terça-feira, 18 de outubro de 2016

TELINHA QUENTE 234

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Roberto Rillo Bíscaro

O estouro global de Downton Abbey empoderou o roteirista Julian Fellowes. Apaixonado por Anthony Trollope, apresentou à ITV uma adaptação de Doctor Thorne, terceiro romance das Crônicas de Barsetshire, publicado em 1858. A etiqueta Fellowes e a ambientação em suntuosas propriedades no campo inglês garantiriam exportação automática, então, o roteiro defeituoso deve ter sido aceito sem muito critério e em março os 3 desajeitados capítulos de Doctor Thorne foram ao ar.
Fellowes não é genial, prova disso é que a graciosa Downton Abbey foi bem irregular; leitores podem checar aqui, minhas resenhas, onde reclamava da morosidade de algumas temporadas ou da falta de serventia de personagens. A adaptação do alentado romance do prolífico Trollope padece de roteiro irregular, que não se decide se é drama ou sátira; pelo atropelo e por revelar dado crucial cedo demais.
Mary Thorne foi criada pelo médico da vila, o Doctor Thorne do título, e desfrutava da proteção da família Gresham. Isso acaba quando fica patente que ela e o herdeiro Frank estão apaixonados: os Gresham estão endividados e Frank precisava casar por dinheiro e não por amor, ainda mais que Mary tinha origem obscura. Lady Arabella Gresham e a Condessa de Courcy coagem Mary ao ostracismo social e a abrir mão de seu amor por Frank, “pelo bem dos Gresham”. Mas, Mary tem um segredo deliciosamente folhetinesco, revelado ao fim do primeiro episódio, que já nos deixa saber o final da história. Talvez não houvesse problema se tudo tivesse sido conduzido com mais competência, mas, intuída a conclusão, resta pouco a Doctor Thorne.
A minissérie não decide se é drama ou comédia de costume; cenas dramáticas são pontuadas por insistente trilha-sonora cômica, uma coisa cancelando a outra. Doutor Thorne nomeia a história, mas é apagado a maior parte do tempo. Mary e Frank não convencem como apaixonados; o problema nem deve ser dos atores, mas do roteiro diluto.
Doctor Thorne não é destituída de atrativos, porém. Rebecca Front rouba a cena e lacra como Lady Arabella Gresham. Só ela e Countess de Courcy com sua cara de entojada já valem pra anglófilos. Trollope éa versão hardcore de Jane Austen: o mercado matrimonial é retratado darwinisticamente como guerra de sobrevivência do mais forte, daí, vale tudo, especialmente coerção nervosa. Lady Gresham impera, amei demais!
Só recomendo Doctor Thorne pra quem ama séries ambientadas em vastas propriedades (uma delas deixa Downton no chão, fiquei passado!), com aquele sotacão inglês idealizado e golpe de novelão, ainda que aqui ele ocorra cedo demais, mas, mesmo assim, quando Lady Arabella descobre a verdade (que barbeiragem, não vemos a reação, apenas ouvimos!), é deliciosa a hipocrisia com que conduz tudo.
Doctor Thorne deveria se chamar Lady Arabella Gresham.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

CAIXA DE MÚSICA 240

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Roberto Rillo Bíscaro

Em 1980, numa das tentativas globais de reeditar os festivais sessentistas, uma das canções que jamais saiu de minha cabeça foi Mais Uma Boca, de Fátima Guedes. Até hoje cantarolo (errado) o comecinho, assim: “Quem de vocês, se chama João? sua mulher teve um filho, sozinha no barracão.” Ela foi enquadrada na geração de letristas de denúncia social e era bem badalada, porque a idolatrada Elis Regina gravou Onze Fitas, pro álbum duplo Saudades do Brasil, do mesmo ano.
Aqui no então isolado noroeste do estado de São Paulo, lembro da faixa Muito Prazer tocando nas FMs, em 1983. Essa é outra que cantarolo sempre (corretamente). A onda roqueira que varreu o país pós-Blitz, tirou das rádios daqui Fátima, Luis Guedes e Thomas Roth, Flávio Venturini, Lô Borges et ali. As modas subsequentes de lambada, fricote, axé, pagode, sertanejo e sei lá mais o que, esconderam de vez esse tipo de MPB do grande público daqui, além de me afastarem das ondas radiofônicas.
Recuperei contato com Fátima na era da internet. Mesmo assim, a oferta e os interesses são tantos que só soube de Transparente, de fim do ano passado, há poucas semanas. Mas, La Guedes não poderia ficar de fora da seção de música mesmo com essa defasagem temporal.
Das 14 canções, apenas uma meia dúzia é inédita. Curioso, porque ela deve ter as gavetas cheias de composições. Não me lembro de álbum autoral seu há pelo menos uma década. Claro que não dá pra reclamar dos arranjos esmerados e delicados que farão arrepiar os amantes da MPB safra 70’s, mas a qualidade do material novo é tão boa que dá pena pelo que estamos perdendo, ao mesmo tempo que torcemos pra que volte logo com álbum só com inéditas.
Quem hoje em dia faria letra aconselhando o sujeito a pedir a Deus por estrutura ética e consciência critica, pois há uma nova ordem mundial? E isso sem panfleto sociopolítico, na verdade, inserida no bolero jazzificado dor de cotovelo de Ética. Lua de Cereja é veraneio samba-funk com contracanto de Dori Caymmi. Iê, iê, iê, iê, iê, iê, ah! Não paro de cantarolar isso. Sempre Bate o Sol é partido alto elegantérrimo e Transparente é madrigal delicado em melodia, arranjo e letra. Todas novidades.
A faixa Ela está numa situação intermediária, porque já aparecera num álbum ao vivo, mas acho que pouca gente ouviu, uma vez que esse registro sumiu do mapa. Em Transparente, Ela ganhou sua primeira versão de estúdio. Sensual e circular melodia e letra sobre uma mulher muito maluca. Dá vontade de sair girando pela rua, jogando flores e beijos pra estranhos.
Das demais canções, não compensa comparar qual versão é melhor. Cheiro de Mato perdeu a intensidade dos 20 e poucos anos, mas ganhou outra; a do lirismo jazzy mais lento. Belezas diferentes. Como reclamar do intenso dueto com Dori Caymmi, em Flor de Ir Embora ou do clima de interior paulista à Renato Teixeira, de A Vida Que a Gente Leva? O negócio é curtir as 2 versões.
Cantora com voz sui generis, sem paralelo na MPB em sua dicção e entonação; Fátima Guedes pode soar estranha pra neófitos. Mas, se você se acostumar, entrará num universo extremamente rico, particular e que merece ser mais (re)conhecido. 

domingo, 16 de outubro de 2016

OUTUBRO ROSA II

Dando sequência às postagens comemorativas ao outubro rosa - mês de prevenção do câncer de mama - assista ao depoimento da filha de uma paciente que superou a doença.

sábado, 15 de outubro de 2016

ÁRVORES ALBINAS!

AS MISTERIOSAS SEQUOIAS ALBINAS QUE SOBREVIVEM SEM CLOROFILA, AJUDADAS POR ÁRVORES VIZINHAS

sequoia 3

De acordo com a lei da natureza, as sequoias albinas (albino redwood) não poderiam existir dada a sua falta de clorofila, o pigmento verde que permite que as plantas sobrevivam graças à magia da fotossíntese.
No entanto, na Califórnia, existem sequoias albinas, renomeadas sequoias fantasma dada a sua característica de se mimetizar com o ambiente circundante,  e muitos pesquisadores, há tempos, vêm estudando esta espécie. Agora o biólogo Zane Moore, da University of California parece ter encontrado uma possível explicação para a sua sobrevivência.
sequoia 2
Em geral, na ciência, as sequoias são consideradas "complicadas”. Elas estão entre as mais altas da terra e têm uma longevidade de mais de 2.500 anos, têm seis cromossomos em vez de dois e ninguém, até agora, conseguiu estudar exatamente seu genoma
Dizem que suas raízes se comunicam e que, durante os períodos de escassez, elas podem compartilhar umas com as outras, os nutrientes que necessitam para sobreviver. Mas, na verdade, no verão, cada uma delas continuam a viver sozinhas, então como é possível que as sequoias albinas não morram?
De acordo com Moore, essas árvores são mais inteligentes do que pensamos.
"Descobrimos que essas árvores gostam de crescer onde as condições do solo são menos saudáveis, e acreditamos que são exatamente estas características que as fazem prosperar. Ao analisar as suas folhas brancas, percebemos que elas são um coquetel mortal de cádmio, cobre e níquel", diz Moore.
Na prática, as folhas brancas continham duas vezes mais a quantidade destes metais.
"Parece que as árvores albinas consigam sugar estes metais pesados ​​do solo.Praticamente se envenenam e sobrevivem."
Com base nesta hipótese, Moore teorizou que a cor destas árvores não seja devido a parasitas, mas sim ao fato destas atuarem como reservatórios, contendo todas as substâncias nocivas, também das árvores vizinhas, em troca de nutrientes para sobreviverem.
Se esta teoria for confirmada, as sequoias albinas poderiam ser plantadas em áreas poluídas, contribuindo assim para a sobrevivência de outras espécies.
https://www.greenme.com.br/informar-se/biodiversidade/4256-sequoias-albinas-que-sobrevivem-sem-clorofila

A TRICOFAGIA DE RAPUNZEL

Síndrome de Rapunzel: americana tem bola de cabelo de 15 cm retirada do estômago

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

INCLUSÃO ALBINA NA MODA

A revista Dazed publicou matéria com o trabalho da fotógrafa Anna Mascarenhas, que tenta conscientizar sobre a necessidade de inclusão no mundo da moda, através da história das gêmeas albinas brasileiras que querem ser modelo. Leia a tradução da reportagem e veja as lindas fotos.
Anna Mascarenhas’s Sisterhood
As Gêmeas Albinas Brasileiras Que Sonham Com o Mundo da Moda
(Tradução: Roberto Rillo Bíscaro)

A fotógrafa Anna Mascarenhas encontra uma família brasileira que não se encaixa nas categorias fixas de beleza do país – mas a profissional esperar alterar esse quadro
Sendo um país com população procedente de grupos étnicos muito variados, o Brasil tem uma longa e complicada história de desigualdade racial, a qual não é frequentemente abordada pela mídia cultural de massa. Paradoxalmente, é o país de origem de versões-padrão de beleza branca, nas figuras de supermodelos como Gisele Bündchen e Alessandra Ambrosio. Mas, a fotógrafa Anna Mascarenhas está tentando promover um tipo diferente de beleza, através da divulgação da aparente pequena história de uma família.

Mascarenhas, de 22 anos de idade, se interessa por fotografia desde os 10 anos, quando brincava com uma câmera analógica portátil e a câmera de vídeo de sua mãe. Depois de concluir a faculdade de Comunicação, retomou sua obsessão infantil com o objetivo de salientar a diversidade de seu país. Seu projeto com as irmãs Sheila, Lara e Mara mostra como as redes sociais e a nova abordagem não hierárquica da moda podem potencialmente mudar as coisas.  
“Descobri as meninas através de meu Instagram”, recorda. “Seus pais vieram da Guiné Bissau em busca de oportunidades, quando a mãe estava grávida de Sheila, a mais velha. Pouco tempo depois, ela teve as gêmeas, Lara e Mara. Como elas são albinas, o pai pensou que havia sido traído, por isso, abandonou a família. Eles se separaram e ela criou as meninas sozinha. A mãe é cabeleireira no centro de São Paulo e sua especialidade é cabelo afro. A filha mais velha – Sheila, de 14 anos – sonha em ser modelo, assim como suas irmãs menores. O problema é que parece que elas não se encaixam em categoria alguma. Morando numa favela e tendo apenas uma mãe-solteira para pagar todas as despesas, esse sonho tem tudo para fracassar.”
Logo de cara, Mascarenhas sentiu vontade de ajudar as irmãs a realizarem seu sonho. Quando ela as fotografou, mal as conhecia, então quis explorar o processo do desenvolvimento da intimidade entre elas. “As gêmeas são muito hiperativas, embora sensíveis. As três são fantásticas e muito amorosas.” No cerne da história, há as identidades emergentes das garotas e sua percepção de beleza. “Quis mostrar como elas se enxergam como irmãs, como afrodescendentes, como indivíduos. Como se relacionam com o que a sociedade espera delas, sendo marginalizadas por sua classe e cor. E, mais importante, como se relacionam com o que vêm no espelho”.
Trabalhar com as adolescentes, levou Mascarenhas a refletir novamente sobre as dificuldades de se inserir no mundo da moda no Brasil e na falta de diversidade da indústria. “Ao conhecê-las, comecei a cogitar por que tinha que ser tão difícil para elas. Entrar nesse mundo é duro para qualquer um, mas por que tem de ser ainda pior para elas? Temos uma população multicultural no Brasil, mas quando falamos em publicidade e moda em geral, ainda temos um longo caminho a percorrer. Tudo ainda é muito branco e magro, como se estivéssemos presos a um quadrado que não conseguimos abandonar. Na São Paulo Fashion Week, por exemplo, um acordo foi assinado em 2009 para que 10% das modelos fossem de descendência negra ou indígena, mas ano passado a ONG Educafro denunciou que isso não estava sendo seguido pelas marcas. Você consegue imaginar agências contratando gêmeas albinas para vender jeans para mães de classe média? Nao consigo. Por isso quis contar a história delas; não acho que alcançariam seu sonho pelas vias regulares”.
“A indústria da moda está tentando mudar, mas vai muito devagar se comparada ao resto do mundo. Marcas novas e alternativas são mais contestadoras, mas ainda há muito o que fazer quando o tema é inclusão. Posso te enviar uma revista de moda padrão para contarmos quantas modelos negras aparecem nos anúncios, em comparação com as brancas. Isso não é legal, especialmente em um país tão negro como o Brasil”, acrescenta.  
Felizmente, Mascarenhas e seus seguidores estão levantando o assunto e esse parece o modo adequado de agir. “O melhor jeito de mudar essa situação é falar muito a respeito para chamar a atenção de pessoas importantes na indústria, cujas decisões fazem a diferença”, arremata.
Confira o trabalho da fotógrafa em seu site:




Anna Mascarenhas’s Sisterhood

Anna Mascarenhas’s Sisterhood
Anna Mascarenhas’s Sisterhood

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

PRA TER QUALIDADE TEM QUE INVESTIR

‘Como virei consultor de tecnologia na Europa com o que aprendi na escola pública’

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

CONTANDO A VIDA 167

DILEMAS DAS LEITURAS DE AUTOAJUDA.

José Carlos Sebe Bom Meihy

“Para todo problema complexo existe uma solução clara, simples e... errada”. Essa afirmativa é do jornalista norte-americano, H. L. Mencken, e se aplica, muitas vezes, ao comportamento de boa parte do mundo contemporâneo. Vivemos correndo e nossas agendas sempre lotadas arrolam compromissos que se atropelam. É notória a dificuldade que temos no trato e controle e gestão do tempo. Decorrência natural disso é a ansiedade, irmã da frustração, gêmea da depressão, que parece nos esperar sentada nas esquinas da vida. Se pararmos para olhar em nosso derredor contemplamos pessoas nervosas, aflitas e com expressão de desespero, aguardando o momento de soltura fatal que, por sua vez, nos levará à baixa-estima. Talvez isso explique um dos mais assustadores problemas da cultura contemporânea: a profusão absurda dos livros, artigos, frases e conselhos de autoajuda. Basta dar uma olhada em qualquer livraria – em particular nas bancas de rodoviárias e aeroportos – para constatar a abundância de primeiros-socorros contra a infelicidade, pílulas de ensinamentos comportamentais. Lições, passos, guias práticos, são tematizados como se fossem salvadores imprescindíveis de nossos destinos sempre desgraçados. As leituras de tais textos são tão exclamativas, indicativas peremptórias de que sem elas não sobreviveríamos aos tsunamis existenciais. A surpresa aumenta ainda mais quando se constata que esses são os livros mais vendidos, e que o público que os consome varia de idades, classes sociais, gênero e raça. E é um fenômeno mundial.
Dia desses, em minhas rotineiras voltas em busca de atualização de temas especializados em minha área de atuação, numa dessas livrarias magníficas - daquelas que têm sofás, bancadas para leitura, cafés - sentei-me e, perto de mim, se ajeitou um moço de seus 40 anos. Enquanto eu folheava os volumes que havia separado para exame, ele fazia o mesmo com uma pequena pilha de livros de autoajuda. Absorto que estava em minha tarefa, fui interrompido pelo repentino interlocutor que pediu para que lhe explicasse a frase que abre esta crônica. Incapaz de entender a ironia encerrada na combinação de “solução clara e simples para problemas complexos”, ele questionava o que haveria de equivocado em achar isso “errado”. Atropelando a lógica compreensiva, ele antepunha a complexidade indagando se as dificuldades do mundo deveriam ser fatalmente intricadas. Bastou um minuto para que entrássemos no redemoinho filosófico. Juntei os predicados de professor, tentando trocar em miúdos, exercitei a prática de uma explicação que começava por um oportuno “veja bem”...
“Veja bem”... o tempo imediato e a pressa na resolução das contendas acaba por definir a velocidade das resoluções. E, na pressa, a eficiência pronta, simples e clara atua como centro de solução. Sem retomar os fundamentos da Caverna de Platão, tratei de assegurar que as boas resoluções são elaboradas no ritmo de horas de experiências que, aliás, têm relógio diferente. E disse mais, que nem sempre as tais boas soluções seriam claras, implicando, inclusive alguns meandros dificultosos. “Quer dizer que a vida é complicada e que não há soluções simples?”, pronunciava o perplexo moço. Sem querer ser impertinente disse que poderia até acontecer, mas que algumas pessoas precisavam de mais argumentos e reflexões mais apuradas e que, exatamente, dessa trajetória derivava a complexidade inerente a boa solução.
Já alheios aos livros escolhidos para análise, partimos para um café e ao final, depois de divagações mirabolantes onde se falou da vida, ouvi dele que estava desempregado, recém-casado e com dívidas acumuladas. Disse mais: que na falta de grana para procurar um analista ou conselheiro profissional, buscava um bom livro de autoajuda. Foi o que me bastou para demonstrar, ali mesmo, que aquele era um exemplo de “solução clara, simples e... errada”.

Despedimo-nos logo. Andando de volta para minha casa não conseguia deixar de refletir sobre o breve papo e tanto pensei que quase fiz o retorno para comprar um daqueles títulos do tipo: seja feliz em 10 lições.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

NADA PIOR DO QUE SER AFRICANO E… ALBINO


A Tanzânia vive uma onda de ataques contra albinos, considerados por alguns a cura de doenças e, por outros, o símbolo do azar, da maldição e da bruxaria.

S
aid Abdallah, uma menina de 10 anos, teve os braços decepados depois de ser tacada por homens que a acusaram de ser uma “bruxa amaldiçoada”. Mas o real motivo pela qual Said foi agredida é ser albina. A Tanzânia, o país da África com o maior número de albinos, vive uma onda de casos como o de Said.

Principalmente nas áreas rurais, acredita-se que a ausência de melanina na pele, no cabelo e nos olhos, principais causas que levam ao albinismo, são sinais de maldição e azar. A intensificação dos problemas de intolerância fez com o que o governo da Tanzânia passasse a abrir centros de acolhimento a albinos por todo país.
Muitos albinos são expulsos de suas próprias casas porque as suas famílias têm vergonha de cria-los.
De acordo com a Associação de Albinismo da Tanzânia, foram registados este ano oito mil albinos no país, entre homens, mulheres e crianças. Para a representação, acredita-se que essa população é muito maior já que a maioria dos albinos se esconde ou não se declara albina com medo da repressão.
“Muitos albinos fogem das suas vilas com medo de serem esquartejadas e terem os seus órgãos vendidas por traficantes”, explica a jornalista Ana Palacios ao jornal britânico “Metro”.

De acordo com a jornalista, alguns acreditam que “os órgãos de albinos podem ser usados em poções mágicas”.
Enquanto para alguns a doença é vista como uma maldição; para outros, os albinos são milagrosos. “Eles são estuprados porque alguns acreditam que eles carregam a cura da Sida. Eles são alienados da sociedade por serem considerados mágicos”, enfatiza Ana.
Algumas famílias africanas acreditam que as crianças brancas são um “estigma” e, dessa forma, eles passam a ser “maltratados” e “menos alimentados”. Muitos, inclusive, não recebem o tratamento necessário e acabam como vítimas do cancro de pele.

Dramas que têm de acabar

O
pescador Mtobi Namigambo vive na ilha de Ukerewe, na Tanzânia. Situada a três horas de distância de Mwanza, segunda maior cidade do país, a ilha remota já foi tida como um santuário para albinos. Mas a situação mudou.

Um dos filhos de Namigambo, May Mosi, com quatro anos de idade, é albino. Quando tinha três meses, escapou de uma tentativa de sequestro. “Tinha ido pescar no lago. A minha mulher e as crianças estavam sozinhas na casa quando foram atacadas”, conta o pai, acrescentando que “ela pulou pela janela e correu com May em busca de um local seguro, deixando as outras duas crianças para trás. Elas não sofreram nada.”
“Os agressores estavam à procura de May”, diz a esposa do pescador: “O meu marido estava fora, pescando, e eles sabiam disso. Por isso vieram. Após eu pular pela janela, eles ainda vieram atrás de mim e gritei por socorro. Só desistiram quando acordei os vizinhos.”
O albinismo é um distúrbio congénito caracterizado pela ausência de pigmento na pele, cabelos e olhos devido a uma deficiência na produção de melanina pelo organismo. Em alguns casos também provoca problemas de visão. O distúrbio é raro, afectando uma em cada 17 mil pessoas aproximadamente.
No Brasil, por exemplo, haveria (embora não haja dados oficiais) entre 10 mil e 12 mil pessoas com albinismo. Entre elas está o compositor e multi-instrumentista Hermeto Paschoal, reverenciado por músicos de jazz em todo o mundo.
Pouco presente no mundo ocidental, o albinismo, no entanto, é comum na África Subsaariana. Na Tanzânia e em outros países africanos, especialmente no leste do continente, há muitos. E eles sofrem perseguições.
Em algumas regiões, são tidos como demoníacos e perigosos. Na Tanzânia, alguns acreditam que poções feitas utilizando partes dos corpos dos albinos trariam sorte e riqueza.
Como resultado, perto de uma centena de albinos foram mortos no país nos últimos anos. Segundo grupos que fazem campanha em sua defesa, apenas dez pessoas foram presas em consequência desses assassinatos.
Nos últimos anos, houve várias iniciativas para tentar conscientizar a população e romper preconceitos e superstições em torno do albinismo. Em 2012, na África do Sul, uma modelo albina foi destaque no continente quando desfilou pelas passarelas da Africa Fashion Week.
Na Tanzânia, o governo também lançou campanhas de conscientização. Mas o problema persiste, especialmente em regiões remotas como a ilha Ukerewe, onde vivem o menino May e sua família.
“Nós apelamos ao governo por mais iniciativas para educar a comunidade aqui (na ilha)”, diz Namigambo, pai de May. “No passado, as autoridades faziam seminários sobre albinismo. Faziam muita diferença, mas agora não mais.”
A ONG Under the Same Sun (em tradução livre, Sob o Mesmo Sol), que actua junto da população albina da ilha, diz que o lugar não é tão seguro como alguns imaginam. Alfred Kapole, presidente da sucursal regional da Tanzania Albinism Society, nativo da ilha, foi obrigado a fugir para Mwanza.
“Ele foi um dos primeiros albinos a levar o seu caso aos tribunais após um líder local ter tentado matá-lo para ficar com seu cabelo”, diz Vicky Ntetema, diretora da ONG Under the Same Sun. Ele lamenta que esse tipo de experiência seja comum entre albinos no país.
No centro da cidadezinha de Sengerema, a 60 km de Mwanza, uma estátua mostra um casal que não tem albinismo segurando um bebé albino. A mãe da criança coloca na cabeça do filho um chapéu de abas largas para protegê-lo do sol. O monumento também traz 139 nomes de pessoas albinas que foram mortas, atacadas ou cujos corpos foram roubados dos cimitérios.
Um representante da sociedade de albinos de Sengerema, Mashaka Benedict, diz que mesmo pessoas com certo nível educacional acreditam que partes dos corpos dos albinos podem trazer riqueza.
“Se isso é verdade, por que não somos ricos?”, pergunta. E acrescenta: pessoas importantes estão por trás do “comércio da morte”. É por isso que pouquíssimas foram presas, acusadas ou condenadas, ele diz. “Como poderia um pobre oferecer fortunas por um pedaço de um cadáver? Os envolvidos são empresários e políticos.”
A polícia, por sua vez, diz que faz o que pode. “São casos complicados porque a maioria dos incidentes ocorre em regiões remotas, onde não há electricidade, por exemplo”, diz o chefe de polícia de Mwanza, Valentino Mlowola. “Isso dificulta a identificação dos infractores durante a noite. Investigamos cada caso e cada alegação, mas não é simples,” explica.
Apesar das dificuldades, activistas persistem na luta para combater o preconceito e a ignorância. Num evento organizado para promover os direitos dos albinos, uma artista com albinismo cantou: “Estamos sendo mortos como animais. Por favor, rezem por nós”

TELINHA QUENTE 233

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Roberto Rillo Bíscaro


Impensável desperceber que Krøniken (2004-7) pretendeu pegar o fio da história da Dinamarca contemporânea de onde Matador largara. A última termina em 1947 e os 22 episódios de Krøniken vão de 1949 a 1974. Isto posto, também é inegável a superioridade de Matador, embora Krøniken não seja ruim. Mas, o roteiro é menos sutil que o clássico em nível mundial da TV dinamarquesa.
Em 1949, a provinciana Ida Nørregaard chega a Copenhague para estudar. Ela faria o tradicional curso de Economia Doméstica para agradar o pai, mas no fundo queria a escola noturna de nível secundário, então pensava em cursar ambos. Diante da regra de poder apenas escolher um, Ida segue sua vontade e passa a frequentar a escola de noite, sem apoio do conservador papi. Arruma emprego como secretária numa grande fábrica de rádios e moradia com a comunista Karen, vizinha do socialdemocrata Børge e seu filho Palle. Nos próximos 25 anos, assistiremos às interações desses núcleos – incluindo a família do proprietário da empresa, ou você achava que Ida fica só como secretária lá? – temperadas com suas conflitantes posições políticas, ao passo que de modo mais geral, temos um panorama da instalação da TV no pequeno país europeu e da experiência do estado do bem estar social, uma vez que uma das personagens é o primeiro-ministro Jens Otto Krag (o onipresente Lars Mikklesen).
Um dos dados que inibem Krøniken de atingir as alturas de Matador é que não disfarça muito bem seu caráter de loa ao partido socialdemocrata. Outro é que o caráter de folhetim permeia mais do que em sua antecessora. Ao final de Krøniken, a personagem “malvada” é punida com a solidão empedrada dum AVC num ato bem de “pagar pelo mal cometido à mocinha da trama”. Ainda que se goste de traços de soap, também há que se reconhecer a falta de sutileza.
O apontado não deveria, todavia, impedir que você buscasse ver essa série. A produção é puro capricho e temos esboço de como essa Dinamarca idealizada como fosso de liberalidade veio se formando mentalmente. As mulheres reclamam do machismo o tempo todo, aprendemos como a coroação da inglesa Elizabeth alavancou a instalação da televisão na Escandinávia. Certo que os conflitos pessoais são prevalentes, mas a crescente americanização duma cultura não passa batida.
Tomara que a TV dinamarquesa não demore pra fazer outro passeio por décadas, começando dos 70’s e vindo até hoje. Considerando-se o tempo diegético de Matador e Krøniken, já dá pra fazer.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

CAIXA DE MÚSICA 239

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Roberto Rillo Bíscaro

Embora quando se fale em rock progressivo as cenas britânica e italiana sejam as mais lembradas, não dá pra descartar a norte-americana, que mesmo não tendo produzido banda-influência modeladora tipo Yes e Genesis, teve produção underground farta, ainda que em sua maioria clones, como Starcastle ou Cathedral. A vastidão territorial, diversidade cultural e dinheiro correndo na parte norte da América garantiram que até hoje descubramos “novos” grupos, que produziram único álbum com 500 cópias, ora disponível no Youtube ou nalgum blog especializado em pérolas prog perdidas.
Mas, a terra do Tio Sam teve sua fatia de estrelato prog também. O Kansas é o exemplo mais bem-acabado de rock progressivo acessível e altamente vendável daquelas plagas. Na segunda metade dos 1970’s, venderam muito e sucessos como Dust In The Wind tocam até hoje em rádios especializadas em Adult (ou Album, como originariamente) Oriented Rock (AOR), aquela música inventada nos 70’s para execução nas ascendentes FMs e que se caracteriza por produção limpíssima, fusão de estilos como hard rock e prog, enfim, a domesticação da libido roqueira para cidadãos “responsáveis” de meia-idade ou jovens bem-comportados. O diferencial do Kansas no mar de prog sinfônico de então, foi calibrar a sisudez britânica de ELP e Yes com sonoridade roqueira do Meio Oeste, onde se localiza o estado que lhe dá o nome. Álbuns como Leftoverture (1976) e Point Of Know Return (1977) devem constar da discoteca de qualquer fã sinfônico e servem de bússola para entender melhor o que seria o rock de arena oitentista. E olha uma banda prog ianque virando influência modeladora!

A decadência do rock progressivo, saídas e (re)entradas, egos e hiatos retiraram o grupo do imaginário midiático, embora ainda façam turnês, ora em conjunto com bandas como Styx e Foreigner, ora sozinhos, como agora, quando percorrem tudo quanto é cidade pequena, feira agrícola e centros de arte em seu pais comemorando os 40 anos de Leftovertures e promovendo o recém-lançado The Prelude Implicit. Com tantas mudanças na formação, compensa estabelecer quem são os atuais membros: Ronnie Platt (vocal e teclados), Phil Ehart (bateria e percussão), Billy Greer (baixo e voz), Dave Manion (teclados), David Ragsdale (violino e guitarra), Zak Rizvi e Richard Williams nas guitarras.
Guitarra dupla dando variedade na textura, outros dois capazes de pilotar teclados, violino. Muito promissor para fãs de prog sinfônico. Há que dizer logo, porém: o Kansas de The Prelude Implicit é AOR e nem na faixa mais longa torna-se sinfônico de verdade. Ser AOR não é defeito, desde que bem executado e os coroas saíram-se com bela dezena de canções no estilo. A versão Deluxe tem 2 a mais, mas são covers, que nada acrescentam, se bem que poderiam ter trocado a instrumental Section 60 pela cover Oh Shenadoah.
The Prelude Implicit remete aos bons e velhos anos 70/80, evitando os excessos deste último, como a irritante bateria eletrônica. Isso não quer dizer produção antiquada, apenas que o Kansas não traz nada apelativo para as novas gerações; daí talvez o álbum ter passado como poeira ao vento para a grande mídia. Ronnie Platt estreia bem no vocal, lembrando sem imitar, uma galeria de cantores de hard e rock de arena. O destaque tem que ir para o violinista David Ragsdale, que faz miséria em quase todas as faixas.
With This Heart abre com bateria tribal urbana e ostenta trechos totalmente assobiáveis e que grudam, pelo menos até que viciemos em ouvir outro álbum. The Prelude Implicit tem mais de um momento assim; bem agradáveis e que dão vontade de acompanhar. Em Visibility Zero, a guitarra começa comendo solta, mas logo vira power ballad com solaço de violino. The Unsung Heroes é acústica balada Bon Joviana, com pegada gospel transubstanciada em anos 50. Rhythm In The Spirit tem riff guitarreiro de espírito rock e órgão anos 70, mas as pausas para fôlego – que introduzem delicioso refrão grudento – atestam que é rock bom moço. Refugee é sensível oração acústica que ao mesmo tempo lembra o clássico da banda, Dust In The Wind, e Skid Row ou símile no fim dos 80’s.
The Voyage Of Eight Eitghteen deve ter sido planejada para agradar a remanescente ala de fãs fanáticos por prog sinfônico. É a mais longa, com 8 minutos e pico, tem mudança de andamento e oportunidade para todo mundo solar, enfim, canção prog sinfônica-estereótipo até na estrutura. Nenhum momento é marcante, porém; todo o estoque de melodias lembráveis foi usado em outras faixas, mais AOR. Na verdade, essa é um AOR mais longo. Não é ruim, mas não qualifica o Kansas como bom prog. Camouflage tem tom de rock arrastado, a passo que Summer é rapidinha de estalar dedos, pura diversão início dos anos 80. Crowded Isolation abre com cordas acústicas, vira galope tribal de baixo até estabilizar-se como power midtempo.
Fazia 16 anos que o Kansas não lançava material inédito. Não fizeram feio, mas pena que tão pouca gente ouvirá. Há uns 30 anos, entraria nas paradas com algum single ou mesmo o álbum.

domingo, 9 de outubro de 2016

OUTUBRO ROSA

No mês da campanha internacional para sensibilização da população para o problema do câncer de mama, a #CaféTV conta a história de superação da Cris Longo​, que lutou e venceu o câncer.

sábado, 8 de outubro de 2016

ALBINO GOURMET 213

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

CONTANDO A VIDA 166

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SÔNIA BRAGA E MINHA (DES)BRAGA(DA) (IN)SÔNIA – sobre o filme Aquarius.

          José Carlos Sebe Bom Meihy

Nunca gostei de ler os livros que todos estão lendo. Também evito prestar atenção demasiada em detalhes da moda, seja em termos de gosto musical, comidas ou roupas. Talvez, essa minha idiossincrasia se explique pela vulnerabilidade que facilmente me acomete. Sou influenciável e para me proteger busco isolamentos, silêncios e demais artifícios defensivos. É verdade que sempre germina em meu inconsciente a vontade de matar a curiosidade imediata e entrar na onda, mas me contenho e até posso garantir que, com o tempo, desenvolvi técnicas especiais. Esse jeito, aliás, já ganhou estratégias de resistência, e por vezes me vejo obrigado a pagar caro por ficar “de fora” das últimas novidades. Não satisfaço sanhas de imediato, mas arquivo compromissos na memória, esperando o tempo passar. Até acredito que aprendi a ver virtudes nesse comportamento. Outra artimanha que acalento é perceber com certa antecedência os eventos que se incendiarão no gosto público, e quando isso se anuncia, trato de me adiantar, prevenindo-me das tais avalanches de informações e olhares definidores do gosto alheio. Também devo revelar que às vezes isso é difícil, pois alguns acontecimentos ganham velocidade incontrolável e se formulam desafiadores, com sugestivas sutilezas. Foi o que aconteceu com o filme “Aquarius”.

Gosto imenso de cinema. Ver filmes me acalma, facilita a interrupção de rotinas extenuantes e me ajuda fertilizar novas ideias. A primeira notícia que vi do filme do pernambucano Kleber Mendonça Filho foi no noticiário sobre o último Festival de Cinema de Cannes, na França. Na ocasião, o elenco mostrava para o mundo o posicionamento contra o golpe branco que acabou por afastar a presidenta Dilma. Dois faróis se acenderam então: um voltado ao filme propriamente dito, e, outro ao comprometimento político da equipe artística. Ambos interessavam. E muito. Foi assim que propus uma indagação impertinente: um aspecto tem a ver com o outro?

Escolhi a primeira sessão de um cinema pouco frequentado e fui como um menino que foge da escola para ver o filme novo. Deu certo, a sala estava praticamente vazia e, munido de pipoca e guaraná, me entreguei para a história. As primeiras cenas enterneceram e alertaram, ao mesmo tempo: uma festa familiar remota e cenas de íntimo afeto erótico. O surgimento de Sônia Braga, passadas décadas da reunião inicial, indicava o caminho de uma vida que foi difícil. Não só pela beleza madura da musa dos anos de 1970, 80, 90 e de todos os seguintes a 2000, mas também pela interpretação perfeita. Diferente de grande parte das demais atrizes brasileiras, Sônia Braga não precisa ser estridente e agitada em cena. Simplesmente ela é, e isso basta. Aliás, com o nome Clara – intencional e metafórico – o desenrolar do enredo mostrava alguém que, pelo contrário da agitação moderna, se assume na sobriedade de uma solidão domada e reflexiva.

No caso, temos a história de uma moradora de antigo edifício, na Praia de Boa Viagem, chamado Aquarius, resistindo à especulação imobiliária. A história é singular em si, com trama bem amarrada e narrativa dividida em três blocos instruídos por flashbacks. Mas não é isso que qualifica o filme como excepcional. A música, por exemplo, é tratada como personagem da narrativa, faz parte integrante e essencial do enredo. Com o simpático apartamento, de frente para o mar, tendo as paredes recobertas por livros e discos, ouve-se de Taiguara a Queen. Assim, a música funciona como espécie de trilha sonora explicativa do sentido do tempo narrativo que não envelhece o gosto pela vida. E a história se completa emendando detalhes: o aniversário da empregada, as relações parentais, idas à praia e visitar lugares com amigas.

Se tivesse que determinar um aspecto matriz do filme, diria sem pestanejar que o fato de Clara ter passado por uma cirurgia de câncer de mama é o grande nó da trama. Tendo extraído um dos signos mais importantes da representação da feminilidade, o seio, a ela não cabia perder mais nada. E a casa é a mostra mais evidente do apego à vida e sua história. O filme é fora do comum em todos os sentidos, inclusive em cenas que machucam a moral de falsos defensores dos chamados bons costumes. Isso valeu para que conservadores críticos apoiassem o fato de elevar a censura para 18 anos. Mas, não bastasse, Marcus Petrucelli, por rádio, tv e imprensa escrita, detrata a obra, propondo, boicote ao filme, alegando que seria uma manifestação da “esquerda cinematográfica”. Em diálogo com moralistas, ultraconservadores, o crítico do site e-pipoca tratou de dar continuidade às suas sanhas que, felizmente, são contrastadas com a afluência pública que lota os cinemas. Afora tais situações, devo expressar meu apreço pelo cinema autoral brasileiro, que no caso, só pela atuação de Sônia Braga, valeria ter sido escolhido como o filme nacional que representaria o Brasil na corrida pelo Oscar. Pensando nessas coisas, medindo o limite crítico nacional, requentado nesses tempos de política sombria, vale saudar Sônia Braga como diva capaz de iluminar noites escurecidas pela “nossa” política.