segunda-feira, 12 de novembro de 2012

‘ELA É TÃO HUMANA QUANTO QUALQUER PESSOA”



No último dia 11, um jornal de Ruanda, na África, trouxe a comovente história de um casal formado por uma albina e um pigmentado.
A matéria revela muito do preconceito enfrentado pelos albinos em diversas partes do continente, por isso, resolvi traduzi-lo.  

Ele Desposou uma Albina Contrariando a Todos
(Tradução: Roberto Rillo Bíscaro)

Como você reagiria se seu filho trouxesse uma mulher albina para casa, contrariando todas as suas bênçãos matrimoniais? Muitos pais (ou parentes próximos) se chocariam e tentariam evitar o casamento.   

Mas, e se os noivos decidissem levar o matrimônio adiante, a despeito da opinião familiar?

Foi o que fizeram Ntamugabumwe Nkambi ya Baridi, 53, e a albina Sifa Akimana, 29, há seis anos, quando decidiram ignorar os protestos de familiares e amigos.  

“Minha primeira esposa falecera e me apaixonei por esta mulher”, explica  Ntamugabumwe. “Eu conhecia minha atual esposa desde que ela era criança; então, quando nos apaixonamos, decidi casar com ela, sem dar ouvidos aos muitos que tentavam me desmoralizar.”  

As pessoas riam dele e tentavam dissuadi-lo de desposar uma mulher com albinismo.



“Eu dizia a todo mundo que tinha decidido me casar com uma albina, porque a amava e nada mudaria minha escolha. Tive que lutar muito por ela”, relembra Ntamugabumwe.
Ntamugabumwe, que fala Kinyarwanda e um pouco de francês, fala com paixão sobre seu casamento informal. Uma união que tem sobrevivido a enormes desafios. Ele discorre sobre o interminável amor que tem por sua esposa, discriminada pela sociedade.
“Eu a amo tanto”, enfatiza. “Eu a amo e ela me ama. Nos amamos e constituímos uma família feliz”, afirma Ntamugabumwe em alto e bom som, como para certificar-se de que todos a seu redor possam ouvir sua mensagem e espalhá-la.  
Mas, como Ntamugabumwe superou os vários estereótipos sobre albinismo em uma sociedade onde muito raramente um homem “normal” se casa com uma albina?
“Percebi que ela era tão humana quanto qualquer uma”, conclui Ntamugabumwe.
O marido – que chama a esposa de “bebê, para enfatizar a intensidade de seu amor -
Insiste que o matrimônio de seis anos sempre foi feliz.
“Mesmo quando temos um mal-entendido, como qualquer casal, resolvemos amigavelmente.”
As declarações de Ntamugabumwe são comprovadas pela esposa, que afirma jamais ter visto um homem tão romântico quanto o esposo. 
“Sempre que preciso dele, ele está ao lado”, afirma Akimana.
“Recentemente, me envolvi em um acidente na rodovia e fraturei a perna”, conta, enquanto aponta para a perna esquerda, engessada. “Meu marido me ajuda em tudo: me dá banho, lava as roupas e cozinha. Quem poderia competir com ele?”   
Akimana afirma que não se casou com o marido devido a sua situação. “Não me casei com ele por ser albina. Absolutamente! Casei por amor.”



O casal está sempre junto na cidade ou tomando cerveja num bar, relatou um residente da aldeia. 
“Não tenho vergonha de ser visto em público com minha esposa,”, diz Ntamugabumwe.
Devido à pobreza, o casal não formalizou a união na igreja. Para sobreviver, a família depende do dinheiro ganho pelo marido, que conserta panelas. Isso não afetou o relacionamento, porém. “Espero viver com ela para sempre”, diz Ntamugabumwe.
Estima-se que uma em cada 20 mil pessoas no mundo sejam albinas. Mas, o número real de pessoas com albinismo em Ruanda é desconhecido. 

Discriminação
Uma série de estereótipos acerca do albinismo têm impedido os albinos de desfrutarem do melhor que a vida oferece.
Estereótipos variam de acordo com as culturas, mas, alguns afirmam, por exemplo, que se você tocar um albino, ficará “branco”. Ou que se você estiver grávida e encontrar um albino, seu bebê pode vir branco.
Albinos têm sido até mesmo associados à superstição e poderes mágicos em algumas culturas, resultando em assassinatos. Na Tanzânia e no Burundi, por exemplo, um aumento no número de crimes ligados à feitiçaria vem sendo observado nos últimos anos. Partes de seus corpos são decepadas e vendidas para feitiçaria.     
Em muitas outras culturas, os albinos enfrentam segregação e ameaças e em alguns casos, são mortos após o parto para evitar discriminação. Outras comunidades erroneamente consideram os albinos incapazes e não os enviam á escola, usando o pretexto de que seria desperdício de dinheiro.   
Embora não tenha havido assassinatos em Ruanda, a segregação em casa e na escola ainda é um desafio para os albinos.
“Às vexes, pessoas se recusam a sentarem-se a meu lado”, relata Akimana tristemente. “Frequentemente me dizem que cheiro mal e é claro que não posso me sentir feliz com isso”, acrescenta, com um travo de amargura.
“Até meus irmãos me rejeitaram, porque  cor de minha pele é diferente. Sequer usamos os mesmos pratos”, revela a mulher, que tem dois irmãos.
O marido conta que sempre se entristece quando a esposa é tratada rudemente ou enfrenta discriminação devido a sua condição.
“Sempre me sinto mal quando ela é insultada”, diz Ntamugabumwe, chorando. “Tento protegê-la nessas situações, dizendo ao agressor que todos os seres humanos são iguais, independentemente da cor da pele.”
Conforme o mundo mudas, culturas se desenvolvem e mentalidades se alteram. Por isso, o casal acredita que um dia o preconceito enfrentado pelas pessoas com albinismo terminará para sempre.
http://www.newtimes.co.rw/news/index.php?i=15173&a=13008

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