Sesau cria a Linha de Cuidado das Pessoas com Albinismo em âmbito estadual
Para assegurar assistência integral às pessoas com albinismo, condição que, em Alagoas, atinge principalmente os afrodescendentes e que se caracterizada pela ausência parcial ou total de pigmento na pele, olhos e cabelos, a Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) definiu a Linha de Cuidado das Pessoas com Albinismo. Para isso, o secretário de Estado da Saúde, Alexandre Ayres, assinou a Portaria Estadual Nº. 2.657, que foi publicada na página 35 do Diário Oficial do Estado (DOE), e que pode ser acessada por meio do endereço eletrônico (https://www.imprensaoficial.al.gov.br/storage/files/diary/2021/03/DOEAL-2021-03-19-COMPLETO-alDQPvpSKJTL2bnOovvcLuQFoOcHyVLt1Kh-UqMFJxqgDHz1P7H96.pdf) .
Por meio da portaria, elaborada pela equipe multidisciplinar da Supervisão de Políticas Transversais da Gerência de Atenção Primária (GAP) da Sesau, com a participação de representantes de movimentos sociais ligados às pessoas com albinismo, fica assegurado o atendimento aos albinos, garantindo assistência médica e multiprofissional. Para isso, caberá à Sesau, gerir a atenção à saúde das pessoas com albinismo, ofertando equipamentos e insumos especificados nos Protocolos Clínicos, bem como, atuar para aprimorar a infraestrutura das unidades de saúde, contratar profissionais habilitados e disponibilizar a logística para a promoção do atendimento a cada um dos albinos residentes em Alagoas.
A portaria nº 2.657 especifica, ainda, que a Sesau irá disponibilizar medicamentos, protetor solar para corpo e lábios, óculos, lupas para auxílio visual, vestimentas com proteção ultravioleta, e demais acessórios essenciais para os cuidados das pessoas com albinismo, de acordo com os protocolos clínicos para conduta e tratamento. Também será responsabilidade do Governo do Estado, promover treinamentos, formação continuada e outras ações de educação em saúde para equipes envolvidas no cuidado integral à saúde da pessoa com albinismo.
A Linha de Cuidado das Pessoas com Albinismo em Alagoas também prevê o acesso à informação e ao aconselhamento genético aos familiares e às pessoas acometidas por essa característica genética. Ela também garante, que o Governo do Estado deverá promover a regulação das demandas das unidades de Atenção Básica para os centros de referência, organizando o acesso às pessoas que necessitarem de atenção especializada, bem como, integrar as pessoas diagnosticadas com albinismo em todas as ações disponíveis na Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima da residência do assistido, visando à promoção da saúde.
O Estado também deverá, conforme ressalta a portaria nº 2.657, manter cadastro atualizado das pessoas com albinismo no âmbito do SUS e promover interlocução entre as Secretarias de Estado, garantindo ações de educação, saneamento básico, moradia, emprego e renda para pessoas albinas residentes em Alagoas. A Linha de Cuidado das Pessoas com Albinismo em âmbito estadual também prevê o fornecimento de uma carteira de identificação de saúde, que facilite o acesso às UBS e hospitais, além das ações de promoção da saúde integral das pessoas albinas.
Equipe Multiprofissional
Em seu artigo 4º, a portaria nº 2.657 determina que o atendimento às pessoas com albinismo deve ser realizado por equipe multiprofissional. Além de um médico clínico, também devem integrar o grupo assistencial, um médico dermatologista, um oftalmologista, um geneticista, enfermeiro, técnico de enfermagem, psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional, odontólogo e nutricionista.
Para assegurar a efetivação da Linha de Cuidado das Pessoas com Albinismo em Alagoas, será constituído um Grupo de Trabalho (GT) para acompanhar as diretrizes desta portaria nº 2.657, conforme especificado em seu artigo 5º. Conforme consta no parágrafo único, o GT constitui instância de apoio técnico, científico e de controle social da Atenção Integral às pessoas com Albinismo no Estado de Alagoas, inclusive para a atualização do protocolo da Sesau, quando indicado.
Dívida Histórica – Para o secretário de Estado da Saúde, Alexandre Ayres, a Linha de Cuidado das Pessoas com Albinismo em âmbito estadual, representa o cumprimento de uma dívida histórica com os albinos. Isso porque, em Alagoas, essa característica atinge, principalmente, os afrodescendentes e, por ser o Estado natal do líder negro Zumbi dos Palmares, que lutou ativamente pelo direito dos quilombolas, cabe a Alagoas zelar e promover as políticas públicas de saúde aos grupos populacionais específicos, conforme aponta o Relatório Final de 2012, da 14ª Conferência Nacional da Saúde.
“Temos uma dívida histórica com os quilombolas e albinos, principalmente no âmbito da saúde pública. E, como gestor do SUS [Sistema Único de Saúde] em Alagoas, é dever assegurar políticas de saúde que contemplem todos os grupos populacionais, sejam eles camponeses, ribeirinhos, quilombolas, mulheres, indígenas, afrodescendentes, LGBTs [Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros], idosos, pessoas com deficiência, portadores de doença falciforme, albinismo e outras patologias. Por isso, a implementação da Linha de Cuidado das Pessoas com Albinismo é um marco para Alagoas, para o SUS e para a nossa gestão à frente da Sesau”, ressaltou Ayres.
Construção Democrática
E além de representar um marco para a saúde pública em Alagoas, a Linha de Cuidado das Pessoas com Albinismo também ganha notoriedade por ter sido construída de forma democrática, com a participação de técnicos da Sesau e de representantes dos movimentos ligados aos albinos. “Mesmo em meio à pandemia da Covid-19, nos reunimos periodicamente, porque entendemos que a construção deveria ocorrer de forma participativa e democrática, ouvindo todos os segmentos da sociedade e respeitando as especificidades dos albinos. A partir de agora, iremos identificar quantos são e em que municípios residem, focando no aconselhamento genético, prevenção e tratamento de problemas relacionados ao albinismo, como os oftalmológicos e dermatológicos, que podem resultar em cegueira e câncer de pele”, salientou a gerente de Atenção Primária da Sesau, médica Alexandra Ludugero.
Visão defendida também pelo assessor técnico de Políticas Transversais da Sesau, Sidney Santos, ao enfatizar que o objetivo da implantação da Linha de Cuidados das Pessoas com Albinismo é informar sobre os direitos da categoria e, principalmente, assegurar o acesso à assistência em saúde de forma eficiente e qualificada. “Segundo verificamos, são 69 comunidades quilombolas em Alagoas e, a partir de agora, iremos fazer uma busca ativa dos albinos, com o apoio das Secretarias Municipais de Saúde. Vamos tirar essas pessoas da invisibilidade, por meio de ações que assegurem assistência integral, mas, principalmente, dermatológica e oftalmológica, além de assegurarmos o acesso a óculos escuros e protetores solar e labial, para evitarmos graves problemas de saúde”, sentenciou.
SINDROME DE STENDHAL ou EXTASE, PRAZER E ÓDIO ANTE A BELEZA.
José Carlos Sebe Bom Meihy
Sim, pode parecer estranho, mas há pessoas que sentem perturbações incontroláveis frente a expressões de extrema beleza, em particular ante a obras de arte, monumentos, sítios históricos ou naturais, peças e lugares únicos. A noção de culto ou reverência consagrada funciona como espécie de memória ou depósito de referências que postas a prova atestam o melhor da civilização. E isto não é tão raro como possa parecer à primeira impressão, visto que essas ocorrências têm até registros célebres dos quais o seminal remete ao escritor francês Stendhal que, aliás, emprestou seu nome ao fenômeno: “síndrome de Stendhal”.
Em notável livro escrito em 1817, Nápoles e Florença: uma viagem de Milão a Reggio, o autor relatou o próprio estado de transcendência sentido ao ver os afrescos de Giotto, pintados no teto da Basílica de Santa Croce, em Florença. Vale a pena retomar a descrição de Stendhal ao dizer que sentiu “palpitações desordenadas” motivadas pela “formosura da imagem puxada em azul”. Sem ter claro o que se passava, com emoções incontidas, descreveu padecer naquele instante de “estremecimentos no corpo, o que em Berlim chamam de 'nervos abalados'”.
Por lógico, o tal deslumbramento não ocorre só em Florença e nem afeta apenas observadores famosos. Com o tempo, essa emoção se amiudou socialmente ganhando constância, carreando carga de preocupações comportamentais. Qualquer ser humano de sensibilidade fora do que se considera normal pode ser acometido desses enlevos, bastando que tenha melindres orientados para um tipo de percepção sobre o bom gosto consagrado. A exposição contemplativa em face de situações únicas provoca um circuito de identificação sensível, capaz de inverter os limites de cotidianos pouco entusiasmantes.
Há, sem dúvida, um fator que potencializa possibilidades: o contato direto com os estímulos que catalisam experiências artísticas exemplares. O teórico Walter Benjamin qualifica essas exposições com a palavra “aura”, ou seja, o impacto deslumbrado produzido pela relação direta, pessoal, com a obra de arte ou com situação relevante. A “circunstância aurática” é então potencializada em algumas pessoas que podem ter reações surpreendentes como ficar paralisadas, ter crises de choro, perder a noção de espaço ou tempo, e desmaiar em certos casos.
Desde o crescimento do turismo no mundo moderno, em particular da segunda metade do século passado em diante, tem havido significativo registros desses casos, fato que preocupa responsáveis por exposições e mostras de arte, giros por lugares históricos ou religiosos. Além dos contatos com peças exemplares e ambientes privilegiados, o cansaço natural de roteiros rápidos e o ritmo imprimido pelos programas exaustivos justificam esses acometimentos. De tal forma essas manifestações têm se repetido que há um novo campo da psiquiatria que passa a cuidar do assunto. Em 1979, na Itália, Graziella Magherini descreveu o fenômeno definindo sintomas relacionados a atordoamentos, taquicardia, palpitações que chegam a comprometer a consciência da pessoa que, em certos casos, perdem o equilíbrio, entram em pânico. A duração do fenômeno também é detalhe cuidado, pois há casos de demora na retomada da normalidade.
A relação humana com a beleza merece ser considerada em complexidades que vão além da objetividade razoável. Há dimensões ainda pouco sondadas que implicam, por exemplo, a noção de sublime e a consciência da racionalidade. O próprio Stendhal declarou que o contato que teve continha algo de “celestial”, mas convém supor que o termo “sublime” quase sempre é vulgarmente considerado no superlativo positivo. Segundo Kant, porém, o medo pode conter nível de beleza eletrizante. Cabe no entanto, imaginar que o maravilhoso provoca inclusive distúrbios amedrontadores. Sabe-se por exemplo, que seus efeitos despertam o que tecnicamente é conhecido como “choque iconoclasta” e inclusive leva pessoas a destruição de objetos cultuados. Isso se dá em diferentes campos, seja ante objetos de arte ou peças religiosas (sempre presente na memória brasileira a tentativa impetrada por um fanático que, em 1978 tentou roubar a imagem de Nossa Senhora de Aparecida). São incontáveis os ataques feitos quadros e estátuas famosas, mundo afora.
Em situações que se multiplicam não é raro encontrar relatos de pessoas que ante a escultura de Davi de Michelangelo se imobilizam atônitas; outros choram ao ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven; já vi pessoas se ajoelharem no Museu do Prado frente a tela do Cristo Crucificado de Velásquez. E quantos relatos há de delírio ao se deparar com o Monte Fugi, ou no Rio de Janeiro, com as expressões do contorno do Bondinho do Corcovado na em nominada Curva do Ó. Vitrais são espelhos mágicos para apreciadores e nesse quesito os da Notre Dame de Paris competem com os da Mesquita Nasir Al-Mulk de Shiraz no Irã.
Na contramão desses deslumbres também tem crescido a “cultura do simulacros”, ou seja o exagero de reproduções baratas de “obras raras”, fato que resulta no que Baudrillard chama de simulacros. Supondo a Síndrome de Stendhal, no entanto, o efeito fica ainda maior, pois o contraste se evidencia de maneira a produzir maior choque. Há estudos recentes afeitos aos acessos a obras de museus e passeios variados pela internet e a questão que se coloca é sobre a sensibilidade na era das máquinas. Quais serão as escolhas que faremos na relação com o extraordinário? Terão vigor os estudos sobre “Síndrome de Stendhal”, ou a arte perderá a força de culto?
Na minissérie Por Trás de seus Olhos, uma mãe solo se envolve em um jogo perigoso ao ter um caso com o chefe e fazer amizade com a enigmática esposa dele.
“Reinações de Narizinho” foi o livro que inaugurou minha vida de leitor e, agora, a alegria de saber do relançamento em edição preparada por Maria Lajolo provocou retomadas. Eu era garoto ainda e encantado fiquei com as aventuras de Lúcia, a menina “cor de jambo”, moreninha, como moreninho foi Lobato, neto bastardo da ex-escrava Anacleta do Amor Divino, amante do galhardo Visconde de Tremembé. Desde aquele então, nunca me separei de Lobato e adulto tenho voltado a ele não apenas como leitor constante, mas também arriscando análises curtidas em instruções históricas, valeparaibanas. Ninguém viveria impunemente o esvaziamento declinante das vastas fazendas de café e as derrocadas das cidades por ele condenadas como “mortas”. Ninguém.
Emoldurando Lobato em um quadro de classe social sem saídas fáceis, parece fundamental entender as razões do jovem rapaz formado antes de se mudar para São Paulo e de publicar o conto “Ideias de Jeca Tatu”, em 1918. Num lance geral, resenhando os muitos livros sobre ele, sinto falta de exames de seu perfil talhado na cultura valeparaibana. De modo geral - com raras exceções - tudo é mostrado como se Lobato já nascesse adulto, brasileiro nacionalista, sem ser credor de um caipirismo de garras cravadas em sua história pessoal, familiar e em contexto específico. E explica-se isso, pois, a reputação de personagem público cresceu na surdina de seu jeito de se mostrar, sem revelar a sombra alongada de suas origens. Monteiro Lobato soube contornar o legado “neo-caboclo-urbanizado” e deixou-se exibir metido a burguês, mais exibido como neto do Visconde do que da avó negra. E como adentrar em seus escritos sem tais considerações?
Historiador de ofício, taubateano crônico, sinto-me convidado a repensar os fundamentos da geração do jovem Lobato como expressão daquela elite do Vale do Paraíba Paulista. Remeto-me, assim a um grupo que, internando frustrações econômicas, se posicionou desajeitado na modernização do mercado nacional capitaneado por São Paulo. Condenar o campo e elogiar o sucesso permitido pelos imigrantes, maldizer a agricultura e exaltar a máquina, desprezar o caipira em favor do operário, o obrigou a, despreparado, se fiar na talagarça do capitalismo ascendente. E Lobato se perdeu no bordado do tempo moderno e modernista. Sob o signo forçoso da busca de espaço social, a trilha possível o obrigou a ajustes nem sempre bem-sucedidos ou, pelo avesso, em diversas ocasiões mal resolvidos. A sequência de algumas derrotas econômicas explica mais do que as falências nos negócios, certo ardor por delírios que o alucinaram desde sempre: fabricar doces em compotas, ter restaurante em Nova York, publicar livros comestíveis. Desatinos de um caipira que sonhou ser empresário e que, por força de um destino torto e de difícil justificação, acabou por ser nomeado “adido comercial do Brasil” em missão oficial do governo, nos Estados Unidos.
A formulação da hipótese que sustenta explicações de Lobato pelo legado da cultura valeparaibana reponta como dupla crítica historiográfica, ambas ácidas. A primeira se ampara na não existência de vigorosos estudos regionais, valeparaibanos, capazes de exponenciar os desafios vigentes em uma parcela da elite que se fez, no começo do século XX, aflorada do mundo do café. Além desse argumento, o segundo perfilhamento crítico remete aos estudos que projetam interpretações vistas “de fora”, de segmentos que desconhecem as sementes do ramo geracional dos evadidos das fazendas. Assim, cabe propor a provocação desse legado cultural nas alternativas econômicas e nos textos críticos e literários do “taubateano rebelde”. A fim de valorizar tal argumento, convém retraçar o jovem advogado: jovem educado em Taubaté, promotor público em Areias, SP, constituindo família no Vale, e depois fazendeiro em Buquira até 1917.
Consequência do insistente apagamento dessas influências pretéritas, o que se tem é um cacoete analítico que orienta a leitura de Lobato como empreendedor intrépido, uma espécie de baluarte da modernidade industrial, entranhado escritor nacionalista, isso e muito mais, tudo sem avaliar as frustrações que lastrearam seus fracassos sucessivos no mundo dos empresários. Em complemento, seu sucesso literário também não se faz acompanhar de fatores de sua história pessoal, de toques do trato comum aos subalternos do Vale, por exemplo, característica de um mundo frustrado, recém-saído da escravaria. Pelo contrário, aliás, o incessante enquadramento nas teorias do tempo, mais perturbam do que esclarecem. E reduzem tudo a simplismos exagerados.
O resultado de montanhas de estudos sobre Lobato sem seu passado caipira tem proposto dilemas que complicam sua apreensão hoje. A retomada do jovem Lobato, por sua vez demanda exercitar a inevitabilidade do vínculo autor/obra em seu contexto imediato, preso ao andamento da produção dos escritos considerados em sua carga de valores. No galope de apagamentos, o que submerge é a potência das tradições incorporadas nas expressões de um autor que nunca deixou de ser valeparaibano. Talvez a incapacidade de Lobato de se livrar do remoto passado explique as experiências que tentou ao longo de suas andanças recheadas de vulnerabilidades: monarquista, comunista, georgista, taylorista... Eugenista num tempo, espiritualista em outro, Lobato provou de tudo, tudo, sem jamais deixar de ser um caipira no mundo que se movimentava além de seu eixo de controle. Só é possível entender Lobato se o considerarmos um ser em processo de “descaipirização”.
Não, não se trata de baixaria, jamais faria isso. Imagine... Pelo contrário, busco a redenção de algumas palavras, dizeres e expressões que são, por diferentes motivos, interditados e, no geral, tidos como avessos civilizatórios. Em nome do refinamento imposto pela “norma culta”, termos “vulgares” têm se distinguido das manifestações depuradas pela chamada “boa educação”. Com tensões, o abismo se alarga entre o que se diz e o que se escreve, conferindo tolerâncias filtradas por diferenças geracionais, de classes sociais e, sobretudo, de comprometimento erudito. É lógico que há nuanças que calibram extremos (de Gregório de Matos a Jorge Amado, de Chiquinha Gonzaga a Dercy Gonçalves), exceções que, contudo, só confirmam a regra. Sabe-se que o palavrão permeia todas as faixas, mas seu uso (cada vez menor) não é tão liberado ou libertador como parece à primeira vista. Impõe-se então entender enunciados circunstanciais: de quem e para quem, se entre emissores socialmente próximos ou subalternos, se escritos ou verbalizados.
Sabe-se que na fluidez das falas somos flexíveis, mas quando escrevemos galgamos solenidades às vezes perversas... É lógico que a língua é viva, maleável, progressiva, mas se isso acontece em ambos os códigos, no oral repontam permissões inconvenientes na transposição grafada. Aliás, é na escrita, que a coisa pega mais. Nos deploráveis manuais de redação - guias impostos pelos importantes jornais (Folha, Estadão, O Globo) – por exemplo, marcas da fala são proscritas como crimes (“cacete”, “bicha”, “esporro” e até “membro” devem ser vetados).
Sei que a seguinte afirmativa é polêmica, mas na chave do “livre pensar” ouso dizer que a nossa língua portuguesa não é bonita como ufanistas decantam, longe disso, aliás. Cheia de “ãos” e “ães”, terminantes em “or”, “ar”, “ir”, o uso sugere rimas fáceis demais, sem muitos mistérios, plenas de soluções imediatas. Rendo tributo aos poetas lusófonos que precisam de muito engenho e arte para dar vida à brutalidade das palavras (Pessoa, Drummond, Chico Buarque, José Craveirinha e Luís Carlos Patraquim que o digam). E mora na exaltação despudorada da língua de Camões certa consciência ambígua que condensa a penúria cândida contida no verso “última flor do lácio inculta e bela”. Devo dizer que meditando sobre alguns pressupostos bilacquianos, encontro amparo na passagem em que ele, em vacilo freudiano, declara “amo-te, ó rude e doloroso idioma”. Em termos comparativos é bom que, tendo o latim como matriz, sejam coroadas outras línguas muito mais melodiosas e musicais como o italiano, francês, espanhol e até o catalão.
E tem mais, fomos colonizados por um segmento que, frente a fidelidade vernacular, tinha sim algumas exceções, mas que no geral era muito mal instruído em termos de controle formal da língua. A corte portuguesa que chegou ao Brasil em 1808 era constituída de maioria analfabeta, gente de modos e de falar rude, chulo mesmo, e que maltratava a expressão oficial e, sobretudo, era dada a palavrões que se multiplicavam em colóquios pouco corteses e até, em muitos casos, escatológicos. Dona Carlota Joaquina, que o diga. E sabe-se que Dom Pedro I também era dono de vocabulário nada condizente com a fantasia de qualquer nobreza. Ademais, numa sociedade escravocrata, a agressão cotidiana exercitada não era apenas física, pelo contrário era coerente com trato verbal.
Houve esforço incontestável de Dom Pedro II no sentido de mudar o perfil de nossa elite instituída. Chegado à ciência, devoto de lances da modernidade, o segundo imperador (1840 – 1889) bem que tentou impor certo glamour que, contudo, ficou reduzido a pequeno grupo – nesse quesito, convém dar uma boa olhada na demora para a valorização das escolas no Brasil - inclusive na criação das universidades que apenas repontaram na República. E não podemos nos esquecer que o tempo colonial nos impôs um gerúndio crônico, persistente e perturbador (“continuando”, “falando”, “palavreando”) que se distanciou do português metropolitano, algo mais exato (“a continuar”, “a falar” e “a palavrear”). Mas nada nos foi mais cruel do que o legado dos chamados turpilóquios, ou seja, do culto aos palavrões que se popularizaram. No cotidiano, soltamos “puta que pariu”, “vá a merda”, “pô”, ou “tô de saco cheio” com fluidez até consentida, mas... Mas não escrevemos com a mesma facilidade.
Todo este trololó se me apresentou frente ao título de um livro recém-lançado no Brasil: “De Cu Pra Lua: dramas, Comédias e Mistérios de um Rapaz de Sorte”. Assinado pelo eterno Nelson Motta, esse garoto de quase 80 anos, trata-se de um relato de memórias pessoais onde o autor narra suas peripécias como jornalista, escritor, produtor artístico. Tudo interessa nessa rota vivencial que também é nossa, mas para o momento vale ressaltar o título que, afinal, remete ao alvo desta proposta, pois, se afinal “De cu pra lua” apenas significa “ter sorte” porque usar o “palavrão” na capa? Por estar no lugar certo, na hora certa, Nelsinho quis chamar a atenção para uma característica da nossa brasilidade coloquial: a distância entre o que se fala e o que se escreve. Ele quis provocar. Eu também...
Crítica do livro The Long Call (2019), de Ann Cleeves
Após um assassinato em sua cidade natal, o melancólico detetive-inspetor Matthew Venn tem que reencontrar sua mãe e a seita fundamentalista que abandonara há anos.
Um grupo de voluntários entra em uma densa floresta para resgatar um adolescente desaparecido. Nesse mesmo lugar, diversas pessoas sumiram nas últimas três décadas, e apenas alguns corpos foram encontrados, todos nus.
Já declarei que apenas respeito fidelidade no campo amoroso, fora desse compromisso sagrado advogo promiscuidades. Sou volúvel, demais. Leviano mesmo. Não me refiro às roupas, acho bobagem, mas à cada livro, à cada frasco de perfume, bom restaurante, vinho, álbum musical, filme ou peça de teatro, me apaixono irremediavelmente. No campo do consumo, sou daqueles que não prestam. Na hora, juro devoção eterna, mas traio ante a primeira mercadoria que me sorrir. Credo! Sabe, não me culpo de todo, pois viver dias tão plenos de seduções consumistas me faz evocar trocas constantes, e me sinto algo mais moderninho, atualizado, tudo up to date. Preside, contudo, de tempo em tempo, um quê culposo, mas dá e passa. Logo entrego-me à volúpia crônica.
Admito: sou uma contradição ambulante. Ao mesmo tempo apadrinho apoio irrestrito ao ambientalismo positivo, faço até doações para o Green Peace, mas... A favorecer meu lado freguês tenho como meta alcançável a certeza de que novos produtos ajudarão a melhorar minha performance - adoro escrever perfumado, julgo melhorar meus textos com computador novo, lançamentos de papelaria me escravizam. Tudo sob a chancela de reposições justificadas em supostas economias: de energia elétrica, de espaço físico, de melhor aproveitamento do tempo. E multiplico ilusões com a qualidade do ar, com o cuidado com a alimentação (ah, as panelas que dispensam gordura) e até com vitaminas. Enfim, justificações não me faltam e provo isso frequentando supermercados, shoppings atraentes, boutiques especializadas. E haja sistema de créditos, vale-compras e até pela entrega em domicílio... Pois é, dava-me a esses devaneios quando, dia desses dei conta das alterações sentimentais nesta nossa “era das máquinas” e, perplexo, me perguntei dos limites propostos por Zygmunt Balman no livro “Amor líquido”. Pronto estava formulado o teorema que me impôs aproximações entre a oferta de mercadorias e os sentimentos ou valores morais da chamada pós-modernidade. E me inquiri: os sentimentos íntimos teriam o mesmo prazo de velocidade nas reposições?
A meu favor, é importante dizer, por mais cheio de vontades que seja, mantenho resquícios de memória, afinal sou historiador de ofício. E então escavo no acervo de leituras marcantes alguns textos que funcionam bússola. Entre os meus poucos autores permanentes C.S Lewis ocupa lugar especial e, de seus livros, “Quatro amores” desponta com loas. Dentre tantas definições de amor – desde os dicionários, livros religiosos e tratados filosóficos – a qualificação oferecida por esse autor irlandês acende luzes brilhantes. Lewis indica quatro tipos de amor: a afeição (Storge), a amizade (Philia), o amor romântico (Eros) e a caridade (Ágape). Até pouco tempo esse estoque de referências me bastava, mas eis que de repente deparei com um outro conceito que agora me aturde “bromance”.
Foi automático chamar Lewis à discussão, pois ele defende com empenho a amizade (Philia), mas ao contrapô-la com “bromance” entendi que há algo a mais. Antes, cabe dizer que a novidade do “bromance” decorre da junção de dois termos que se explicam em inglês “brother” e “romance”. A junção gerando algo novo não cabe na “philia” ou “amizade”, como também no sentido do “romance” ou “eros”. Cilada armada restava entender o que seria “bromance”, e assim os exemplos ajudam quando vistos pelo denominador comum das relações entre pessoas, homens, do mesmo sexo, seres que se atraem sem vínculos sexuais. Não tem, portanto, absolutamente nada a ver com homossexualismo. Nada.
Talvez, a formação do termo permita melhorar a compreensão do neologismo. Acatando a radical como elemento básico que orienta o significado da palavra (“brother”), o fator secundário “romance” o suplementa. Então, em termos práticos seria algo além de “amor de irmãos”. “Bromance”, é amizade fecunda, intensa, indispensável mesmo entre homens que não se vexam em vivê-lo. É bom insistir que nada tem a ver com ser ou não gay, aliás, ainda que seja também comum entre homossexuais, é no meio hétero que ganha sentido. E os exemplos se multiplicam seja na ficção (Batman e Robin), nos contos infantis (Elliot e ET), na vida real (Brad Pitt e George Clooney ou Lázaro Ramos e Wagner Moura).
Mais do que tema para filólogos, semiologistas, antropólogos, creio, vale aquilatar na invenção do “bromance” uma conquista dos tempos modernos. Foi preciso que o movimento gay, que as conquistas do feminismo e o combate ao machismo se tornassem causas coletivas para pudéssemos admitir a generosidade de tal sentimento. Vivas! algo bom surge na agenda dos comportamentos tão pobremente analisados. Uma questão final se levanta: será que este novo realinhamento dos sentimentos masculinos tem a ver como a já estabelecida “sororidade”, com o companheirismo exercitado entre mulheres? É bem provável que sim, pois é do ventre materno que os homens nascem e é com elas que germinamos o que de melhor ostentamos.
Governo guineense inicia recenseamento de pessoas com albinismo
A diretora-geral da Inclusão Social da Guiné-Bissau, Paula Saad, anunciou hoje estar em marcha uma campanha de recenseamento de pessoas portadoras de albinismo para o Governo disponibilizar apoios concretos para a sua melhor inserção na sociedade.
Paula Saad explicou que a campanha promovida pelo ministério da Mulher, Família e Solidariedade Social pretende criar um banco de dados atualizado sobre a população com albinismo, saber quantos são, onde vivem e quais as suas reais necessidades.
De acordo com a responsável, há mais de dez anos que esse trabalho não era feito.
Em colaboração com a Associação de Pessoas com Albinismo na Guiné-Bissau e uma organização não-governamental portuguesa, a campanha de registo de albinos conseguiu detetar 40 indivíduos em Bissau.
Paula Saad apela aos familiares e conhecidos de pessoas com albinismo para colaborarem para um maior registo e para deixarem de lado qualquer preconceito em relação à campanha que, disse, está a gerar alguma desconfiança.
"As pessoas com albinismo são desconfiadas para já pelo estigmatismo, sentem-se marginalizadas", observou Paula Saad, referindo que os inquiridores foram informados pela vizinhança que existem pessoas com albinismo que ficaram por ser recenseadas por não terem sido apresentadas.
Neste momento, 10 inquiridores, pessoas com albinismo, percorrem bairros de Bissau à procura de indivíduos com aquele problema de pele para serem recenseadas, mas Paula Saad lamenta as dificuldades.
"Há o pensamento de que alguém está a aproveitar-se da sua condição de albinos. Não é nada disso, só conseguimos ajudar se soubermos quantos são, onde estão e quais as reais necessidades", defendeu a diretora-geral da Inclusão Social.
Assim que terminar a campanha de recenseamento em Bissau, o processo será estendido para o interior da Guiné-Bissau para onde muitos se terão deslocado com a pandemia da covid-19, frisou.
A diretora-geral da Inclusão Social acredita que possam existir na Guiné-Bissau cerca de 100 indivíduos com o albinismo.
Paula Saad também disse à Lusa que na Guiné-Bissau não há registo de perseguição aos albinos com a finalidade de usar parte do seu corpo para práticas místicas como acontece em outros países africanos.
"Na Guiné-Bissau, graças a Deus, nós não temos essas práticas, temos outras crenças sim, mas essa de que o albino, a pele, o cabelo, da riqueza, isso não há", notou Paula Saad.
Para já, entre os problemas que afetam a população com o albinismo, Paula Saad aponta indivíduos sem registo civil, falta de oportunidades para prosseguir os estudos e cuidados de saúde.
A todos, Saad promete que o Governo vai tentar arranjar soluções desde que saiba onde vivem.
Em Medo de Chuva/Fear Of Rain, uma adolescente com esquizofrenia luta com alucinações vívidas e terríveis, quando começa a suspeitar que sua vizinha tenha sequestrado uma criança. Seus pais tentam desesperadamente ajudá-la a viver uma vida normal, sem expor seus próprios trágicos segredos, e a única pessoa que acredita nela é Caleb - um garoto que ela nem tem certeza se existe.
Sei de muitos que como eu estão estonteados com questões afeitas à ética neste tempo dominado pela Covid 19. Sem dúvidas, o confinamento tem promovido alterações nas relações humanas, e as redes sociais cumprem papeis compensatórios no isolamento. A urgência mecânica das comunicações eletrônicas, por sua vez, tem apressado raciocínios e o apelo para respostas instantâneas anda anulado espaços de ponderações. Tudo é “para ontem”, e essa pressa nos obriga a respostas que ficam devendo ao bom senso. Por vezes, me vejo perdido em meio a arrependimentos, repetindo para meus botões: pois é, poderia ter esperado um pouco mais, ajuizado melhor, antes de responder a esta ou àquela instigação.
A propósito, lembrei-me de uma historinha que ilumina perplexidades repontadas no terreno da lógica e da moral modernas. Vamos a ela “era uma vez um atendente de loja de laticínios que teria que prestar serviço a uma fila que ia longe. Basicamente, ele se dividia entre venda de presunto e de queijo. Mediante reclamações pela demora no fatiamento, optou por potencializar o melhor atendimento separando duas filas: os que queriam presunto à esquerda, os que buscavam queijo à direita. Para ele foi um alento, posto que não precisava trocar a mercadoria a cada freguês”. Pois bem, em termos de gestão não há o que reparar nessa conduta racional, né?! Analisemos, contudo o dilema: de um lado, o servente teve seu mister facilitado, a fila andava célere e ele exercia a eficiência requerida. Fordismo aplicado. Instalou-se, porém, um outro problema: e quem quisesse ambos? E mais grave ainda, qual o sentido de chegar primeiro e compor a fila? Que critério seria praticado para determinar o momento de mudança de uma para outra peça? Esta espécie de “parábola capitalista” se me acentuou frente ao controle da aplicação das vacinas contra o vírus da Covid 19. Vejamos...
Os jornais têm noticiado, com insistente indignação, aberrantes casos de pessoas que corrompem a ordem estabelecida e furam as filas das vacinas. Vejam que estou falando de cerca de 3 mil denúncias comprovadas. Nem vou discutir questões de ansiedade coletiva, de direito natural à luta pela vida, pois tais inerências são instintivas e, diga-se, os animais também as exercitam. Mas estamos tocando na situação de pessoas, gente que vive em sociedade segundo pactos sociais firmados. Frente à inevitável agressão ao sentido de vida pública, levanta-se uma questão imposta pela crueza das consequências: como agir? Que fazer então? A pergunta que está no ar exige respostas: os furões, merecem tomar a segunda dose? Que devem ser punidos é resposta pronta, mas não é tão simples assim, pois outro problema se apresenta: mas e a “imunização de rebanho”? Caso confirme-se a segunda aplicação, não estaríamos dando bençãos à ação bandida e admitindo injustiças? A quem compete decidir sobre essa matéria, aos juízes ou os infectologistas? Notemos que os transgressores são sempre autoridades, empresários, políticos, gente de poder, tipos que deveriam dar exemplo. E a piorar tudo temos que ter claro: desperdiçar doses jamais!
Frente à essas questões de fundo moral preside uma alternativa que vem sendo cultivada em particular por defensores da aplicação do Direito Público: mesmo os errados devem sim receber a segunda dose, mas merecem outras penalidades severas (discute-se a reclusão de 1 a 3 anos + multa). Vago, né? Vago, mas indicador de uma alternativa que conduz aos argumentos dos infectologistas: a responsabilidade também é da vigilância sanitária que não teve competência para barrar os infratores. Não há como deixar de considerar a responsabilidades de órgãos de comando central – municipal, estadual e federal principalmente. A discussão está colocada a público e judicializada a partir de um caso que serve de parâmetro nacional: o de Manaus, a cidade com maior número proporcional de infectados no planeta. Como se sabe, na capital amazonense duas jovens médicas, filhas de empresário destacado na economia local, tomaram sem devido respeito a primeira dose. O fato foi amplamente mostrado pela mídia. O Ministério Público Federal, frente a isso, condenou a atitude, mas abriu brecha para que as irmãs tenham acesso à dose complementar. E daí? Como nos posicionar?
No meu foro pessoal, esforço-me para ter uma resposta coerente, acontece, porém que a cada certeza alcançada resta alargar a responsabilidade do bem comum. Elas erram sim, mas no conjunto a atitude equivocada tem um efeito coletivo ao engrossar a lista final de imunizados. E, ademais, não podemos isolar os gestores que permitiram tais atos. Não mesmo. É aí que entra o personagem ausente: o governo em diferentes escalas, setor que tinha que assumir comando firme de tudo. Que se aplique a segunda dose, puna-se exemplarmente os corruptores e que saibamos cobrar a conta de tanta incúria nas próximas eleições. Tudo sem esquecer que entre os “larápios beneficiados” e nós estão os mediadores que nos representam.
A farta safra de filmes de ficção-científica da década de 1950 embute a categoria das criaturas agigantadas como efeito colateral imprevisto da radiação. No decênio que vendia Contador Geiger de brinquedo, o público em geral não tinha noção real das devastadoras consequências pós-ataque nuclear.
Os programas governamentais de defesa pública – hoje motivo de chacota pelo absurdo – aconselhavam sobre como se proteger/esconder durante explosões atômicas, mas não falavam do depois, que se tornaria popular nos anos 80, com produções angustiantes, como a britânica Threads.
Havia, porém, informações do desastre genético-ambiental de Hiroshima/Nagasaki e, claro, a imaginação de produtores e cineastas, que conjugaram o poder/perigo nuclear, com outra grande neura dos higienistas anos 50: o pavor das doenças transmitidas pelos insetos, que também podiam destruir lavouras e eram vistos como inimigos pequeninos infiltrados em todo canto das casas e jardins gramados dos cada vez mais populosos subúrbios de classe-média estadunidense.
No decênio enamorado do DDT – ganhou até poema de louvor, em grande jornal – a linguagem de entomólogos e autoridades sanitárias - além da sempre influente mídia – ecoava aquela usada pra se referir ao “perigo” comunista ou atômico. Mais de uma vez, confluíram, inclusive.
Se você lê inglês, seria muito produtivo buscar online Looking Straight at Them! Understanding the Big Bug Movies of the 1950s, de William M. Tsutsui. O sintético artigo faz um balanço das diversas interpretações atribuídas aos filmes de insetos e aracnídeos gigantes, antes de propor que artrópodes mutantes mexem diretamente com o pavor que muitos de nós temos deles. Eu tenho; odeio! Há interpretações desses monstros como metáforas do perigo atômico (a mais comum) e de expressões de repressão da sexualidade e masturbação (WTF!?), mas Tsutsui os interpreta como usar o mote da radioatividade pra nos horripilar perante escorpiões, aranhas, formigas, louva-a-deus.
Cada qual escolha a racionalização que mais lhe convier. Os produtores certamente estavam atrás de lucro e esses filmes relacionavam-se a temas candentes e atraiam público – especialmente jovens homens – pras salas escuras e drive ins. Ou alguém acha que Roger Corman se importava com premissas metafóricas?
Vamos fazer um levantamento dalguns desses filmes? Deixei de fora os que apresentam mamíferos gigantes; a vibe aqui é aracnídeos e insetos. Também excluídas as produções onde esses animaizinhos nojentos de 6 ou 8 pernas coadjuvam ou só aparecem por instantes, senão a lista seria muito maior. Como os 50’s gostavam de botar aranha pra brigar!
Se você quiser apenas um exemplar; só pra saber do que se trata, arquivar mentalmente e seguir sua vida, o indicado é Them! (1954), primeiro e mais referenciado do sub-subgênero. Apesar de datados, os efeitos especiais são impressionantes pra época e tem uma cena ou outra, como as de dentro do formigueiro, que são até meio nojentinhas.
Produzido com grande orçamento pela Warner, O Mundo em Perigo narra a batalha humana contra uma infestação de formigas agigantadas por exposição continua à radiação atômica. O exclamativo título original refere-se à oposição entre Us (Nós) e Them (Eles/as), muito comum na cultura anglófila. Frente ao inimigo comum, as instituições se unem pra manter a ordem. Mesmo que a ciência tenha feito caca ao criar as formigas como subproduto de seus experimentos, é ela quem achará a resposta pra exterminar a praga. Em cooperação com a defesa-civil e os militares. Tudo em ordem, tudo bem anos 50; porque esses filmes revelam bastante bem a ênfase e importância das instituições organizadas: são sempre elas que restituem a ordem aos desorientados e indefesos civis/não cientistas.
Por ser arquetípico, Them! apresenta convenções usadas até hoje em filmes trash do canal Sy Fy sobre insetos mastodônticos. Há um entomólogo à mão, que apresenta info alarmante sobre as formigas, por meio de minidocumentário (imagem de arquivo = economia na produção), militarizando-as. São apresentadas como pertencentes a uma sociedade ferozmente militarizada, vivendo existências anônimas e totalmente controladas. Não estranha que estudiosos há gerações interpretem-nas como metáforas dos frios comedores de criancinhas, os comunistas! Se lembrarmos que Winston Chruchill certa vez fez tal comparação também, essa hermenêutica não fica tão maluca.
Seja lá como você o interprete, Them! ainda tem a clássica tática de não apresentar os monstros desde o início. Primeiramente, surgem mortes, ouvem-se barulhos estranhos (nesses mundos ficcionais, amiúde insetos e aracnídeos têm “voz”, numa lógica, tipo, se cresceram, então seus ruídos amplificaram-se) para deixar a plateia apreensiva. Daí, quando as horrendas formigas mutantes apareciam nas grandes telas das salas escuras cinquentistas deve ter dado muito susto e feito gente fechar os olhos. A gente até meio que ri delas, mas nossos antepassados nunca tinham visto nada igual!
O Mundo em perigo foi o filme mais rentável da Warner, em 1953, então a Universal tinha que ter o seu big bug movie também. Em 1955, saiu Tarântula, que prefiro a Them!, embora aranhas me incomodem deveras. O diretor Jack Arnold contou que esse pânico generalizado que as pernaltas causam motivou a película. O ritmo de Tarântula é mais uniforme que o das formigas, um pouco arrastado no segundo ato. O uso de um aracnídeo real agigantado e sobreposto à maior parte das cenas torna o filme mais arrepiante também.
No meio do deserto, um cientista bem-intencionado pesquisa um supernutriente pra resolver o problema da fome num planeta cada vez mais populoso. Mas, a ingestão do produto, desenvolvido a partir de isótopos radioativos, tem o perigoso efeito de desarranjar o equilíbrio hormonal. Nos animais, causa gigantismo e nos humanos, deformidade que os deixa parecidos à representação clássica do Frankenstein da década de 1930. Jeito sutil de apontar que o Dr. Hastings perigosamente brincava de Deus, como seu antepassado, Dr. Victor Frankenstein.
Um incêndio no laboratório permite que a personagem-título escape e, crescendo sempre (imagine a velocidade com que teria que cambiar seu exoesqueleto!), começa a devorar o que vê pela frente, até chegar às portas de Desert Rock. O deserto nesses filmes sci fi cinquentistas presta-se muito bem pra metáfora do desconhecido, aparentemente calmo e morto, mas que pode conter a destruição. Também eram locações grátis e abundantes na Califórnia.
Tarantula tem vídeo demonstrando a ferocidade, resistência e “crueldade” das aranhas; tem personagem feminina só pro filme não ter só bofe (veja e me explique sua função dramática, please) e cientista explicando apenas o que convém à narrativa, claro. Em nenhum caso, os doutos se perguntam sobre a questão do exoesqueleto (que aliás, jamais são encontrados) e da respiração quase à flor da pele dos artrópodes. Na Pré-História havia “libélulas” gigantes, porque havia muito mais oxigênio na atmosfera.
Mas, quem vê sci fi de horror tá lá interessado nessas questiúnculas científicas? Queremos ter medo ou aflição e Tarântula provê isso até hoje, mesmo em branco e preto. Ui, que bicho asqueroso!
Esse filme também é exemplar ancestral da simbiose retroalimentar entre cinema e a ainda infante TV, porque o roteiro foi desenvolvido a partir de um episódio da série Science Fiction Theater.
Efeméride: Clint Eastwood – cujo nome sequer consta dos créditos – aparece por uma fração de segundo, como líder da esquadrilha de napalm, que matará a peluda.
1957 foi ocupado pelos artrópodes, que ameaçaram dominar a Terra mais de uma vez.
The Black Scorpion é da Warner, mas a chancela de grande estúdio não impediu o orçamento de ser mixuruca; conta-se que menor que o de King Kong, da década de 30. Por isso, os efeitos especiais são tão risíveis, especialmente quando se mostra a cara do escorpião negro, antropomorfizada e babando! A técnica de stop motion usada pra filmá-lo andando até que funciona, mas quando aparece o close daquela cara de débil mental, só rindo mesmo. E ele faz barulho mix de ronco de dinossauro e das formigas de Them! Sons de arquivo pra economizar.
Não há menção à energia nuclear, porque a história se passa no México; Black Scorpion é coprodução com aquele país. Como em nações “atrasadas”, as superstições e as forças naturais contam mais, os escorpiões gigantes atingem a superfície graças a uma erupção vulcânica gigantesca. Conseguiram escalar a cratera pra apavorar os mexicanos, mas quando os heróis estão em perigo lá embaixo, o escorpião atacante não consegue subir o paredão.
Pra fãs de filmes B é pra lá de asssistível e divertido, porque o escorpião negro – o mais malvado – ataca até trem e a mocinha é a mesma de Tarantula. Que ela seja mexicana e fale inglês sem qualquer sotaque (porque a atriz é norte-americana e não se deu ao trabalho ou não sabia fingir um) é um dos elementos que admiradores desse tipo de produção adoramos.
Beginning Of The End (1957) finge que terá protagonismo da única personagem feminina, mas é só embuste, como o próprio filme. A experiente e durona fotógrafa perde qualquer função dramática assim que encontra o entomólogo que entende de tudo, pois daí ele assume a chefia e ela sequer fotografa os insetos gigantes, porque jamais aparece com a câmera na mão novamente.
Produzido com orçamento diminuto pela Republic Pictures, trata-se de produção que só vale a pena ver pra detectar gambiarras e incorreções. Por exemplo, a história se passa em Illinois, estado superplano, mas dá pra ver altas montanhas californianas em algumas tomadas.
O Começo do Fim, como literalmente traduzido por aqui, além do componente atômico, explicita o desconforto que pesticidas como o DDT já causavam na época. Trabalhando pro departamento de agricultura, o Dr. Ed Wainwright desenvolve superalimentos a partir de radiação. Seu colega mais próximo fica surdo-mudo como consequência, mas as autoridades - nem o sabichão Ed – cogitam estancar a pesquisa. Na verdade, o pesquisador tornado deficiente segue trabalhando! Não por muito tempo, porém... Famintos gafanhotos provam da comida gigante e começam a crescer descontroladamente (oi, H. G. Wells!), dizimando cidades e ameaçando a metropolitana Chicago.
Mesmo genérico, poderia ser bem divertido, mas mesmo pros padrões cinquentistas os efeitos especiais são defeitos. Gafanhotos são filmados sobre fotos de edifícios, então tem hora que dá pra vê-los botando as patas onde já não há mais prédio! É assim, o tempo todo: dá pra perceber direitinho que os insetos foram filmados em separado e as imagens porcamente casadas. Então, as criaturas não destroem nada.
Cada vez mais comuns os relatos de insetos resistentes aos inseticidas progressivamente mais poderosos e devastadores são ecoados quando aprendemos que, mesmo ensopados em pesticidas, os monstrengos não morrem.
Curiosidade mórbida: a produção adquiriu 200 gafanhotos machos pra filmagem. Como os bichos foram comprados no Texas, que acabara de viver infestação, as autoridades sanitárias não permitiram fêmeas pra não correrem o risco de procriação e proliferação na Califórnia. Postos em caixas, os machos não tinham o que ou quem comer e se canibalizaram até sobrar apenas uma dúzia. Mas já deu de bom tamanho pra filmar, porque mesmo que houvesse uma porrada deles, a produção não teria como filmá-los. A gente apenas é noticiado que há um exército de insetos; vemos bem poucos.
The Deadly Mantis (1957) é mistura de O Monstro do Ártico (1951) com O Monstro do Mar (1953), mas, sem a novidade dos primeiros e com orçamento de fome, o resultado chega a ser pior do que o dos gafanhotos, embora o louva-a-deus de papiê machê seja legal e quem curte trash se divertirá com os absurdos científicos e lógicos dessa ficção-científica, que, como tantos de seus congêneres, desdiz qualquer estatuto científico.
O filme começa com close de mapa mundi, focalizando ilhota próxima da região antártica, uma imagem de vulcão entrando em erupção e voz citando Isaac Newton pra dar credibili/autoridade. A lei da ação e reação. Daí, aparece um louva-a-deus preso num cubo de gelo derretendo. Não creio que Newton aprovasse essa aplicação de sua teoria, mas o mais engraçado está por vir.
Longa sequência de imagens de arquivo fala sobre a DEW Line. DEW é a abreviação de Distant Early Warning, sucessivas barreiras de radar, usados para detectar qualquer “ataque” ao povo norte-americano. Acontece que a DEW Line se estendia em direção ao Ártico e não à Antártica. Assim, o mapa mostra um local, mas a ação de The Deadly Mantis começa no polo antípoda. Como não ser fã desses filmes?
O vulcão descongela louva-a-deus gigante adormecido desde a pré-história, que, uma vez acordado, começa a devorar gente, destruir propriedade e dirigir-se ao sul, provavelmente aos trópicos, seu habitat, por preferir regiões quentes. Pena que pela falta de dinheiro pra efeitos especiais, a maioria das ações seja descrita e o pouco que vemos é sem vida, então a impressão é a de produção mais longa do que seus 78 minutos.
Por mais que a premissa de que esses filmes expressassem um medo ancestral nosso por insetos, a leitura sobre ansiedade perante a Guerra Fria é bem mais difundida, não apenas porque consagrada há décadas, mas porque é muito palpável.
Vários desses filmes B (sendo gentil com o Louva-a-Deus Mortífero pra ele não me comer!) eram curtos pelo orçamento parco, mas também porque eram exibidos em sessões duplas nos cines e drive ins repletos de adolescentes. The Deadly Mantis foi lançado junto com um noir de espionagem chamado The Girl In The Kremlin, com a trashdiva Zsa Zsa Gabor. Daí, no filme do louva-a-deus, 7 minutos falando da DEW Line e um monte de referências ao Civilian Observer Corps alimentam qualquer paranoia. O COC era uma organização nacional de voluntários civis que em seus momentos de folga trepava em telhados pra olhar o céu, sempre alerta prum ataque soviético. Vai que a DEW Line deixasse escapar alguma coisa...
Dentro do subgênero aventura, uma divisão muito popular foi a dos jungle movies, ou seja, aventuras passadas na selva. Foram dezenas de produções pra cine e TV - Tarzan sendo a mais reverenciada até hoje – influenciadas pela popularidade da literatura de Burroughs e Kipling, onde havia muito espaço imaginário pra altas fantasias supremacistas brancas camufladas.
Monster From Green Hell (1957) é bem mais jungle movie do que sci fi. A ficção-científica apenas fornece o mote: vespas são enviadas pro espaço pra testarem a resistência animal a níveis de radiação. O foguete cai na África (nessas narrativas, quase nunca há um país; tudo é “África”, como fazemos até hoje!) e os insetos agigantam-se, devorando a apavora população. Como a ciência fazia e desfazia, o cientista “culpado” pelo monstrengo, Dr. Quent Brady, viaja à África pra consertar o estrago.
A vespa-monstro é muito tosca, mesmo pra padrões de então. Mesmo assim, serviu como modelo pruma linha de brinquedos na década seguinte, que trazia insetos gigantes contra as forças armadas (e depois são os jovens e crianças de hoje os perturbados!).
Como as vespas estão escondidas num lugar remoto, é preciso longo safari pra chegar lá. Então, Monster From Green Hell utiliza um monte de imagens de arquivo de animais e situações típicas de filmes de selva, inclusive com os negros carregando tudo sem camisa, ao passo que os brancos estão vestidos, levando só as armas. E fumando, feito chaminés; onde arrumaram tanto cigarro no meio do mato? Era outro mundo: tiozinho desfalece de fadiga, acorda numa barraca de acampamento e a primeira coisa que acontece, quando desperta é lhe oferecerem um cigarro!
E vocês apostam quanto que morre muito mais negro do que branco e que as situações de covardia estão reservadas aos primeiros? Os afros que enfrentam a pífia batalha final com a vespa são os ocidentalizados, sabe os famigerados pretos d’alma branca? Mas, tem gente que acha que isso não é importante...Então, tá!
Se ainda houver algum fã do DALLAS original: o Dr. Brady é ninguém menos que o patriarca da família Ewing, Jock. Jim Davis foi muito mais popular na TV do que no cinema, veículo onde teve a carreira implodida pelo fiasco de bilheteria de Encontro no Inverno (1948), cujo roteiro era uma bomba e estrelava uma Bette Davis já envelhecida pros padrões de estrela. Mas, quem levou a culpa foi ele por não ser ninguém ainda.
Se filmes independentes norte-americanos tinham orçamento mendigo, o que pensar de seus similares produzidos na ainda dilapidada Grã-Bretanha, de 1957? The Strange World of Planet X tem premissa bem legal e que hoje poderia ser chamada de mashup, porque sobrepõe insetos gigantes com disco-voador pousando pra nos ajudar. Além de uma alteração de ponto de vista: o estranho mundo no tal planeta X é o nosso, aos olhos do benigno ET que visita a Inglaterra pra salvar o mundo. Ele é tão Klaatu, de O Dia Em Que a Terra Parou...
Um cientista maluco pesquisa sobre campos magnéticos e nem se importa quando a ionosfera é afetada, fazendo com que os insetos da floresta se agigantem. Claro que se o filme fosse pelo menos meio legal, não perguntaríamos, porque os domésticos não sofreram mutação. Pena que os curtos 70 minutos parecem 120, porque a maior parte é falação, tagarelice, por falta de verba. Apenas uns 4 minutos finais são excitantes e ainda assim se você gosta de sentir aflição com insetos reais sendo filmados bem de perto (ugh!).
Não estranhe a presença do ianque Forrest Tucker encabeçando o elenco. Frequentemente as produções sci fi da época apresentavam um cientista da ex-colônia, então já no domínio completo da tecnologia e ciência: dava mais “veracidade”. Além de questões práticas como atrair público ou mesmo porque vários realizadores dos EUA filmaram na Inglaterra pra aproveitar os subsídios governamentais.
No ano seguinte a The Beginning Of The End, seu diretor, Bert I. Gordon, voltou raspando o tacho da moda dos filmes de insetos gigantes. No mesmo ano em que A Mosca fazia sucesso (1958), Gordon saiu-se com Earth vs. The Spider, ou, simplesmente, The Spider, como foi marketado pra ressoar com The Fly. O roteiro é tão derivativo que nem se preocupa em explicar porque a aranha se agigantou. Ela vive dentro duma caverna, e pronto. Pensam que ela morre por overdose de DDT, mas um grupo de rock’n’roll a tira de seu torpor e ela aterroriza uma cidadezinha no meio do nada. Não tem nada de “the Earth” nessa trama. Detratores da ainda novidade rock, à época, diziam que o ritmo despertava o demônio dormente em cada um. Pois é o que ocorre. Só não compare a proporção do tamanho do monstrengo barulhento, quando está andando à solta e quando está pendurada na escola e nem repare como tem vez que a aranha é negra e outras bem mais clara. Ou compare só pra rir.
Com elenco de “adolescentes” velhos o bastante pra estarem já formados da universidade e trabalhando, Earth vs. The Spider nada acrescenta à já moribunda voga dos artrópodes gigantes, mas pelo menos dessa vez, Gordon mira melhor as patas do bichão andando sobre fotos. É efeito especial de garagem, tosco mesmo pros padrões cinquentistas, mas um bocadinho melhor e mais ágil do que o dos gafanhotos.
Costumo ser muito respeitoso com os animais e por isto, de saída, peço desculpas aos bichos. E fico imaginando sob a ótica dos estereótipos, qual deles corresponderia ao ex capitão, agora em exercício na presidência. Apoio esta minha audácia em pareceres firmados sobre a tentativa (felizmente) frustrada de dois soldados delinquentes, um deles Jair Bolsonaro, arriscando explodir reservas do Exército Nacional, mediante a reivindicação de aumento de soldos. Recupero, pois duas afirmações que valem como pressupostos para minhas aproximações entre o presidente e certos animais. Começo pelo dizer do general Geisel, garantindo que Bolsonaro era “mau soldado”, e emendo na decisão firmada no processo que levou um dos rebelados, o ex capitão, a processo relatado pelo coronel Carlos Alfredo Pellegrino. Em ato conclusivo sobre a averiguação judicial – que resultou no afastamento de Bolsonaro da linhagem militar – o relator do processo, frente à defesa do terrorista, se manifestou enfatizando tratar-se de “falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos” e pontificou garantindo ser aquele ato característico de alguém com “grave desvio de personalidade”. Pronto, girada a chave dada por Geisel e Pellegrino, imaginemos um passeio pelo zoológico em busca do animal representativo de nossa autoridade máxima.
O primeiro bicho identificado poderia ser um enorme elefante branco que ocupa um espaço apertado para sua capacidade; exemplar exótico na manada, ele se distingue pela falta de modos, de domínio expressivo, de equilíbrio mesmo. Poderia ser também um bode que não sabe se comportar em lugar colocado por equívoco e que, inadequado, quebra tudo a cada movimento. Em seguida poder-se-ia pensar em um papagaio ou uma daquelas aves barulhentas que abusam da penugem verde e amarelo, batendo asas a cada vez que repete os mandamentos da extrema direita. Ah, poderia ser um macaco desses apalhaçados que imitam tudo que mandam fazer e que se comprazem com bananas jogadas por um certo Olavo, seu mentor. Talvez passasse por alguma serpente venenosa, dessas bem peçonhentas e que lhe servisse de corpo capaz de matar mais de 200 mil pessoas, vítimas de políticas negacionistas. Pensei em uma ema, mas resolvi poupá-las, pois aquelas que o bicaram nos jardins do Alvorada me representam e não mereceriam tanto castigo.
Supus depois uma anta, mas acho que também elas ficariam zangadas sendo rebaixadas em sua capacidade de discernimento. E os camaleões valeriam, me indaguei, mas logo achei que pela capacidade sutil de mudar de aparência não daria certo, Bolsonaro não tem a leveza de entendimento das alterações sutis e oportunas, ele só muda de acordo as ordens vindas do exterior. O bicho preguiça poderia ser uma boa alternativa, pensei, pois ocupa lugar sem executar trabalho algum, e mais, além de não fazer nada útil vive com as garras enfiadas em árvores sólidas como se fossem as Forças Armadas. Dispensei os jacarés, pois o próprio ex capitão o elogiou dizendo-o alternativa para a transformação motivada pela vacina.
À medida em que deixava meu pensamento passeando pelas possibilidades ocorriam novas alternativas, todas interessantes, mas tantas eram que optei por eliminar algumas como o portentoso leão, soberano, majestoso. Deixei de lado também os demais grandes felinos, porque são espertos, ágeis, donos de movimentos impensáveis no personagem em foco. E por falar em foco, lembrei-me da foca e, confesso, demorei-me um pouco mais, pois os sons emitidos por ela me fizeram lembrar as reuniões feitas no cercadinho do Palácio onde outras focas aplaudem. Mas fui em frente e, não escapei de uma vaca e, sabe, apoiei essa alternativa supondo os beneficiados das rachadinhas que vazam benesses saídas das tetas ordenhadas pelo famigerado Queiroz. Daí para os coelhos foi um pulo só e nem justifiquei pela prole (01, 02, 03, 04 até ser barrado por uma menina, fruto de vacilo), pois identifiquei pela capacidade de multiplicar problemas de efeitos internacionais e consequências que afetam a China, os Estados Unidos, a Argentina, nossos parceiros maiores. Veado, deixei de lado, pois poderia ferir algum filho e a proposta seria desvirtuada.
Capivara se afigurou uma boa candidata porque é sempre inconveniente e capaz de incomodar muito e estar em lugares indevidos. Certos animais desengonçados poderiam incorporar o lamentável personagem presidencial, mas a girafa por exemplo foi dispensada não por suas pernas longas, mas pelo pescoço que a faz enxergar distancias, e esse não é o caso do ex capitão. Porco espinho ou gambá se afiguraram e ambos caberiam pelo fato de se defender de maneira agressiva a qualquer demanda, principalmente se for democrática.
Bem, a lista é grande e as aproximações variadas, mas por fim conclui por um animal que realmente me convenceu: o dragão de Komodo. Sei que é estranho, pois esse bicho horripilante não é espécie de zoológico, mas convenhamos, além de amedrontador, feroz, irracional, tem uma baba infecciosa capaz de aniquilar os desiguais. Há um fator a mais nessa escolha, pois a obsessão paterna pela prole o distingue fazendo da proteção dos filhos a virtude única do bicho pavoroso. Sabe o que mais me assusta e mete medo? Sendo o elo mais próximo dos dinossauros, o dragão de Komodo não tem predador capaz de detê-lo... Aí é que a coisa fica séria, se não o controlarmos, o mundo pode virar um zoológico. Impeachment já.
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