena no cérebro e suas imagens distorcidas, quase Expressionistas às vezes, influenciaram horrores. O de 1986 foi apenas mais um filme, sem sal não por culpa dos efeitos especiais por si, mas por quem os usou sem criatividade.

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