quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

CONTANDO A VIDA 264


HISTÓRIAS QUE GOSTO DE CONTAR: o caipira perdido.

José Carlos Sebe Bom Meihy

Já disse que, quando morto, quero ser cremado, mas... Mas se tivesse uma lápide, ou outra qualquer homenagem feita em material duradouro, ficaria agradecido com uma inscrição singela dizendo “aqui jaz um contador de histórias”. Sim, gosto muito de ouvir e de narrar casos. Os fatos me seduzem mais que as variações filosóficas ou teóricas. Talvez esta seja minha completa tradução de interiorano, de filho de imigrante que adorava conversar. Ouvir, contar e principalmente recontar histórias era a mais praticada experiência de meu pai. Lembro-me que a cada jantar, todos juntos, ouvíamos os melhores casos. E não presidia nenhum tom crítico negativo. Pelo contrário, tudo era narrado como epopeias deliciosas e os caipiras viravam, magicamente, heróis: Ulisses, Zeus, Argos.
Havia tanto encanto que chego a dizer que foram estas historietas que me fizeram optar pela História como matéria profissional. Mais do que Weber, Marx, Bauman, foram as lendas refeitas pelo pai que me enterneceram e conduziram à academia. E essas falas se estenderam a outros campos da percepção, como a música caipira, as rezas e até o herbário, que cura falta de sono, dor de estômago, e falhas do amor. A imagem do “caipira picando fumo” da tela de Almeida Júnior, por exemplo, me encanta pela imponência e pela autonomia em assumir um tempo dedicado ao que dá prazer. O semblante do “picador,” seu olhar atento ao fumo de rolo, me faz evocar saudade de circunstâncias que não se têm mais. Ninguém mais conta casos. Ficamos mudos, e nos restringimos à leituras de mensagens instantâneas, vivenciando o que de pior os aparelhos eletrônicos causam. No meu caso, jogar conversa fora, contando histórias, funciona como antídoto a tudo que temos passado. E luto por reviver as “lendatórias”, então claras e explícitas em personagens que conheci.
E há uma história que gosto de recordar mais que outra qualquer e, antes, vale lembrar que a “contação” caipira implica enredos com começo, meio e fim. Por vital, o sentido trágico ambienta tudo e convida lagrimas que me rolam fáceis. Basta enunciar isso para se ter clareza do impacto de canções como “Menino da porteira”, na intepretação memorável de Sergio Reis. Seria fácil declinar muitas outras “modas de viola”, que se pronunciam nessa direção, mas há algumas histórias que merecem viso. Repasso uma que, particularmente, me acomete sempre. Lembro-me, menino ainda, assombrado com um caso de um tal Seu Dito da Serra. Ele, morador do campo, teria se afastado, interior adentro, a cada vez que a estrada aberta pelo governo chegava próximo à sua casa. Interiorando-se mais e mais, mudava, mudava, mudava, e junto ia toda família com os poucos pertences. Foi indo, indo, indo, indo mais, até que avistou o mar. Assustado, temendo o fim do caminho, depois de noites acordado, meditando, resolveu que ia pegar a estrada e, de volta, descobrir onde ela teria começado. Era como uma vingança, ou raiva matadora de seu destino de fugitivo do tal progresso
Sem avisar ninguém, numa madrugada, juntou algumas coisinhas, fez uma trouxa e a amarrou no cajado que levava às costas. E foi sem se despedir de ninguém. Andou, andou, andou... Viu porteiras novas, as primeiras vendas, as incipientes casinhas que se avizinhavam, outras mais densas, mais algumas, até que chegou à cidade. Continuou, mais outra cidade, outra ainda. Tanto caminhou que o Seu Dito da Serra chegou a outra serra e, perdido entre tantos começos, nunca mais voltou. Não sabia dos retornos. Perdeu-se para sempre e sozinho. De tal maneira este “causo” me marcou, que a cada vez que ouço a expressão “caminho sem volta”, me vem à mente o caso do caipira desvalido. Por lógico, não me faltam digressões filosóficas e até faço ilações com o cancioneiro da MPB e me pergunto se a música “Ponteio” não é decorrência do caso do Seu Dito da Serra: parado no meio do mundo...
O tempo fluiu. Rápido demais para quem contempla o passado da altura de mais de 75 anos de idade. E quando olho o tempo decorrido, quando medito sobre tudo que vivi, me lembro com afeto esparramado da historinha preferida, contada por meu pai. Os olhos verdes e penetrantes dele se fazem voz e entonação para supor o paradoxo de própria trajetória: sai também do interior, mas fiz o roteiro inverso, fui em busca de cidade, cada vez mais, e perdido, desaprendi onde está o lugar de origem. Mas continuo buscando.     

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