quarta-feira, 28 de março de 2012

DESAFIOS NA CONTRATAÇÃO DE DEFICIENTES

Desinformação e falta de valorização são um dos entraves ao processo de integração social

Wesley Rodrigues
As empresas com mais de 100 funcionários são obrigadas, por lei, a manter um percentual de portadores de deficiências (PCD) no quadro de colaboradores. Entretanto, são constatados grandes desafios na integração de deficientes no mercado formal de trabalho. Não basta contratar, é preciso conhecer a deficiência e preparar o ambiente de trabalho para uma integração harmoniosa.
A Lei nº 8.213, de 24 de julho de 1991, prevê cotas para o deficiente no mercado de trabalho. A lei está completando 21 anos este ano e estabelece que as empresas que têm de 100 a 200 empregados devem reservar, obrigatoriamente, 2% de suas vagas para pessoas com deficiência, que podem ser visual, auditiva, física ou mental. Para as empresas que têm de 201 a 500 empregados, a cota é de 3%. Para as que têm de 501 a 1.000 empregados, de 4%. E para as que têm de 1.001 empregados em diante, de 5%.
Auditora fiscal do Ministério do Trabalho e do Emprego (MTE) de Ipatinga, Ana Carolina Timo Alves, aponta que, geralmente, as empresas começam a contratar após a notificação do órgão. “A fiscalização é frequente e reiterada. Na região, as contratações têm sido cumpridas. Caso contrário, haverá a autuação pelo MTE”, afirma.
Mas as empresas alegam dificuldade de contratar PCDs porque nem todas as deficiências se enquadram na Lei de Cotas, informa Ana Carolina. Conforme a auditora, há deformidades que não configuram incapacidade para o desempenho de funções profissionais. Muitas pessoas com deficiência, seguradas pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), na maioria das vezes, optam por não perder o benefício previdenciário, o que ocorre ao se candidatarem a uma vaga de emprego.
A auditora fiscal reforça que a empresa precisa não apenas contratar um deficiente, mas adequar o posto de trabalho às suas necessidades, possibilitando que a pessoa desenvolva suas potencialidades. “O objetivo da lei é integrar pessoas discriminadas devido à sua deficiência”, ressalta.
Vagas
Na unidade do Sine, localizada no Sindicato dos Metalúrgicos de Ipatinga (Sindipa), sobram vagas para os portadores de deficiência, conforme a coordenadora da unidade, Roberta Lares. “Há uma grande demanda de vagas devido à obrigação social das empresas, mas a procura pelos deficientes é muito baixa”, pontua.
Roberta lembra que, na semana que passou, foram oferecidas 14 vagas para deficientes, mas registrou-se pouca procura para o encaminhamento dos profissionais. De forma geral, as vagas são destinadas para deficiências como visão parcial, audição parcial e nanismo. A coordenadora reconhece que vagas para pessoas com maiores limitações são mais difíceis. “Vagas para cadeirante, por exemplo, são raras. Mas é preciso que os deficientes venham e realizem o cadastro, para que a empresa perceba que há demanda. Por vezes, não há vagas, por não ter demanda. O que percebemos é que, em muitos casos, a pessoa com deficiência se esconde”, resume Roberta.
De acordo com o presidente da Associação dos Portadores de Deficiência de Ipatinga (Adefi), Norberto Vieira, um problema recorrente é que muitas empresas oferecem vagas que não aproveitam o potencial do indivíduo com deficiência. Para ele, os cargos são sempre inferiores e de baixa remuneração. “Para deficiente com nível superior é muito difícil conseguir emprego, ainda que o curso possa ser bem aproveitado”, ressalta.
Deficientes intelectuais
Segundo Viviane Samora de Souza, coordenadora de inclusão no mercado de trabalho da Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Ipatinga, a absorção no mercado de trabalho formal se agrava para as pessoas com deficiência intelectual, que apresentam alguma dificuldade de cognição ou de escolaridade. “São raras as vagas para a pessoa com deficiência intelectual e múltipla. Naquelas divulgadas por agências de emprego, percebe-se que só 2% da demanda são voltadas aos deficientes intelectuais”, destaca Viviane.
Atualmente, segundo Viviane Samora, há 40 alunos empregados da unidade da Apae em Ipatinga, resultado do esforço conjunto da equipe de inclusão. Para Viviane, há um receio pelo fato de as contratantes não saberem lidar com pessoas deficientes. “Falta informação e as empresas desconhecem as potencialidades do deficiente”. Para enfrentar este problema, a equipe de inclusão no mercado de trabalho da entidade procura realizar seminários, palestras e demais abordagens com empresários para esclarecer o tema.
“Mudança do olhar”
Sidney Ferreira de Arruda, 25 anos, teve paralisia cerebral no nascimento, o que comprometeu a sua coordenação motora. Apesar das dificuldades, o jovem é escritor e poeta, com trabalhos já publicados e vencedor de concursos literários. Sidney, atualmente desempregado, relata a dificuldade de conseguir trabalho. “Há empresas que, desinformadas, julgam incapacidade de trabalho devido à dificuldade motora. É mais simples contratar pessoas com deficiência leve, por ser mais fácil desenvolver a função. Elas não querem se adaptar às necessidades especiais porque é caro”, desabafa.
A fonoaudióloga da Adefi, Rita de Cássia Simão, teve poliomielite e enfrentou dificuldades para ingressar no mercado. Segundo ela, sempre escutava nas entrevistas que “o currículo é bom demais”, ou “não temos um cargo e salário adequados”. Rita comenta que há deficientes em todas as esferas sociais e não se preparam vagas para advogados, psicólogos, fonoaudiólogo, e outros profissionais de nível superior com deficiência. “A falta de informação está no conhecimento da própria deficiência; o que essa pessoa pode fazer? Quais suas capacidades?”, indaga. “Penso que é preciso uma mudança do olhar para o deficiente. O olhar no sentido de se colocar no lugar do outro, de enxergar o ser humano com suas limitações, mas também com suas potencialidades”, pondera.
http://saci.org.br/index.php?modulo=akemi&parametro=34027

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