O estouro global de Downton Abbey empoderou o roteirista
Julian Fellowes. Apaixonado por Anthony Trollope, apresentou à ITV uma
adaptação de Doctor Thorne, terceiro romance das Crônicas de Barsetshire,
publicado em 1858. A etiqueta Fellowes e a ambientação em suntuosas
propriedades no campo inglês garantiriam exportação automática, então, o
roteiro defeituoso deve ter sido aceito sem muito critério e em março os 3
desajeitados capítulos de Doctor Thorne foram ao ar.
Fellowes não é genial, prova disso é que a graciosa
Downton Abbey foi bem irregular; leitores podem checar aqui, minhas resenhas,
onde reclamava da morosidade de algumas temporadas ou da falta de serventia de
personagens. A adaptação do alentado romance do prolífico Trollope padece de
roteiro irregular, que não se decide se é drama ou sátira; pelo atropelo e por
revelar dado crucial cedo demais.
Mary Thorne foi criada pelo médico da vila, o Doctor
Thorne do título, e desfrutava da proteção da família Gresham. Isso acaba
quando fica patente que ela e o herdeiro Frank estão apaixonados: os Gresham
estão endividados e Frank precisava casar por dinheiro e não por amor, ainda
mais que Mary tinha origem obscura. Lady Arabella Gresham e a Condessa de
Courcy coagem Mary ao ostracismo social e a abrir mão de seu amor por Frank,
“pelo bem dos Gresham”. Mas, Mary tem um segredo deliciosamente folhetinesco,
revelado ao fim do primeiro episódio, que já nos deixa saber o final da
história. Talvez não houvesse problema se tudo tivesse sido conduzido com mais
competência, mas, intuída a conclusão, resta pouco a Doctor Thorne.
A minissérie não decide se é drama ou comédia de costume;
cenas dramáticas são pontuadas por insistente trilha-sonora cômica, uma coisa
cancelando a outra. Doutor Thorne nomeia a história, mas é apagado a maior
parte do tempo. Mary e Frank não convencem como apaixonados; o problema nem
deve ser dos atores, mas do roteiro diluto.
Doctor Thorne não é destituída de atrativos, porém.
Rebecca Front rouba a cena e lacra como Lady Arabella Gresham. Só ela e
Countess de Courcy com sua cara de entojada já valem pra anglófilos. Trollope éa versão hardcore de Jane Austen: o
mercado matrimonial é retratado darwinisticamente como guerra de sobrevivência
do mais forte, daí, vale tudo, especialmente coerção nervosa. Lady Gresham
impera, amei demais!
Só recomendo Doctor Thorne pra quem ama séries
ambientadas em vastas propriedades (uma delas deixa Downton no chão, fiquei
passado!), com aquele sotacão inglês idealizado e golpe de novelão, ainda que
aqui ele ocorra cedo demais, mas, mesmo assim, quando Lady Arabella descobre a
verdade (que barbeiragem, não vemos a reação, apenas ouvimos!), é deliciosa a
hipocrisia com que conduz tudo.
Doctor Thorne deveria se
chamar Lady Arabella Gresham.
Em 1980, numa das tentativas globais de reeditar os
festivais sessentistas, uma das canções que jamais saiu de minha cabeça foi
Mais Uma Boca, de Fátima Guedes. Até hoje cantarolo (errado) o comecinho,
assim: “Quem de vocês, se chama João? sua mulher teve um filho, sozinha no
barracão.” Ela foi enquadrada na geração de letristas de denúncia social e era
bem badalada, porque a idolatrada Elis Regina gravou Onze Fitas, pro álbum
duplo Saudades do Brasil, do mesmo ano.
Aqui no então isolado noroeste do estado de São Paulo,
lembro da faixa Muito Prazer tocando nas FMs, em 1983. Essa é outra que
cantarolo sempre (corretamente). A onda roqueira que varreu o país pós-Blitz,
tirou das rádios daqui Fátima, Luis Guedes e Thomas Roth, Flávio Venturini, Lô
Borges et ali. As modas subsequentes
de lambada, fricote, axé, pagode, sertanejo e sei lá mais o que, esconderam de
vez esse tipo de MPB do grande público daqui, além de me afastarem das ondas
radiofônicas.
Recuperei contato com Fátima na era da internet. Mesmo
assim, a oferta e os interesses são tantos que só soube de Transparente, de fim
do ano passado, há poucas semanas. Mas, La Guedes não poderia ficar de fora da
seção de música mesmo com essa defasagem temporal.
Das 14 canções, apenas uma meia dúzia é inédita. Curioso,
porque ela deve ter as gavetas cheias de composições. Não me lembro de álbum
autoral seu há pelo menos uma década. Claro que não dá pra reclamar dos
arranjos esmerados e delicados que farão arrepiar os amantes da MPB safra 70’s,
mas a qualidade do material novo é tão boa que dá pena pelo que estamos
perdendo, ao mesmo tempo que torcemos pra que volte logo com álbum só com
inéditas.
Quem hoje em dia faria letra aconselhando o sujeito a
pedir a Deus por estrutura ética e consciência critica, pois há uma nova ordem
mundial? E isso sem panfleto sociopolítico, na verdade, inserida no bolero
jazzificado dor de cotovelo de Ética. Lua de Cereja é veraneio samba-funk com
contracanto de Dori Caymmi. Iê, iê, iê, iê, iê, iê, ah! Não paro de cantarolar
isso. Sempre Bate o Sol é partido alto elegantérrimo e Transparente é madrigal
delicado em melodia, arranjo e letra. Todas novidades.
A faixa Ela está numa situação intermediária, porque já
aparecera num álbum ao vivo, mas acho que pouca gente ouviu, uma vez que esse
registro sumiu do mapa. Em Transparente, Ela ganhou sua primeira versão de
estúdio. Sensual e circular melodia e letra sobre uma mulher muito maluca. Dá
vontade de sair girando pela rua, jogando flores e beijos pra estranhos.
Das demais canções, não compensa comparar qual versão é
melhor. Cheiro de Mato perdeu a intensidade dos 20 e poucos anos, mas ganhou
outra; a do lirismo jazzy mais lento. Belezas diferentes. Como reclamar do
intenso dueto com Dori Caymmi, em Flor de Ir Embora ou do clima de interior
paulista à Renato Teixeira, de A Vida Que a Gente Leva? O negócio é curtir as 2
versões.
Cantora com voz sui
generis, sem paralelo na MPB em sua dicção e entonação; Fátima Guedes pode soar
estranha pra neófitos. Mas, se você se acostumar, entrará num universo
extremamente rico, particular e que merece ser mais (re)conhecido.
Dando sequência às postagens comemorativas ao outubro rosa - mês de prevenção do câncer de mama - assista ao depoimento da filha de uma paciente que superou a doença.
AS MISTERIOSAS SEQUOIAS ALBINAS QUE SOBREVIVEM SEM CLOROFILA, AJUDADAS POR ÁRVORES VIZINHAS
De acordo com a lei da natureza, as sequoias albinas (albino redwood) não poderiam existir dada a sua falta de clorofila, o pigmento verde que permite que as plantas sobrevivam graças à magia da fotossíntese.
No entanto, na Califórnia, existem sequoias albinas, renomeadas sequoias fantasma dada a sua característica de se mimetizar com o ambiente circundante, e muitos pesquisadores, há tempos, vêm estudando esta espécie. Agora o biólogo Zane Moore, da University of California parece ter encontrado uma possível explicação para a sua sobrevivência.
Em geral, na ciência, as sequoias são consideradas "complicadas”. Elas estão entre as mais altas da terra e têm uma longevidade de mais de 2.500 anos, têm seis cromossomos em vez de dois e ninguém, até agora, conseguiu estudar exatamente seu genoma
Dizem que suas raízes se comunicam e que, durante os períodos de escassez, elas podem compartilhar umas com as outras, os nutrientes que necessitam para sobreviver. Mas, na verdade, no verão, cada uma delas continuam a viver sozinhas, então como é possível que as sequoias albinas não morram?
De acordo com Moore, essas árvores são mais inteligentes do que pensamos.
"Descobrimos que essas árvores gostam de crescer onde as condições do solo são menos saudáveis, e acreditamos que são exatamente estas características que as fazem prosperar. Ao analisar as suas folhas brancas, percebemos que elas são um coquetel mortal de cádmio, cobre e níquel", diz Moore.
Na prática, as folhas brancas continham duas vezes mais a quantidade destes metais.
"Parece que as árvores albinas consigam sugar estes metais pesados do solo.Praticamente se envenenam e sobrevivem."
Com base nesta hipótese, Moore teorizou que a cor destas árvores não seja devido a parasitas, mas sim ao fato destas atuarem como reservatórios, contendo todas as substâncias nocivas, também das árvores vizinhas, em troca de nutrientes para sobreviverem.
Síndrome de Rapunzel: americana tem bola de cabelo de 15 cm retirada do estômago
James Gallagher
Rapunzel é uma personagem de contos de fada que lança suas longuíssimas tranças pela janela para que seja possível escalar a torre na qual fica presa.
Mas também é o nome de uma síndrome rara que acomete pessoas como uma americana de 38 anos que, por causa do tipo de distúrbio, tinha uma bola de pelos de 15 cm de diâmetro em seu estômago.
A síndrome de Rapunzel é caracterizada pela combinação da tricotilomania, uma vontade irresistível de arrancar o próprio cabelo, e a tricofagia, como é chamada a ingestão compulsiva dos fios.
Os poucos casos já documentados mostram que isso pode levar a consequências terríveis para o sistema digestivo. No caso da americana, que não teve seu nome revelado, ela passou a ter surtos de vômito e constipação, e seu estômago inchou por estar repleto de líquidos e gases.
Ela parou de ingerir comida por um ano, perdeu 7 kg nos oito meses anteriores e, quando foi atendida no hospital, não conseguia reter nenhum alimento que ingeria.
Médicos do Estado do Arizona, autores do relato do caso no periódico científicoBMJ Case Reports, fizeram a princípio uma transfusão de sangue para combater a anemia da paciente.
Mas, ao fazer uma cirurgia, descobriram uma bola densa de pelos de 15 cm x 10 cm em seu estômago e outra menor, de 4 cm x 3 cm, no intestino delgado, que estavam bloqueando seu sistema digestivo.
Elas foram retiradas, e a paciente passou a ingerir uma dieta rica em proteína para ajudar na sua recuperação.
Até hoje foram registrados 88 casos desta síndrome. Em alguns deles, os fios de cabelo se acumularam continuamente em todo o sistema digestivo, do estômago ao intestino grosso.
A maioria das ocorrências se deu em crianças: 40% dos pacientes tinham menos de 10 anos de idade.
A revista Dazed publicou matéria com o trabalho da fotógrafa Anna Mascarenhas, que tenta conscientizar sobre a necessidade de inclusão no mundo da moda, através da história das gêmeas albinas brasileiras que querem ser modelo. Leia a tradução da reportagem e veja as lindas fotos.
As Gêmeas Albinas Brasileiras Que Sonham Com o Mundo da
Moda
(Tradução: Roberto Rillo Bíscaro)
A fotógrafa Anna Mascarenhas encontra uma família
brasileira que não se encaixa nas categorias fixas de beleza do país – mas a
profissional esperar alterar esse quadro
Sendo um país com população procedente de grupos étnicos
muito variados, o Brasil tem uma longa e complicada história de desigualdade
racial, a qual não é frequentemente abordada pela mídia cultural de massa. Paradoxalmente,
é o país de origem de versões-padrão de beleza branca, nas figuras de
supermodelos como Gisele Bündchen e Alessandra Ambrosio. Mas, a fotógrafa Anna
Mascarenhas está tentando promover um tipo diferente de beleza, através da
divulgação da aparente pequena história de uma família.
Mascarenhas, de 22 anos de idade, se interessa por
fotografia desde os 10 anos, quando brincava com uma câmera analógica portátil
e a câmera de vídeo de sua mãe. Depois de concluir a faculdade de Comunicação,
retomou sua obsessão infantil com o objetivo de salientar a diversidade de seu
país. Seu projeto com as irmãs Sheila, Lara e Mara mostra como as redes sociais
e a nova abordagem não hierárquica da moda podem potencialmente mudar as
coisas.
“Descobri as meninas através de meu Instagram”, recorda. “Seus
pais vieram da Guiné Bissau em busca de oportunidades, quando a mãe estava
grávida de Sheila, a mais velha. Pouco tempo depois, ela teve as gêmeas, Lara e
Mara. Como elas são albinas, o pai pensou que havia sido traído, por isso,
abandonou a família. Eles se separaram e ela criou as meninas sozinha. A mãe é
cabeleireira no centro de São Paulo e sua especialidade é cabelo afro. A filha
mais velha – Sheila, de 14 anos – sonha em ser modelo, assim como suas irmãs
menores. O problema é que parece que elas não se encaixam em categoria alguma.
Morando numa favela e tendo apenas uma mãe-solteira para pagar todas as
despesas, esse sonho tem tudo para fracassar.”
Logo de cara, Mascarenhas sentiu vontade de ajudar as
irmãs a realizarem seu sonho. Quando ela as fotografou, mal as conhecia, então
quis explorar o processo do desenvolvimento da intimidade entre elas. “As
gêmeas são muito hiperativas, embora sensíveis. As três são fantásticas e muito
amorosas.” No cerne da história, há as identidades emergentes das garotas e sua
percepção de beleza. “Quis mostrar como elas se enxergam como irmãs, como afrodescendentes,
como indivíduos. Como se relacionam com o que a sociedade espera delas, sendo
marginalizadas por sua classe e cor. E, mais importante, como se relacionam com
o que vêm no espelho”.
Trabalhar com as adolescentes, levou Mascarenhas a
refletir novamente sobre as dificuldades de se inserir no mundo da moda no
Brasil e na falta de diversidade da indústria. “Ao conhecê-las, comecei a
cogitar por que tinha que ser tão difícil para elas. Entrar nesse mundo é duro
para qualquer um, mas por que tem de ser ainda pior para elas? Temos uma
população multicultural no Brasil, mas quando falamos em publicidade e moda em
geral, ainda temos um longo caminho a percorrer. Tudo ainda é muito branco e
magro, como se estivéssemos presos a um quadrado que não conseguimos abandonar.
Na São Paulo Fashion Week, por exemplo, um acordo foi assinado em 2009 para que
10% das modelos fossem de descendência negra ou indígena, mas ano passado a ONG
Educafro denunciou que isso não estava sendo seguido pelas marcas. Você
consegue imaginar agências contratando gêmeas albinas para vender jeans para
mães de classe média? Nao consigo. Por isso quis contar a história delas; não acho
que alcançariam seu sonho pelas vias regulares”.
“A indústria da moda está tentando mudar, mas vai muito
devagar se comparada ao resto do mundo. Marcas novas e alternativas são mais
contestadoras, mas ainda há muito o que fazer quando o tema é inclusão. Posso
te enviar uma revista de moda padrão para contarmos quantas modelos negras
aparecem nos anúncios, em comparação com as brancas. Isso não é legal,
especialmente em um país tão negro como o Brasil”, acrescenta.
Felizmente, Mascarenhas e seus seguidores estão
levantando o assunto e esse parece o modo adequado de agir. “O melhor jeito de
mudar essa situação é falar muito a respeito para chamar a atenção de pessoas
importantes na indústria, cujas decisões fazem a diferença”, arremata.
‘Como virei consultor de tecnologia na Europa com o que aprendi na escola pública’
Mona Lisa Dourado
Imagine uma escola pública com um dia assim: aula de biologia, depois design e português. Pausa para o lanche. Multimídia, geografia e fotografia. Almoço no colégio e mais atividades: química, programação de games e história. Quando o sinal toca, às 17h, ainda há monitoria de mídia, oficina de artes e robótica para quem tiver disposição.
Foi em um ambiente como esse que o pernambucano Arthur Pessoa cursou o ensino médio, garantindo uma boa nota no vestibular de Sistemas da Informação e logo o carimbo no passaporte para o mercado internacional: hoje, aos 21 anos, é consultor de tecnologia da informação em Praga, na República Tcheca.
"Atribuo grande parte do meu êxito à escola. Aprendi, por exemplo, a programar jogos em terceira dimensão, algo que às vezes não é ensinado nem na graduação e foi essencial para minha carreira fora do país", afirma.
Pessoa é um dos 1.119 alunos formados na Escola Técnica Estadual Cícero Dias/Nave, ou apenas Nave (Núcleo Avançado em Educação) Recife. Com metodologia inovadora, a instituição acabou se tornando referência em ensino médio profissionalizante no país.Quem entra na escola pode escolher cursar, além do currículo tradicional, programação de jogos ou multimídia. Ao final de três anos, o aluno costuma sair com bagagem para encarar desafios do século 21 em áreas como design e inteligência artificial.
Filho de um professor e uma enfermeira, Pessoa tentou a vaga por sugestão dos pais. Levava jeito para computação e lógica e viu uma oportunidade de aprofundar o conhecimento.
"No curso desenvolvi softwares para dispositivos móveis. Por esse conhecimento prévio consegui estágio no primeiro período da faculdade e tive facilidade na busca por oportunidades internacionais", conta.
Também foi útil, afirma, aprender a ter uma rotina de trabalho desde o colégio. "Como a escola era integral, passávamos cerca de nove horas lá todos os dias úteis. Aprendi ainda ensinamentos profissionais como data de entrega de tarefa e documentação de projetos."
O recifense hoje divide um apartamento com dois amigos franceses, trabalha oito horas por dia e ganha o equivalente a R$ 5,3 mil mensais. Nas horas livres, faz bicos em publicidade. Para o futuro, planeja voltar ao Brasil e contribuir de alguma forma para a educação no país.
Autonomia
Mães, pais, empresários ou repórteres - seja quem for o visitante, na Escola Cícero Dias os alunos são os anfitriões.
"Ouvi nos primeiros dias aqui que aprenderia a ser protagonista da minha própria vida. Foi o que mais me marcou. Da forma criativa como o conteúdo é mostrado, a cabeça da gente se abre para um monte de possibilidades", diz Pedro Gomes, de 15 anos, aluno do 1º ano.
Com orgulho e desenvoltura, ele apresenta a estrutura da escola: salas temáticas, laboratórios de mídia-educação e estúdio de produção audiovisual, entre outros espaços.
A proposta é desde cedo incentivar os estudantes, de 14 a 17 anos, a desenvolver raciocínio lógico e senso crítico, criando soluções para problemas atuais com o uso de ferramentas tecnológicas.
A ex-aluna Jacqueline Alves, de 18 anos, hoje estudante de Engenharia da Computação na UFPE, aplicou esse conhecimento ao participar, no ano passado, de um desafio de inovação para meninas em São Francisco, nos EUA.
"Eu e outras quatro amigas recebemos a tarefa de resolver um problema na nossa comunidade. Lembramos da falta de água e criamos um jogo que ensina crianças a economizar", conta. No aplicativo, o usuário leva a personagem Vitória a desligar torneiras e apagar luzes de apartamentos.
Para Acássia de Santos, de 17 anos aluna do 3º ano, a oportunidade de aprofundar o conteúdo das disciplinas regulares com o desenvolvimento de produtos digitais é o que mais motiva os alunos.
Ela cita como exemplo a animação sobre adoção de animais que criou. "Estudamos características físicas, hábitos e a relação dos bichos com o homem para discutir a questão do abandono. Quando aplicamos na prática, os conceitos deixam de ser abstratos", diz a jovem, que pretende cursar engenharia e sonha em abrir uma empresa.
Na hora de avaliar o desempenho dos alunos, prova de múltipla escolha é peça de museu na Cícero Dias - o foco é voltado a projetos e questões discursivas.
"Em vez de lidar com disciplinas como biologia, matemática, física e português de forma isolada, visando somente o vestibular, os estudantes enxergam na prática o reflexo dos conteúdos no cotidiano", resume o professor de programação e design Maurício Taumaturgo, de 23 anos.
As soluções desenvolvidas pelos alunos, muitas com potencial para se transformarem em start-ups, também passam pelo crivo de empresários da indústria criativa em um evento anual.
Funcionamento
A escola é fruto de uma parceria público-privada firmada em 2006. Integra um programa do Oi Futuro, braço social da operadora de telefonia, com a Secretaria de Educação de Pernambuco. Nasceu como projeto de responsabilidade social e qualificação profissional e ganhou status de escola técnica integrada em 2010.
A empresa banca professores, funcionários e laboratórios dos cursos técnicos. O governo responde por docentes de disciplinas regulares, alimentação, laboratórios de ciências e uniformes. O material escolar vem do Ministério da Educação.
"O Nave se baseia em três pilares: escola, centro de pesquisa para estudo e qualificação dos professores e disseminação, compromisso com a replicação das metodologias", descreve o coordenador do Centro de Pesquisa do Oi Futuro, Júlio Magno Horta.
A coordenadora do Nave, Mariana Christovam, diz que o pedido de recuperação judicial que a Oi fez em junho deste ano não ameaça a continuidade do projeto. Por dificuldades financeiras, a operadora chegou a fechar uma escola livre de arte e tecnologia que mantinha na cidade para jovens de baixa renda.
Perspectiva
Aluna do 2º ano, Talyta Pacheco, de 17 anos, participou da criação de um aplicativo para direcionar sobras de alimentos de restaurantes para instituições de caridade. A partir desse tipo de experiência, conta, definiu o seu futuro profissional.
"Nunca tinha mexido com programação antes e não sabia o que queria. Agora decidi fazer vestibular para Sistemas da Informação, que lida com gerenciamento de projetos", afirma.
Estimular os alunos a trabalhar em grupo ainda contribui para o desenvolvimento das habilidades de relacionamento interpessoal, explica o coordenador de multimídia dos cursos técnicos, Luiz Araújo.
"Queremos que entendam todo o ciclo, do nascimento de uma ideia até sua publicação como produto. Buscamos simular as situações que irão encontrar na vida pessoal e profissional, em qualquer área", diz.
Falar em público com segurança também entra no pacote, como revela Isabela Vasconcelos, de 16 anos, aluna do 2º ano. "Saber se apresentar bem dá credibilidade ao que você está dizendo", destaca.
A rotina na escola pode parecer cansativa - grade obrigatória de 7h30 às 17h e atividades extraclasse na hora do almoço e no pós-aula -, mas a rotina com disciplinas regulares e técnicas intercaladas faz o tempo correr, diz a ex-aluna Jacqueline Alves.
"A relação dos alunos com os professores é muito bacana. Como passamos o dia inteiro na escola, acabamos tendo muito contato com os professores. Se temos qualquer dúvida, podemos ir atrás deles a qualquer momento na sala dos professores", lembra.
Hoje estagiária da escola, Juliane Travassos, de 20 anos, deixou aos 16 anos a casa da avó, na Ilha de Itamaracá, a 45 km do Recife, e foi morar na capital com a irmã mais velha para poder estudar na Cícero Dias. "Valeu cada sacrifício", relata.
"Cheguei ao curso superior (de Cinema) sabendo fazer roteiro, storyboard e distribuir tarefas, coisas que meus colegas nem conheciam. Era a mais disputada para trabalhos em equipe."
O coordenador de mídia-educação Roan Saraiva, de 24 anos, é outro ex-aluno que hoje trabalha na escola. "Desde que cheguei aqui, em 2007, me envolvi em tudo. Fui monitor e participava das oficinas extras", diz. Para ele, o engajamento dos alunos é a chave do sucesso do colégio.
Reconhecimento
Aplicativos, animações e games idealizados pelos alunos da Cícero Dias/Nave Recife têm competido e vencido em concursos nacionais e internacionais, como Anima Mundi, Pequeno Cineasta, SB Games, Global Game Jam e Technovation.
Desde 2012, a escola é primeiro lugar no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) entre os cursos técnicos estaduais. Em média, 80% dos alunos são aprovados em cursos superiores, e 20% deles continuam na área de tecnologia. Em 2013, o colégio recebeu o título de escola inovadora da Microsoft, entre 80 escolhidas pelo mundo.
Apesar do sucesso da iniciativa, o instituto Oi Futuro diz não ter perspectivas de abrir novas escolas. Afirma, contudo, que trabalha para replicar metodologias criadas por professores do Nave Recife, como a do "educador-orientador", de acompanhamento personalizado do aluno.
O governo de Pernambuco afirma que quer ampliar parcerias com o setor privado na educação no Estado, e cita um caso no interior em que uma indústria de baterias automotivas financiou laboratórios e projetos de pesquisa em uma escola técnica da cidade.
Ainda neste ano, a gestão prevê lançar um projeto para incentivar estudantes da rede estadual a desenvolver atividades de programação. O objetivo, diz o secretário da Educação, Fred Amâncio, é estimular o aprendizado de matemática e física e despertar o interesse em carreiras de tecnologia. Tudo inspirado nas práticas da Cícero Dias.
“Para todo problema complexo existe uma solução clara,
simples e... errada”. Essa afirmativa é do jornalista norte-americano, H. L.
Mencken, e se aplica, muitas vezes, ao comportamento de boa parte do mundo
contemporâneo. Vivemos correndo e nossas agendas sempre lotadas arrolam
compromissos que se atropelam. É notória a dificuldade que temos no trato e
controle e gestão do tempo. Decorrência natural disso é a ansiedade, irmã da
frustração, gêmea da depressão, que parece nos esperar sentada nas esquinas da
vida. Se pararmos para olhar em nosso derredor contemplamos pessoas nervosas,
aflitas e com expressão de desespero, aguardando o momento de soltura fatal
que, por sua vez, nos levará à baixa-estima. Talvez isso explique um dos mais
assustadores problemas da cultura contemporânea: a profusão absurda dos livros,
artigos, frases e conselhos de autoajuda. Basta dar uma olhada em qualquer
livraria – em particular nas bancas de rodoviárias e aeroportos – para
constatar a abundância de primeiros-socorros contra a infelicidade, pílulas de
ensinamentos comportamentais. Lições, passos, guias práticos, são tematizados
como se fossem salvadores imprescindíveis de nossos destinos sempre desgraçados.
As leituras de tais textos são tão exclamativas, indicativas peremptórias de
que sem elas não sobreviveríamos aos tsunamis existenciais. A surpresa aumenta
ainda mais quando se constata que esses são os livros mais vendidos, e que o
público que os consome varia de idades, classes sociais, gênero e raça. E é um
fenômeno mundial.
Dia desses, em minhas rotineiras voltas em busca de
atualização de temas especializados em minha área de atuação, numa dessas
livrarias magníficas - daquelas que têm sofás, bancadas para leitura, cafés - sentei-me
e, perto de mim, se ajeitou um moço de seus 40 anos. Enquanto eu folheava os
volumes que havia separado para exame, ele fazia o mesmo com uma pequena pilha
de livros de autoajuda. Absorto que estava em minha tarefa, fui interrompido
pelo repentino interlocutor que pediu para que lhe explicasse a frase que abre
esta crônica. Incapaz de entender a ironia encerrada na combinação de “solução clara e simples para problemas
complexos”, ele questionava o que haveria de equivocado em achar isso “errado”. Atropelando a lógica
compreensiva, ele antepunha a complexidade indagando se as dificuldades do
mundo deveriam ser fatalmente intricadas. Bastou um minuto para que entrássemos
no redemoinho filosófico. Juntei os predicados de professor, tentando trocar em
miúdos, exercitei a prática de uma explicação que começava por um oportuno
“veja bem”...
“Veja bem”... o tempo imediato e a pressa na resolução
das contendas acaba por definir a velocidade das resoluções. E, na pressa, a
eficiência pronta, simples e clara atua
como centro de solução. Sem retomar os fundamentos da Caverna de Platão, tratei de assegurar que as boas resoluções são
elaboradas no ritmo de horas de experiências que, aliás, têm relógio diferente.
E disse mais, que nem sempre as tais boas soluções seriam claras, implicando, inclusive alguns meandros dificultosos. “Quer
dizer que a vida é complicada e que não há soluções simples?”, pronunciava o
perplexo moço. Sem querer ser impertinente disse que poderia até acontecer, mas
que algumas pessoas precisavam de mais argumentos e reflexões mais apuradas e
que, exatamente, dessa trajetória derivava a complexidade inerente a boa
solução.
Já alheios aos livros escolhidos para análise, partimos
para um café e ao final, depois de divagações mirabolantes onde se falou da
vida, ouvi dele que estava desempregado, recém-casado e com dívidas acumuladas.
Disse mais: que na falta de grana para procurar um analista ou conselheiro
profissional, buscava um bom livro de autoajuda. Foi o que me bastou para
demonstrar, ali mesmo, que aquele era um exemplo de “solução clara, simples
e... errada”.
Despedimo-nos logo. Andando de volta para minha casa não
conseguia deixar de refletir sobre o breve papo e tanto pensei que quase fiz o
retorno para comprar um daqueles títulos do tipo: seja feliz em 10 lições.
A Tanzânia vive uma onda de ataques contra albinos, considerados por alguns a cura de doenças e, por outros, o símbolo do azar, da maldição e da bruxaria.
S
aid Abdallah, uma menina de 10 anos, teve os braços decepados depois de ser tacada por homens que a acusaram de ser uma “bruxa amaldiçoada”. Mas o real motivo pela qual Said foi agredida é ser albina. A Tanzânia, o país da África com o maior número de albinos, vive uma onda de casos como o de Said.
Principalmente nas áreas rurais, acredita-se que a ausência de melanina na pele, no cabelo e nos olhos, principais causas que levam ao albinismo, são sinais de maldição e azar. A intensificação dos problemas de intolerância fez com o que o governo da Tanzânia passasse a abrir centros de acolhimento a albinos por todo país.
Muitos albinos são expulsos de suas próprias casas porque as suas famílias têm vergonha de cria-los.
De acordo com a Associação de Albinismo da Tanzânia, foram registados este ano oito mil albinos no país, entre homens, mulheres e crianças. Para a representação, acredita-se que essa população é muito maior já que a maioria dos albinos se esconde ou não se declara albina com medo da repressão.
“Muitos albinos fogem das suas vilas com medo de serem esquartejadas e terem os seus órgãos vendidas por traficantes”, explica a jornalista Ana Palacios ao jornal britânico “Metro”.
De acordo com a jornalista, alguns acreditam que “os órgãos de albinos podem ser usados em poções mágicas”.
Enquanto para alguns a doença é vista como uma maldição; para outros, os albinos são milagrosos. “Eles são estuprados porque alguns acreditam que eles carregam a cura da Sida. Eles são alienados da sociedade por serem considerados mágicos”, enfatiza Ana.
Algumas famílias africanas acreditam que as crianças brancas são um “estigma” e, dessa forma, eles passam a ser “maltratados” e “menos alimentados”. Muitos, inclusive, não recebem o tratamento necessário e acabam como vítimas do cancro de pele.
Dramas que têm de acabar
O
pescador Mtobi Namigambo vive na ilha de Ukerewe, na Tanzânia. Situada a três horas de distância de Mwanza, segunda maior cidade do país, a ilha remota já foi tida como um santuário para albinos. Mas a situação mudou.
Um dos filhos de Namigambo, May Mosi, com quatro anos de idade, é albino. Quando tinha três meses, escapou de uma tentativa de sequestro. “Tinha ido pescar no lago. A minha mulher e as crianças estavam sozinhas na casa quando foram atacadas”, conta o pai, acrescentando que “ela pulou pela janela e correu com May em busca de um local seguro, deixando as outras duas crianças para trás. Elas não sofreram nada.”
“Os agressores estavam à procura de May”, diz a esposa do pescador: “O meu marido estava fora, pescando, e eles sabiam disso. Por isso vieram. Após eu pular pela janela, eles ainda vieram atrás de mim e gritei por socorro. Só desistiram quando acordei os vizinhos.”
O albinismo é um distúrbio congénito caracterizado pela ausência de pigmento na pele, cabelos e olhos devido a uma deficiência na produção de melanina pelo organismo. Em alguns casos também provoca problemas de visão. O distúrbio é raro, afectando uma em cada 17 mil pessoas aproximadamente.
No Brasil, por exemplo, haveria (embora não haja dados oficiais) entre 10 mil e 12 mil pessoas com albinismo. Entre elas está o compositor e multi-instrumentista Hermeto Paschoal, reverenciado por músicos de jazz em todo o mundo.
Pouco presente no mundo ocidental, o albinismo, no entanto, é comum na África Subsaariana. Na Tanzânia e em outros países africanos, especialmente no leste do continente, há muitos. E eles sofrem perseguições.
Em algumas regiões, são tidos como demoníacos e perigosos. Na Tanzânia, alguns acreditam que poções feitas utilizando partes dos corpos dos albinos trariam sorte e riqueza.
Como resultado, perto de uma centena de albinos foram mortos no país nos últimos anos. Segundo grupos que fazem campanha em sua defesa, apenas dez pessoas foram presas em consequência desses assassinatos.
Nos últimos anos, houve várias iniciativas para tentar conscientizar a população e romper preconceitos e superstições em torno do albinismo. Em 2012, na África do Sul, uma modelo albina foi destaque no continente quando desfilou pelas passarelas da Africa Fashion Week.
Na Tanzânia, o governo também lançou campanhas de conscientização. Mas o problema persiste, especialmente em regiões remotas como a ilha Ukerewe, onde vivem o menino May e sua família.
“Nós apelamos ao governo por mais iniciativas para educar a comunidade aqui (na ilha)”, diz Namigambo, pai de May. “No passado, as autoridades faziam seminários sobre albinismo. Faziam muita diferença, mas agora não mais.”
A ONG Under the Same Sun (em tradução livre, Sob o Mesmo Sol), que actua junto da população albina da ilha, diz que o lugar não é tão seguro como alguns imaginam. Alfred Kapole, presidente da sucursal regional da Tanzania Albinism Society, nativo da ilha, foi obrigado a fugir para Mwanza.
“Ele foi um dos primeiros albinos a levar o seu caso aos tribunais após um líder local ter tentado matá-lo para ficar com seu cabelo”, diz Vicky Ntetema, diretora da ONG Under the Same Sun. Ele lamenta que esse tipo de experiência seja comum entre albinos no país.
No centro da cidadezinha de Sengerema, a 60 km de Mwanza, uma estátua mostra um casal que não tem albinismo segurando um bebé albino. A mãe da criança coloca na cabeça do filho um chapéu de abas largas para protegê-lo do sol. O monumento também traz 139 nomes de pessoas albinas que foram mortas, atacadas ou cujos corpos foram roubados dos cimitérios.
Um representante da sociedade de albinos de Sengerema, Mashaka Benedict, diz que mesmo pessoas com certo nível educacional acreditam que partes dos corpos dos albinos podem trazer riqueza.
“Se isso é verdade, por que não somos ricos?”, pergunta. E acrescenta: pessoas importantes estão por trás do “comércio da morte”. É por isso que pouquíssimas foram presas, acusadas ou condenadas, ele diz. “Como poderia um pobre oferecer fortunas por um pedaço de um cadáver? Os envolvidos são empresários e políticos.”
A polícia, por sua vez, diz que faz o que pode. “São casos complicados porque a maioria dos incidentes ocorre em regiões remotas, onde não há electricidade, por exemplo”, diz o chefe de polícia de Mwanza, Valentino Mlowola. “Isso dificulta a identificação dos infractores durante a noite. Investigamos cada caso e cada alegação, mas não é simples,” explica.
Apesar das dificuldades, activistas persistem na luta para combater o preconceito e a ignorância. Num evento organizado para promover os direitos dos albinos, uma artista com albinismo cantou: “Estamos sendo mortos como animais. Por favor, rezem por nós”
Impensável desperceber que Krøniken (2004-7) pretendeu
pegar o fio da história da Dinamarca contemporânea de onde Matador largara. A
última termina em 1947 e os 22 episódios de Krøniken vão de 1949 a 1974. Isto
posto, também é inegável a superioridade de Matador, embora Krøniken não seja
ruim. Mas, o roteiro é menos sutil que o clássico em nível mundial da TV
dinamarquesa.
Em 1949, a provinciana Ida Nørregaard chega a Copenhague para
estudar. Ela faria o tradicional curso de Economia Doméstica para agradar o
pai, mas no fundo queria a escola noturna de nível secundário, então pensava em
cursar ambos. Diante da regra de poder apenas escolher um, Ida segue sua vontade
e passa a frequentar a escola de noite, sem apoio do conservador papi. Arruma
emprego como secretária numa grande fábrica de rádios e moradia com a comunista
Karen, vizinha do socialdemocrata Børge e seu filho Palle. Nos próximos 25
anos, assistiremos às interações desses núcleos – incluindo a família do
proprietário da empresa, ou você achava que Ida fica só como secretária lá? –
temperadas com suas conflitantes posições políticas, ao passo que de modo mais
geral, temos um panorama da instalação da TV no pequeno país europeu e da
experiência do estado do bem estar social, uma vez que uma das personagens é o
primeiro-ministro Jens Otto Krag (o onipresente Lars Mikklesen).
Um dos dados que inibem Krøniken de atingir as alturas de
Matador é que não disfarça muito bem seu caráter de loa ao partido
socialdemocrata. Outro é que o caráter de folhetim permeia mais do que em sua
antecessora. Ao final de Krøniken, a personagem “malvada” é punida com a
solidão empedrada dum AVC num ato bem de “pagar pelo mal cometido à mocinha da
trama”. Ainda que se goste de traços de soap,
também há que se reconhecer a falta de sutileza.
O apontado não deveria, todavia, impedir que você
buscasse ver essa série. A produção é puro capricho e temos esboço de como essa
Dinamarca idealizada como fosso de liberalidade veio se formando mentalmente.
As mulheres reclamam do machismo o tempo todo, aprendemos como a coroação da
inglesa Elizabeth alavancou a instalação da televisão na Escandinávia. Certo
que os conflitos pessoais são prevalentes, mas a crescente americanização duma
cultura não passa batida.
Tomara que a TV
dinamarquesa não demore pra fazer outro passeio por décadas, começando dos 70’s
e vindo até hoje. Considerando-se o tempo diegético de Matador e Krøniken, já
dá pra fazer.
Embora quando se fale em rock progressivo as cenas
britânica e italiana sejam as mais lembradas, não dá pra descartar a
norte-americana, que mesmo não tendo produzido banda-influência modeladora tipo
Yes e Genesis, teve produção underground farta,
ainda que em sua maioria clones, como Starcastle ou Cathedral. A vastidão
territorial, diversidade cultural e dinheiro correndo na parte norte da América
garantiram que até hoje descubramos “novos” grupos, que produziram único álbum
com 500 cópias, ora disponível no Youtube ou nalgum blog especializado em
pérolas prog perdidas.
Mas, a terra do Tio Sam teve sua fatia de estrelato prog
também. O Kansas é o exemplo mais bem-acabado de rock progressivo acessível e altamente
vendável daquelas plagas. Na segunda metade dos 1970’s, venderam muito e
sucessos como Dust In The Wind tocam até hoje em rádios especializadas em Adult
(ou Album, como originariamente) Oriented Rock (AOR), aquela música inventada
nos 70’s para execução nas ascendentes FMs e que se caracteriza por produção
limpíssima, fusão de estilos como hard rock e prog, enfim, a domesticação da
libido roqueira para cidadãos “responsáveis” de meia-idade ou jovens
bem-comportados. O diferencial do Kansas no mar de prog sinfônico de então, foi
calibrar a sisudez britânica de ELP e Yes com sonoridade roqueira do Meio
Oeste, onde se localiza o estado que lhe dá o nome. Álbuns como Leftoverture
(1976) e Point Of Know Return (1977) devem constar da discoteca de qualquer fã
sinfônico e servem de bússola para entender melhor o que seria o rock de arena
oitentista. E olha uma banda prog ianque virando influência modeladora!
A decadência do rock progressivo, saídas e (re)entradas,
egos e hiatos retiraram o grupo do imaginário midiático, embora ainda façam
turnês, ora em conjunto com bandas como Styx e Foreigner, ora sozinhos, como
agora, quando percorrem tudo quanto é cidade pequena, feira agrícola e centros
de arte em seu pais comemorando os 40 anos de Leftovertures e promovendo o
recém-lançado The Prelude Implicit. Com tantas mudanças na formação, compensa
estabelecer quem são os atuais membros: Ronnie Platt (vocal e teclados), Phil
Ehart (bateria e percussão), Billy Greer (baixo e voz), Dave Manion (teclados),
David Ragsdale (violino e guitarra), Zak Rizvi e Richard Williams nas guitarras.
Guitarra dupla dando variedade na textura, outros dois
capazes de pilotar teclados, violino. Muito promissor para fãs de prog
sinfônico. Há que dizer logo, porém: o Kansas de The Prelude Implicit é AOR e
nem na faixa mais longa torna-se sinfônico de verdade. Ser AOR não é defeito,
desde que bem executado e os coroas saíram-se com bela dezena de canções no
estilo. A versão Deluxe tem 2 a mais, mas são covers, que nada acrescentam, se bem que poderiam ter trocado a
instrumental Section 60 pela cover Oh
Shenadoah.
The Prelude Implicit remete aos bons e velhos anos 70/80,
evitando os excessos deste último, como a irritante bateria eletrônica. Isso
não quer dizer produção antiquada, apenas que o Kansas não traz nada apelativo
para as novas gerações; daí talvez o álbum ter passado como poeira ao vento
para a grande mídia. Ronnie Platt estreia bem no vocal, lembrando sem imitar,
uma galeria de cantores de hard e rock de arena. O destaque tem que ir para o
violinista David Ragsdale, que faz miséria em quase todas as faixas.
With This Heart abre com bateria tribal urbana e ostenta
trechos totalmente assobiáveis e que grudam, pelo menos até que viciemos em
ouvir outro álbum. The Prelude Implicit tem mais de um momento assim; bem
agradáveis e que dão vontade de acompanhar. Em Visibility Zero, a guitarra
começa comendo solta, mas logo vira power ballad com solaço de violino. The
Unsung Heroes é acústica balada Bon Joviana, com pegada gospel transubstanciada em anos 50. Rhythm In The Spirit tem riff guitarreiro de espírito rock e órgão
anos 70, mas as pausas para fôlego – que introduzem delicioso refrão grudento –
atestam que é rock bom moço. Refugee é sensível oração acústica que ao mesmo
tempo lembra o clássico da banda, Dust In The Wind, e Skid Row ou símile no fim
dos 80’s.
The Voyage Of Eight Eitghteen deve ter sido planejada
para agradar a remanescente ala de fãs fanáticos por prog sinfônico. É a mais
longa, com 8 minutos e pico, tem mudança de andamento e oportunidade para todo
mundo solar, enfim, canção prog sinfônica-estereótipo até na estrutura. Nenhum
momento é marcante, porém; todo o estoque de melodias lembráveis foi usado em
outras faixas, mais AOR. Na verdade, essa é um AOR mais longo. Não é ruim, mas
não qualifica o Kansas como bom prog. Camouflage tem tom de rock arrastado, a
passo que Summer é rapidinha de estalar dedos, pura diversão início dos anos
80. Crowded Isolation abre com cordas acústicas, vira galope tribal de baixo
até estabilizar-se como power midtempo.
Fazia 16 anos que o Kansas
não lançava material inédito. Não fizeram feio, mas pena que tão pouca gente ouvirá.
Há uns 30 anos, entraria nas paradas com algum single ou mesmo o álbum.
No mês da campanha internacional para sensibilização da população para o problema do câncer de mama, a #CaféTV conta a história de superação da Cris Longo, que lutou e venceu o câncer.
SÔNIA BRAGA E MINHA (DES)BRAGA(DA) (IN)SÔNIA
– sobre o filme Aquarius.
José
Carlos Sebe Bom Meihy
Nunca gostei de ler
os livros que todos estão lendo. Também evito prestar atenção demasiada em
detalhes da moda, seja em termos de gosto musical, comidas ou roupas. Talvez,
essa minha idiossincrasia se explique pela vulnerabilidade que facilmente me
acomete. Sou influenciável e para me proteger busco isolamentos, silêncios e
demais artifícios defensivos. É verdade que sempre germina em meu inconsciente
a vontade de matar a curiosidade imediata e entrar na onda, mas me contenho e
até posso garantir que, com o tempo, desenvolvi técnicas especiais. Esse jeito,
aliás, já ganhou estratégias de resistência, e por vezes me vejo obrigado a
pagar caro por ficar “de fora” das últimas novidades. Não satisfaço sanhas de
imediato, mas arquivo compromissos na memória, esperando o tempo passar. Até
acredito que aprendi a ver virtudes nesse comportamento. Outra artimanha que
acalento é perceber com certa antecedência os eventos que se incendiarão no
gosto público, e quando isso se anuncia, trato de me adiantar, prevenindo-me das
tais avalanches de informações e olhares definidores do gosto alheio. Também
devo revelar que às vezes isso é difícil, pois alguns acontecimentos ganham
velocidade incontrolável e se formulam desafiadores, com sugestivas sutilezas.
Foi o que aconteceu com o filme “Aquarius”.
Gosto
imenso de cinema. Ver filmes me acalma, facilita a interrupção de rotinas
extenuantes e me ajuda fertilizar novas ideias. A primeira notícia que vi do
filme do pernambucano Kleber Mendonça Filho foi no noticiário sobre o último Festival
de Cinema de Cannes, na França. Na ocasião, o elenco mostrava para o mundo o
posicionamento contra o golpe branco que acabou por afastar a presidenta Dilma.
Dois faróis se acenderam então: um voltado ao filme propriamente dito, e, outro
ao comprometimento político da equipe artística. Ambos interessavam. E muito.
Foi assim que propus uma indagação impertinente: um aspecto tem a ver com o
outro?
Escolhi
a primeira sessão de um cinema pouco frequentado e fui como um menino que foge
da escola para ver o filme novo. Deu certo, a sala estava praticamente vazia e,
munido de pipoca e guaraná, me entreguei para a história. As primeiras cenas enterneceram
e alertaram, ao mesmo tempo: uma festa familiar remota e cenas de íntimo afeto
erótico. O surgimento de Sônia Braga, passadas décadas da reunião inicial, indicava
o caminho de uma vida que foi difícil. Não só pela beleza madura da musa dos
anos de 1970, 80, 90 e de todos os seguintes a 2000, mas também pela interpretação
perfeita. Diferente de grande parte das demais atrizes brasileiras, Sônia Braga
não precisa ser estridente e agitada em cena. Simplesmente ela é, e isso basta.
Aliás, com o nome Clara – intencional e metafórico – o desenrolar do enredo
mostrava alguém que, pelo contrário da agitação moderna, se assume na
sobriedade de uma solidão domada e reflexiva.
No
caso, temos a história de uma moradora de antigo edifício, na Praia de Boa
Viagem, chamado Aquarius, resistindo à especulação imobiliária. A história é
singular em si, com trama bem amarrada e narrativa dividida em três blocos
instruídos por flashbacks. Mas não é isso que qualifica o filme como
excepcional. A música, por exemplo, é tratada como personagem da narrativa, faz
parte integrante e essencial do enredo. Com o simpático apartamento, de frente
para o mar, tendo as paredes recobertas por livros e discos, ouve-se de
Taiguara a Queen. Assim, a música funciona como espécie de trilha sonora
explicativa do sentido do tempo narrativo que não envelhece o gosto pela vida.
E a história se completa emendando detalhes: o aniversário da empregada, as
relações parentais, idas à praia e visitar lugares com amigas.
Se tivesse que determinar um aspecto matriz do
filme, diria sem pestanejar que o fato de Clara ter passado por uma cirurgia de
câncer de mama é o grande nó da trama. Tendo extraído um dos signos mais
importantes da representação da feminilidade, o seio, a ela não cabia perder
mais nada. E a casa é a mostra mais evidente do apego à vida e sua história. O
filme é fora do comum em todos os sentidos, inclusive em cenas que machucam a
moral de falsos defensores dos chamados bons costumes. Isso valeu para que
conservadores críticos apoiassem o fato de elevar a censura para 18 anos. Mas,
não bastasse, Marcus Petrucelli, por rádio, tv e imprensa escrita, detrata a
obra, propondo, boicote ao filme, alegando que seria uma manifestação da
“esquerda cinematográfica”. Em diálogo com moralistas, ultraconservadores, o
crítico do site e-pipoca tratou de
dar continuidade às suas sanhas que, felizmente, são contrastadas com a
afluência pública que lota os cinemas. Afora tais situações, devo expressar meu
apreço pelo cinema autoral brasileiro, que no caso, só pela atuação de Sônia
Braga, valeria ter sido escolhido como o filme nacional que representaria o
Brasil na corrida pelo Oscar. Pensando nessas coisas, medindo o limite crítico
nacional, requentado nesses tempos de política sombria, vale saudar Sônia Braga
como diva capaz de iluminar noites escurecidas pela “nossa” política.