sábado, 22 de agosto de 2015

ALBINO GOURMET 183

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

RECONSTRUINDO CORPOS E MENTES

Baraka Cosmas Lusambo, six, reaches out with his new prosthetic hand during a fitting in Philadelphia

‘Ainda Não Sei o Que Fizeram Com Meu Braço’: crianças albinas desmembradas, que estão recebendo próteses nos EUA, revivem os horrendos ataques feitos por curandeiros. 

Tim Mcfarlan
(Tradução: Roberto Rillo Bíscaro)

Cinco crianças com albinismo que estão nos EUA para receber próteses contam como seus membros foram decepados para serem vendidos a curandeiros.
Mwigulu Magesa, Emmanuel Rutema, Baraka Lusambo, Kabula Masanja e Pendo Noni estão em Nova York neste verão enquanto provam suas próteses e aprendem a usá-las. Mas, ao mesmo tempo que esperam por um futuro melhor, suas mentes continuam assombradas pelo que aconteceu a eles. 
Kabula Nkarango Masanja, 17, relembra como os homens que a atacaram inicialmente exigiram dinheiro de sua família – mas eles não tinham nenhum. Sua mãe ofereceu-lhes a bicicleta da família, no lugar, uma vez que era o único item de valor que possuíam. Os brutamontes recusaram, e, segurando Kabula, deceparam seu braço direito na altura das axilas, com 3 golpes. Antes de partirem com o membro em uma sacola plástica, os agressores disseram à mãe que outros homens viriam para retirar os órgãos de sua filha. Até agora eles não apareceram. Kabula conta que pensa constantemente em seu membro ausente. ‘Sinto-me mal, porque ainda não sei o que fizeram com meu braço, onde está, que vantagens sacaram dele – ou se eles simplesmente o jogaram fora’.
Baraka Cosmas, 6, lembra perfeitamente a noite em que homens munidos com tochas e facas invadiram sua casa, no oeste da Tanzânia, deixaram sua mãe inconsciente e retalharam sua mão direita. O garotinho relata: ‘Estávamos dormindo tranquilamente, quando alguém chegou do nada, atrás de mim, com machados’.
Charity founder Elissa Montanti gives Mwigulu Magesa a kiss as he celebrates his 12th birthday with (l-r) Emmanuel Rutema,  Baraka Lusambo, Kabula Masanja and Pendo Noni
Baraka e as quatro outras crianças recebendo tratamento médico nos EUA têm albinismo – alteração genética que resulta em pouca ou nenhuma cor na pele, cabelo e olhos.
Em algumas comunidades tradicionais da Tanzânia e outros países africanos, acredita-se que pessoas com albinismo possuem qualidades mágicas. Partes de seus corpos podem alcançar dezenas de milhares de dólares em um repulsivo mercado negro. Curandeiros as usam em poções que supostamente trariam riqueza e boa sorte.
O albinismo atinge uma em cada 15 mil pessoas na Tanzânia, de acordo com a ONU. Todos os albinos correm risco de serem mutilados ou mortos e vítimas atacadas uma vez, podem ser atacadas novamente.
O governo tanzaniano tornou os curandeiros ilegais ano passado, numa tentativa de conter os ataques, mas anova lei não cessou a carnificina. Na verdade, houve sensível aumento nos ataques no país e no vizinho Malawi, atesta a ONU. Só na Tanzânia pelo menos 8 ataques foram registrados ano passado.
Baraka, Kabula e três outras crianças foram trazidas aos EUA pelo Global Medical Relief Fund, entidade filantrópica fundada por Elissa Montanti em 1997 para ajudar jovens de áreas em crise a obterem próteses customizadas.
Montanti – emocionada por um artigo sobre Baraka – contatou a ONG canadense Under the Same Sun, que luta e protege pessoas com albinismo na Tanzânia, a qual tinha Baraka sob custódia desde que ocorreu o ataque, em março. Quando ela perguntou se podia ajuda-lo, a organização perguntou se ela também poderia auxiliar 4 outras crianças. Ela concordou e trouxe as 5 para passarem o verão em seu lar-abrigo em Staten Island, enquanto experimentavam e aprendiam a usar suas próteses, no Philadelphia Shriners Hospital for Children.
Overawed: The group have their picture taken by the Revlon camera during a trip to New York's Times Square
Uma vez que as crianças estejam adaptadas às próteses, serão mandadas para abrigos na Tanzânia, mantidos pela Under the Same Sun. À medida que as crianças cresçam, serão enviadas aos EUA para receber novas próteses.
Em recente visita ao hospital, Baraka experimentou sua prótese – e brincou com a mão direita de plástico da cor da pele, enquanto esta jazia a seu lado na maca. Seu atrofiado braço direito mal tinha força para levantar a prótese, mas isso era esperado – ele se fortalecerá, uma vez que a mão protética esteja no lugar.
Entre as visitas ao hospital, Montanti preenche o verão das crianças com atividades típicas norte-americanas. No fim de julho, elas foram pela primeira vez a uma piscina, com salva-vidas voluntários supervisionando-as. 
Montanti disse que as crianças se tornaram como seus filhos adotivos, especialmente Baraka.
‘Eles jamais terão seus braços de volta, mas estão conseguindo algo que os ajudará a levar uma vida produtiva e ser parte da sociedade, ao invés de serem vistos como anomalias ou incompletos’.
Charity assistant Monica Watson helps Baraka run away from a wave at Long Beach Island, New Jersey

Eye opener: The group walk through Times Square during their summer in the United States

Baraka has sunscreen applied before he and the others have a dip in a swimming pool for the very first time

Striding ahead: The children's summer has been filled with typical American activities in between hospital visits. Here the group walks through Times Square

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

ALBINO RESGATADO EM MOÇAMBIQUE

NAMPULA: PRM resgata criança albina

UMA criança albina, aparentando dois anos de idade, natural do distrito de Angoche, província de Nampula, foi resgatada no último sábado das mãos de dois cidadãos no distrito de Gilé, na Zambézia, onde se presume que seria vendida ao preço de quatro milhões de meticais.
Segundo o porta-voz do Comando da Polícia (PRM), em Nampula, Sérgio Mourinho, a menor fora raptada por dois supostos membros da sua família, na localidade de Parta, posto administrativo de Namitória, em Angoche, e depois entregue a Albertino António e Selemane Saíde, que se dedicam à actividade de táxi-mota.
Segundo a Polícia, para ludibriar a vigilância, a menor foi embrulhada num casaco e assim transportado até ao distrito de Gilé, onde a Polícia neutralizou os dois indiciados que, entretanto, ainda não avançaram a identidade do mandante do crime.
A menor goza de boa saúde, e segundo a PRM foi ontem transportada para o distrito de Angoche, para ser entregue aos pais.
Recentemente, três pessoas foram detidas indiciadas de rapto de um cidadão portador de albinismo, no distrito de Ribáuè, no interior da província de Nampula.
Segundo o comandante da PRM no distrito de Ribáuè, Agostinho Namahala, a vítima, de 22 anos, foi mantida em cativeiro durante duas semanas pelos três homens, após ter sido convencida a segui-los para a cidade de Nampula, capital da província.
A Polícia suspeita que o grupo pretendia traficar a vítima, num momento em que as autoridades locais registam o aumento de casos de perseguição de albinos para rituais supersticiosos.
Em várias partes do Continente Africano, os albinos têm sido vítimas de homicídio para a extracção de órgãos por pessoas que acreditam que podem ficar ricas se forem tratadas com partes do corpo de albinos.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

É CAMPEÃO! É CAMPEÃO!

Brasil conquista primeiro lugar nos Jogos Parapan-Americanos

País ganhou 257 medalhas, sendo 109 de ouro, 74 de prata e outras 74 de bronze. Performance supera a do Rio de Janeiro, em 2007
Os Jogos Parapan-Americanos de Toronto (Canadá) terminaram no último sábado (15). Os números finais do Brasil traduzem a performance de uma potência esportiva: a delegação chegou a 257 medalhas, sendo 109 de ouro, 74 de prata e outras 74 de bronze. Trata-se do melhor rendimento do País em toda a história do evento, superando o recorde anterior registrado no Rio de Janeiro (RJ), em 2007, quando a equipe paralímpica conquistou 221 medalhas.
No penúltimo dia de competições do Pan, o rúgbi em cadeiras de rodas perdeu a disputa de bronze para a Colômbia por 50 x 48. Se tivesse vencido, o Brasil teria protagonizado um feito histórico: ter subido ao pódio em todas as modalidades em disputa nos Jogos Parapan-Americanos.
Para se ter uma ideia do domínio brasileiro na edição deste ano, o segundo lugar no quadro geral, o Canadá, não chegou à metade das medalhas de ouro brasileiras, conseguiu apenas 50. Os americanos, em terceiro, chegaram a 40.
Acompanhe um resumo do desempenho do Brasil nos últimos dias de Parapan.
Basquete em cadeiras de rodas
A seleção feminina garantiu o bronze ao derrotar a Argentina por 49 x 19. Pela semifinal masculina, o Brasil perdeu para o Canadá por 70 x 54. 
Judô
Foram quatro medalhas para o Brasil na sexta-feira: duas de prata e duas de bronze. As pratas vieram com Wilians Silva, na categoria +100 kg, e Alana Martins (-70 kg). Os bronzes foram conquistados por Arthur Cavalcante (-100 kg) e Antônio Tenório (-90 kg).
Vôlei sentado
Tanto no masculino quanto no feminino, o Brasil encarou as equipes dos Estados Unidos na decisão. Entre os homens, vitória brasileira por 3 x 0 (25/19, 25/17 e 25/14). Já as mulheres foram derrotadas pelas norte-americanas, também por 3 x 0 (25/20, 25/22 e 25/16), e ficaram com a prata.
Natação
Os brasileiros conquistaram mais 16 medalhas nesta sexta e completaram 104 pódios na modalidade em Toronto, na liderança do quadro de medalhas. O Brasil fez dobradinha nos 100m livre S10, com André Brasil e Felipe Melo, nos 200m livre S1-5, com Daniel Dias e Clodoaldo Silva, e nos 200m livre S5 feminino, com Joana da Silva e Esthefany de Oliveira. Já nos 100m livres S9, o  pódio foi 100% nacional: ouro para Vanilton do Nascimento, prata para Ruiter Silva e bronze para Matheus da Silva.
Tênis em cadeira de rodas
O Brasil conquistou duas medalhas, uma de ouro e uma de bronze. O destaque ficou por conta de Natália Mayara, que venceu a final individual contra a norte-americana Kaitlyn Verfuerth por 2 sets a 0, com parciais de 7/6 e 6/2. O bronze veio com Daniel Rodrigues, que superou o colombiano Eliecer Oquendo por 2 sets a 0, com parciais de 6/0 e 6/1.
Futebol de 5
Em um clássico contra a Argentina na grande final, o Brasil foi superior e venceu por 2 x 1, com gols de Jefinho e Ricardinho. 
Atletismo
Foram mais 18 medalhas na sexta, no encerramento da modalidade em Toronto. Ao fim, foram 80 pódios: 34 ouros, 28 pratas e 18 bronzes. O segundo lugar ficou para os Estados Unidos, com 53 medalhas, sendo 19 de ouro. O Canadá terminou em terceiro, com 43 pódios (também com 19 ouros).
Rúgbi em cadeira de rodas
Única modalidade que não conquistou medalha para o Brasil em Toronto, o rúgbi teve uma acirrada disputa pelo bronze. Com placar final em 50 x 48, os brasileiros acabaram derrotados pelos colombianos.
Goalball
As mulheres brasileiras entraram em quadra duas vezes na sexta. De manhã, pela semifinal, a equipe derrotou a Guatemala por 10 x 0. Já à noite, na grande final, mais uma vitória para o Brasil, desta vez em cima das norte-americanas, por 7 x 6. No masculino, os brasileiros derrotaram a Argentina por 9 x 4.
http://www.brasil.gov.br/esporte/2015/08/brasil-conquista-primeiro-lugar-nos-jogos-parapan-americanos

CONTANDO A VIDA 119

Partindo de uma letra de Lupicínio Rodrigues, nosso historiador-cronista interliga música, criação de filhos, maioridade penal, adolescência e mais num texto pra lá de sensível. 


DILEMAS DA JUVENTUDE...

José Carlos Sebe Bom Meihy

Lupicínio Rodrigues estava inspirado quando escreveu “Esses moços” e assim entoou palavras melodiosas “Esses moços, pobres moços/Oh, se soubessem o que sei/Não amavam, não passavam/ Aquilo que já passei/ Por meus olhos, por meus sonhos/ Por meu sangue, tudo enfim/ É que eu peço/ A esses moços/ Que acreditem em mim”. Mergulhei mais fundo no significado desta letra inspirada. E dei asas à imaginação. Ouvindo a voz inconfundível do falecido Jamelão, me deixei flanar em meditações sobre a diferença de idade e as responsabilidades do crescimento. Sim, como pode ser interessante o recado de uma geração para outra! Por certo, a referência do autor gaúcho remetia às questões amorosas, mas serve para outras esferas também. Nesta linha, aliás, precisamos ter claro que falo de uma idade mais avançada, alguém que já dobrou sete décadas. E do posto de minha dicção, me coloco como avô, pai, professor, alguém que enfim acha que acumulou algumas lições. É lógico que os anos somados não garantem muita coisa, pois há moços que detém mais vivência do que muitos velhos e muitos coroas que se apresentam como meninos. De toda forma, aprendemos que a juventude é mais bonita e desejada depois que passa. Enquanto somos jovens, vivemos querendo ser adultos ou, em tantos casos, voltar à infância. Assim, entramos no teor central desta conversa: os dilemas de ser adolescente e jovem.
Digamos que considerando a realidade atual, alguém ainda não é adulto ou maduro dos 12 até os 22 anos. Sei que essa proposta é criticável, mas levei em conta para tal indicação a média de idade do pais que é 69,4 anos. Também devemos ter em mente que dois fenômenos atrapalham a consciência da maturidade: o fato de se ampliar a geração “nem-nem” – dos que não estudam e nem trabalham – e o persistente fenômeno da “geração canguru” – que não deixam a casa dos pais até se casarem, e, o que é mais estranho, criticam os que optam por ter uma vida independente. E isso pode se estender, pois como se sabe, um em cada quatro brasileiros até 34 anos de idade quer continuar sob as benesses familiares.

No Brasil dois outros fatores contribuem para o atraso no amadurecimento geracional dos jovens: a infantilização dos comportamentos e o culto ao corpo. No primeiro caso, é incrível como, de modo geral, nossos filhos são tratados como crianças. A superproteção parece ser uma doença contagiosa, verdadeira epidemia, e o tratamento comum faz com que, principalmente na classe média, se interdite os filhos do amadurecimento desejável. Por outro lado, o conceito de corpo jovem, bonito, trabalhado, confunde a aparência. O encadeamento de deslocamentos culturais, por seu turno, provoca outras confusões que, sem dúvidas, são mais consequentes, porque se refletem na educação e na política. Vejamos, por exemplo, em termos educacionais como tratamos os jovens referindo-se “àquela idade”. De regra, desenvolvemos alguns preconceitos que tangendo o humor revelam incertezas. A palavra “aborrescente” está aí para provar de forma canhestra à tal “revolução nos hormônios” ou os gestos estabanados de quantos fisicamente deixam de ser crianças e ainda não atingiram a condição adulta. A precariedade dos conceitos é parte do jogo impreciso dado pela nossa cultura que calibra a aceitação etária dependendo do caso. Assistimos agora, de maneira absurda e desprovida de argumentos educacionais, a discussão sobre o limite da maioridade penal. Usando a violência e insegurança como critérios decisórios, nos perdemos da moral. Sem levar em conta que construir escola é mais barato e útil do que fazer presídios, esquecemo-nos de que existem classes sociais, e mais, que os penalizados, historicamente desfavorecidos, serão moços negros, sem educação formal, e sem oportunidades. Outra vez reponta a debilidade cultural de pensar uma política para os jovens, em particular os desfavorecidos. Questões sérias como o primeiro emprego, tempo parcial de trabalho, escolas de qualidade em tempo integral, são trocadas por temas vagos como impunidade. É aí que recobro a proposta de Lupicínio Rodrigues e repito para mim mesmo “moços, estes moços/ Oh se soubessem o que sei”, e, o que sei é que está tudo errado na consideração desta matéria.    

terça-feira, 18 de agosto de 2015

TELINHA QUENTE 173

Roberto Rillo Bíscaro

A primeira metade dos anos 80 assistiu à Segunda Invasão Britânica no mundo pop e jovens oriundos de subúrbios ou lugarejos ingleses foram catapultados ao estrelato global em questão de meses. O Culture Club, com sua liquefação de influências e etnias e a androginia adestrada de Boy George, indiscutivelmente é ícone do período. Em pouco mais de 3 anos, a banda saiu do anonimato, conquistou a Terra e caiu mortalmente ferida com escândalos e queda na popularidade. Karma Chameleon sempre estará entre as canções-símbolo da década, como Rock Around the Clock estará pros 50’s e assim por diante.
O telefilme Worried About the Boy (2010), da BBC, foca nas desventuras românticas de George O’Dowd – nome de batismo da drag – meio que pra explicar/justificar sua adição à heroína, que o levou às páginas policias e aos tabloides nos meados oitentistas. Contrapondo a fase pré-Culture entre 80-2 e o auge da baixaria (da época, porque bafão não faltou na trajetória da tia da Lady Gaga!) em 86, a explicação pro azar do inseguro George com relação ao amor é a seguinte: seu visual muito feminino não agradava aos homens gays, mas sim aos héteros, que fantasiavam-no como mulher pra justificar inconscientemente seus desejos homoeróticos. Claro que essa muleta psicológica sempre quebrava e os machildos de Boy George – dentre eles o baterista John Moss, do próprio Culture Club e Kirk Brandon, vocalista punk do Theatre of Hate e do Spear of Destiny – surtavam e saiam correndo atrás de vagina, deixando o cantor com o coraçãozinho partido. Pena que o roteiro não tangencia nem de longe a homofobia internalizada de George ao se apaixonar apenas por homens “heterossexuais”.
Douglas Booth está impecável no papel do jovenzito George que sai da casa dos pais no subúrbio pobre e vai viver em prédios abandonados em Londres (os squats), onde encontra uma exótica fauna disposta a quebrar as últimas normas do convencionalismo vitoriano, que os punks ainda não o tivessem feito. Vestidos ultrajantemente, essa galera se reunia no hoje lendário Blitz Club, e seria a ponta de lança do New Romantic, que deu ao mundo delícias como o Duran Duran e o Spandau Ballet. Steven Strange, do Visage, Malcolm McLaren (interpretado por Mark Gatiss, que apresentou série sobre filmes de horror, resenhada aqui), está todo mundo no filme. A grande sacada foi em relação a David Bowie, inspiração maciça dos New Romantics, que o tinham literalmente como um deus. Como Deus a gente não vê, quando o Camaleão visita o Blitz, também não é mostrado.
Com esmerada trilha sonora – Siouxsie and the Banshees, The Human League, Soft Cell – Worried About the Boy é uma sensível mostra do que há por trás da persona pública duma grande celebridade, da qual hoje tendemos a lembrar apenas dos escândalos e da decadência, mas que, antes de mais nada, é um ser humano tão vulnerável como nós “anônimos”.
Há cópia legendada em português no Youtube. Não dá pra incorporar à postagem, mas você pode vê-la clicando no link:

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

CAIXA DE MÚSICA 179


Roberto Rillo Bíscaro

Giorgio Moroder é um dos progenitores da música pop contemporânea. Quando Brian Eno ouviu a disco music robotizada de I Feel Love, cantada por Donna Summer e produzida pelo italiano, correu a mostrá-la a David Bowie, dizendo que era o som do futuro. Não é pouca coisa ser respeitado por 2 figuras emblemáticas dos 70’s. O baixo gordíssimo e os sintetizadores de Moroder influencia(ra)m meio mundo, de Blue Monday, da New Order a faixas do mais recente trabalho da inglesa Little Boots.
Inventor da eurodance, eurodisco ou Italo Disco, dance, House, como queira chamá-la, Moroder ganhou Oscar com a pioneira trilha sonora de Expresso da Meia Noite e passou parte dos anos 80 papando Grammys, Oscars e produzindo hits. Pra citar algumas faixas oitentistas dele: Call Me (Blondie), Together in Electric Dreams (Phil Oakey), Take My Breath Away (Berlin) e as trilha sonoras de Flashdance e Footloose.
Pouco depois que a segunda metade dos 80’s começou, Moroder se aposentou e foi viver em estilo, casando, tendo filho, construindo apartamentos milionários em Dubai, jogando golfe e dirigindo carros caros. O septuagenário achava que estava esquecido e com a missão cumprida até que os franceses do Daft Punk convidaram-no prum depoimento no álbum Random Access Memories; sucesso espatifante que encetou um revival total de disco music e com isso a careira de Giorgio ascendeu novamente. Uma fila de gente como Coldplay, Lana del Rey e Lady Gaga queria ser produzida pelo ex-bigodudo, que também passou a discotecar pra 30 mil pessoas.
Convém escutar a produção setentista de GM pra perceber sua importância pra sonoridade atual. Saca só este tributo:


Ele deixou o bigode crescer novamente e lançou trabalho em junho. Dèjá Vu merecidamente encabeçou a lista de mais vendidos da Billboard na categoria dance/electronic. Não traz novidade (e nem precisa com o CV do cara!), mas, apesar de ter os elementos que elevaram Giorgio à categoria de divindade pop não soa datado, como se produzido no auge de seus 30 e poucos anos.
A dúzia de canções divide-se entre instrumentais, como 4 U With Love, La Disco e 74 Is the New 24, onde os vocais manipulados (será que dele?) e o baixão poderoso remetem a clássicos como o álbum postado acima. Mas, esses elementos estão imersos em sonoridade bastante atual. As canções com vocal trazem convidados de peso, como Sia, cantando a infecciosa faixa-título, com seu vocal mistura de Amy Winehouse com Eartha Kitt, que dá vontade de sair pulando como se ouvíssemos uma faixa da trilha de Flashdance. Kylie Minogue é viagra natural em Rigth Here, Right Now: há tempos faixa tão sexy não despontava. Electrofunk com baixo e guitarrinha inquietos e fogosos. Toda vez que La Minogue canta “till the skies ain’t blue”, alguém goza. Britney Spears nada acrescenta a Tom’s Diner, mas daí, ela já acrescentou algo a alguma coisa? O teclado de Don’t Let Go e a interpretação de Miky Ekko (quem?) levam diretamente à Italo Dance de meados dos 80s.
Não há faixa fraca ou chata em Dèjá Vu; retorno do Mestre em plena forma e charme. Junto com o Kraftwerk (que GM sempre diminui quando pode), ele é responsável por muito do que amamos ainda hoje. Não haveria Skrilex ou Hot Chip sem esses europeus. Só por isso, esse álbum deveria ser ouvido.


Colcaram essa delicinha cremosa no Youtube, obaaaa!

domingo, 16 de agosto de 2015

NOVA BALEIA ALBINA

Rara baleia albina é flagrada em vídeo na Austrália

Uma rara baleia jubarte albina foi vista nas águas de Gold Coast, o litoral leste da Austrália. O animal foi filmado por um grupo de turistas que estavam na região na última segunda feira (10).
O encontro com o animal gerou especulações de que a baleia poderia ser Migaloo, a primeira baleia albina que ficou conhecida no mundo, que frequenta regiões da Austrália e da Antártida.
Apesar da suspeita, pesquisadores acham que esta pode ser uma nova baleia albina. Isso porque, inicialmente, o animal parece menor que Migaloo. Porém, caso o espécime realmente seja a famosa baleia, esta será a primeira vez que ela vista em dois anos. Seu último registro foi feito em 2013, pela fotógrafa Jenny Dean.
http://topbiologia.com/rara-baleia-albina-e-flagrada-em-video-na-australia/

A SUPERAÇÃO DE SYLVESTER STALLONE

Conheça um pouco da luta do astro Sylvester Stallone, que superou pobreza e adversidade física para chegar ao superestrelato. 

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

CIRCULANDO A ISLÂNDIA VI

Ainda do avião, deu pra perceber a atividade termal na Islândia. Lá de cima via-se um geyser pipocando, maravilhoso espetáculo de boas-vindas à ilha. Durante a semana e pouco da visita, diversas oportunidades de conhecer lagoas de água quente (algumas com cheirão de enxofre que doía!), fumarolas e geysers. O país aproveita a energia geotermal pra construir estufas onde são plantados tomates, pepinos e diz-se que ora experimentam até com café. Pensou que tapa na cara de certos países que têm tudo muito mais facilmente, mas não aproveita racionalmente o disponível e ainda perde muito com desvios e corrupção? Viva a pequena e eficiente Islândia!
Esta última postagem sobre a Islândia enfocará seu lado caliente!



















quarta-feira, 12 de agosto de 2015

FRUSTRANDO RAPTORES

Dois indivíduos detidos na tentativa de rapto de menor albina

Estão detidos dois indivíduos por tentativa de rapto de uma menor albina, de cinco anos de idade, com o intento de retirar o seu cabelo para fins obscuros, mas, graças a intervenção da população o rapto não foi consumado.
O causo deu-se em Nacala-porto, na zona residencial de Locone, quando dois indivíduos, por cinco mil meticais, tentaram extrair o cabelo da menor para, segundo os raptores, efeitos de cura de uma criança recém nascida com problemas de fazer necessidades biológicas.
“O nosso amigo Tomás, que não está aqui é que procurou-nos para arranjar esse tipo de cabelo a fim de entregá-lo a um curandeiro com o objectivo de tratar essa criança”, contaram os raptores detidos no posto policial de Mocone.
Refira-se que este não é o primeiro caso que se dá naquela cidade turística, de jovens que cometem crimes para fins de obscurantismo em troca de dinheiro.
Fonte: http://noticias.mmo.co.mz/2015/07/dois-individuos-detidos-na-tentativa-de-rapto-de-menor-albina.html#ixzz3iQp3fB8Z

CONTANDO A VIDA 118

Nosso cronista-historiador se derrama em elogios ao Papa Francisco. Eita argentino danado esse, seduzindo muitos brasileiros!

O PAPA ESTRELA CADENTE!...

José Carlos Sebe Bom Meihy
O século XXI mal começou e já elegi o personagem emblemático, mais importante, da centúria: o Papa Francisco. Duvido que algum outro tipo possa comover e provocar mais que ele. “Está pra nascer”, diria. Indo além do elogio periférico, é preciso dar garantias, edificar argumentos capazes de sustentar minha ousadia qualitativa. E seria fácil. Bastaria, por exemplo, citar o posicionamento amoroso junto aos gays; a abertura para maior participação das mulheres nos polos decisivos – inclusive rituais –; os pedidos de perdão aos indígenas, judeus e às vítimas de pedofilia exercida por sacerdotes, e agora, o acolhimento a casais de matrimônios que não deram certo. Isso sem falar da discussão sobre o celibato de religiosos. A coleção de avanços promovidos pelo Sumo Pontífice é surpreendente. Até entendo a profundidade desta referência, lembrando que a expressão solene “pontífice” deriva de “ponto”. Sim, o Papa deveria representar a palavra final, o sumo ponto, da prática e vivência religiosas.
Pensando nessas (re)conquistas, me vejo cativado à retomada de meu posicionamento religioso. Permitam-me breve digressão histórico-pessoal. Nasci e fui criado em lar católico. Sempre gostei de rezar, de seguir rituais sagrados e até de estudar a Bíblia. Tudo mudou quando fui aluno de colégio interno, sob a mira de severos salesianos. Saí daquela escola abominando aspectos da religião, em particular o verticalismo autoritário que hierarquizava tudo. Tive uma reconversão durante a ditadura militar, movido em muito pelo papel sensível de Dom Evaristo Arns frente a defesa da democracia. Fui ardente admirador da teologia da libertação e até, por essa época, entrei de cabeça nos movimentos religiosos que prometiam outra igreja. Lembro-me emocionado do apoio às Comunidades Eclesiais de Base e do entusiasmo de trabalhar em colégio religioso. Aconteceu, porém, que a retomada conservadora dos anos de 1990 em diante, novamente me jogou na descrença. Diria que estava acomodado e que descansava à sombra, num aprazível “deixa disso”. Mas, eis que de repente me aparece o Papa argentino. Confesso que ele me perturbou desde o começo e um dos efeitos provocados foi uma miragem na minha própria trajetória. E tudo ficou mágico. Uma das implicações disso foi a revisão que fiz de minhas atitudes capitais em função do histórico pessoal cristão.
Não pensem que a situação me é fácil. Nada! Estou mergulhado em dilemas sérios, pois não tenho mais o desprendimento de quantos creem sem necessidades de se justificar. Acatar pressupostos religiosos nessa altura da vida demanda explicações severas. Para mim, hoje, os pecados capitais não são mais aqueles de antigamente. Acho que a miséria, a exploração dos outros, o consumismo, a violência, sãos as grandes iniquidades praticadas pelos humanos. Mas, ironicamente, é exatamente aí que o Papa Francisco me tonteia. Ele critica tudo isso e o faz de maneira cativante, simples, com as palavras que queria ouvir. E não se exaure em dizer. A simplificação do ritual doméstico, com a suspensão do luxo no Vaticano, as constantes quebras de protocolo e os dribles na segurança pessoal, e até o fato de torcer por um time “menor” de futebol o humaniza de maneira santa. Gosto da imagem dele.

Sei que devo lembrar que o Papa não é a igreja e que esta, como instituição sólida que é, não mudará tão cedo. É-me claro que alguns segmentos conservadores já afiam as unhas, mas não dá para deixar a esperança e ficar passivo aguardando resultados. É assim que me coloco na berlinda: tenho que tomar posição. E tomar posição implica aderir. Foi pensando nisso que me veio uma imagem significativa. O Papa Francisco se afigura na noite do meu céu pessoal como uma estrela cadente. Sei que estrela cadente não é propriamente estrela, mas lampejo de brilho intenso que transita no espaço, meteoro de massas desintegradas de outros astros. Ao entrar na atmosfera, tais “estrelas” encantam os que olham a noite. O fascinante das estrelas cadentes é que elas deixam memórias, marcam. Por enquanto o Papa Francisco está brilhando. Preciso de tempo para ver o impacto dessa luz forte no meu firmamento pessoal. Mas algo já mudou. 

terça-feira, 11 de agosto de 2015

ZOOFILIA EM MOÇAMBIQUE

TARTARUGAS ALBINAS NASCEM NA ILHA VAMIZI EM MOÇAMBIQUE

Imagem: Reddit

Após muitos anos de vigilância, ainda há coisas que surpreendem o “staff” do centro de pesquisa de Vamizi.

Pela primeira vez nesta ilha moçambicana, no projeto de monitorização que começou há 10 anos, foram encontradas quatro crias de tartaruga-verde albinas, no local de desova mais bem sucedido. Duas das tartarugas ainda estavam vivas. O mais interessante, e fora do normal, é que as crias têm olhos vermelhos (falta de pigmentação), uma consequência comum do albinismo em alguns animais.
Segundo Joana Trindade, gerente da Comunidade de Conservação da ilha Vamizi, “não há registos de alguma vez ter nascido outras tartarugas-verdes albinas sem pigmentação nos olhos. Recolhemos amostras, para tentar descobrir como isto ocorreu em tartarugas-verdes (…). Também já contactamos outros especialistas em tartarugas, para obter mais informação sobre possíveis ocorrências similares noutros projetos”.
Inaugurado em 2005, o “resort e centro de pesquisa de Vamizi tem sido gerido pela Sociedade Zoológica de Londres e a WWF. Em Abril de 2014, Vamizi estabeleceu uma parceria importante com a IUCN, com o objetivo de reforçar a preservação do Canal de Moçambique.

Foto: Joana Trindade
Foto: Joana Trindade
Foto: Joana Trindade
Foto: Joana Trindade

TELINHA QUENTE 172

Roberto Rillo Bíscaro

No final dos anos 70, a imprensa sensacionalista britânica divulgou suposto caso de ataque fantasma a uma família suburbana na Grande Londres. O caso ficou conhecido como The Enfield Poltergeist e até hoje há quem jure que muito não passou de armação de 2 adolescentes. Em maio, o Sky Living exibiu produção própria de 3 capítulos sobre o caso. Pra fãs de TV inglesa é ótimo notar que o canal começa a oferecer programas seus, de qualidade, pra somar às consagradas produções da BBC e da ITV.
The Enfield Haunting foi dirigida por Kristoffer Nyholm, de Forbrydelsen (o que tenho afirmado sobre Nordic Noir ser tendência?) e não deixa a tradição britânica de boas histórias de assombração arrefecer. Mesmo que seja contada por um danês, mas isso é detalhe.
2 adolescentes, cujo pai se mandara recentemente e agora vivem apenas com a mãe que se desdobra pra dar conta do recado, começam a relatar apavoradas, fenômenos inexplicáveis e logo percebemos que o foco é a mais nova, Janet (Eleanor Worthington Cox, prestemos atenção a essa atriz de 13 anos que já faturou até prêmio no prestigioso West End londrino). Cômodas arrasando-se sozinhas, aparições no espelho e vozes distorcidas de capeta passam a fazer parte do cotidiano da casa simples, o que torna o horror mais intenso, porque pode acontecer a qualquer de nós e não apenas em góticas casas enormes.
2 investigadores de casos paranormais entram em cena: um cético; outro, pronto a acreditar, até porque Janet era o nome de sua filha morta num acidente de moto. Mas, isso não comprometeria a pretensa “imparcialidade” que deveria ser mantida? Será que o angínico senhor destruído pelo passamento da filha não seria o imã pro poltergeist? Ou seria a fragilidade emocional da família Hodgson a facilitadora pro ataque da legião do mal?
Qualquer que seja a resposta – assista e descubra! – The Enfield Haunting diverte e assusta com cortinas tentando estrangular, gente sendo atirada contra o teto, meninas sacudindo de camisolinha na cama (ah, esse fetiche exorcista desses demônios pedófilos, viu!), blasfémias e inúmeras menções a Brasil, porque um dos investigadores recentemente estivera no estado de São Paulo estudando um caso. Ele até cita o nome da cidade, mas esqueci.  
 O durante é muito melhor que a conclusão, mas The Enfield Haunting pode se sair com a desculpa de que foi baseado em fatos. Isto posto, basta apagar a luz e arrepiar-se com essa competente minissérie.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

MOÇAMBIQUE NO MAPA DO PERIGO ALBINO

Albinos vítimas de feitiçaria

Em Moçambique o tráfico de órgãos de pessoas albinas continua a alarmar a sociedade. Desta vez a denúncia parte da associação de médicos tradicionais- AMETRAMO - que veio exigir do governo uma resposta implacável para terminar com esta prática que atinge a província de Nampula.

Associado a superstição o tráfico de pessoas albinas para a extracção de órgãos ganha contornos alarmantes em Nampula província do norte de Moçambique e por isso a associação dos médicos tradicionais de Moçambique AMETRAMO exige do governo mão dura a estes casos.
Fernando Mathe porta-voz da Associação dos médicos tradicionais refere que é necessário que o executivo logo que tenha qualquer informação sobre estas práticas deve intervenha rapidamente junto dos responsáveis para evitar o pior e responsabilizar os implicados.
Fernado Mathe deixa ainda um aviso aos traficantes de órgãos para que terminem com esta prática, que considera criminosa e que esta a por em risco a vida de pessoas inocentes.
A imprensa moçambicana, e associações de defesa dos direitos da criança, têm feito referência nos últimos dias, ao rapto, de 4 crianças que sofrem da doença do albinismo, e que são brutalizadas, na província de Nampula.
No entanto, o governo moçambicano, que está consciente, desta situação e já traçou um plano de acção para ajudar os albinos e seus familiares. Em entrevista à RFI, Francisca Lucas, Directora-adjunta, no Ministério moçambicano da Acção social: "o plano faz a promoção dos direitos das pessoas com deficiência, também, são criadas condições de acesso aos serviços, sabendo, que pessoas, com o albinismo, requerem da necessidade de saúde, no que diz respeito à dermatologia, e também, é feito, um trabalho, a nível das famílias, para evitar, que as pessoas albinas, sejam rejeitadas".
Até ao momento a polícia confirma o rapto de cinco albinos na província nortenha de Nampula.
http://www.portugues.rfi.fr/mocambique/20150809-albinos-vitimas-de-feiticaria

CIRCULANDO A ISLÂNDIA V


Vulcanismo é atividade constante na pequena Islândia. Quase qualquer história a respeito de formações naturais e mesmo algumas sobre fatos têm a palavra erupção mencionada ao menos uma vez. Uma das paisagens mais espetaculares que já vi - e não terei como esquecer, salvo alzaimerzado  - é a praia negra de rocha vulcânica. Visitei-a em dia cinzento e chuvoso; talvez com sol o contraste tivesse sido ainda mais impactante. Mas, senti-me literalmente em outro planeta; foi incrível!










  

CAIXA DE MÚSICA 178

Roberto Rillo Bíscaro

Nos anos 80, DJs ingleses começaram a mesclar jazz – de preferência artistas mais obscuros – com electronica. A adição de acid house a porções de jazz, soul, R’n’B, funk e hip hop resultou no acid jazz, que hoje talvez nem exista mais como termo, mas é considerado a maior contribuição britânica ao jazz. Os 3 primeiros anos dos 90’s assistiram ao apogeu do sub-gênero com bandas como Brand New Heavies e US3 tocando e vendendo muito. O movimento teve inúmeros artistas interessantes não apenas na Inglaterra: até a oitentista brasuca Patrícia Marx tem álbum listado na Discogs como de acid jazz. Sem contar que Marcos Valle virou queridinho nos círculos londrinos mais descolados por um tempo. Da Suécia veio Koop; da Áustria, Count Basic; da Alemanha, Jazzanova, enfim, muita coisa chique tem sido produzida, mesmo que agora não se chame mais acid jazz.
Um dos grupos de que mais gosto é o britânico Incognito, que em 1981 estreou com o álbum Jazz Funk. Desde então, são uns 15, 16 LPs (ai que antigo isso!), sem contar inúmeros remixes e participações especiais. O pico comercial veio no auge da exposição midiática do acid jazz, quando Always There com a divina gritona Jocelyn Brown incendiou a parte de baixo do Top Ten inglês.


O inventor do combo, Jean-Paul Maunick, adora chamar vozes negras norte-americanas pra dar bafão (no bom sentido) nos álbuns. Foi através de Incognito que conheci Maysa Leak. Step Into My Life, do álbum de 93, foi um daqueles momentos de epifania chique. Escute e depois que parar de tremer/fazer pose/mexer mãos/desfilar, volte a ler esta resenha:
Já se recuperou? Prossigamos.
Natural e ainda residente de minha querida Baltimore, Maysa tem respeitada carreira com mais de dezena de álbuns e este ano uma de suas canções foi indicada ao Grammy na categoria de melhor interpretação em R’n’B. Jamais adquirindo status de diva de massa, Maysa mantém base de fãs cativa e arranca elogios de Steve Wonder e se apresenta perante os Obamas.
No final de maio, saiu Back 2 Love, lançamento discreto como a maioria de suas performances vocais. Quase nada nas seções de música da grande imprensa; a maior parte das poucas resenhas está em sites de soul, jazz ou R’n’B.
Maysa escolhe ser diva de tons médios e voz aveludada; quem só curte gritaria nem perca tempo. Na dançante Miracle, ela mostra que tem poder vocal pra isso, mas mesmo aí a maior parte é sem exagero. O álbum não apresenta revolução em relação aos anteriores, mas na faixa-título sente-se pontadinha de hip hop, bem, bem discreto, mas não se preocupe quem odeia: não há falação e os menos atentos pensarão tratar-se apenas de faixa dance.
Heavenly Voices sintetiza o melhor do trabalho de Maysa pra quem tiver seu primeiro contato: smooth jazz salpicado de R’n’B, daqueles apropriados pra tocar em programas noturnos elegantes de FM urbana. Last Chance for Love, urban jazz soul duetado com Phil Perry vai te levar diretamente pra segunda metade dos 70’s, puro paraíso romântico.
Tear It Up, Tear It Down é jazz funk suingado e The Radio Played Our Song flerta com o pop. Funk, jazz, soul, R’n’B misturados em deliciosas canções e sedosas interpretações, pra que Maysa alteraria fórmula tão eficaz e agradável?
As 11 faixas são solidamente deliciosas (o álbum tem 12, mas a faixa-título aparece repetida no final sob forma de remix quase idêntico ao original. O Simply Red também fez essa bobeira, vai entender), mas há um destaque. Keep It Movin’ com seu agudo riff de guitarra sacana, vocal de Stokley Williams e produção de soul contemporâneo com pitadinhas de hip hop é absolutamente rebolativa e viciante.
Homogeneamente bom, Back 2 Love deverá agradar quem curte black music bem urbana e moderna. Pena que não seja muito divulgado, mas quem precisa da grande imprensa com tantos blogs e sites ?