sexta-feira, 30 de abril de 2021

PAPIRO VIRTUAL 173

 

"Sagarana" traz cenários e personagens típicos do interior do país, mais especificamente do sertão de Minas Gerais. A linguagem inventiva do livro é outro aspecto que distinguiria para sempre o autor no campo da literatura brasileira. Ao mesmo tempo em que incorpora fragmentos essenciais da oralidade sertaneja, pescando regionalismos e recuperando antigas expressões de linguagem do sertão, Guimarães Rosa inova com a criação de neologismos cuidadosamente lapidados.

quinta-feira, 29 de abril de 2021

TELONA QUENTE 355

 

Negligenciado pelo pai e abandonado pela mãe, um garoto fascinado pela morte dá os primeiros passos para se tornar um futuro serial killer.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

CONTANDO A VIDA 339

 ACIMA DO BEM E DO MAL, O SACI DE MONTEIRO LOBATO.


José Carlos Sebe Bom Meihy

Para Pedro Rubim


Muito tem se falado a respeito da figura do saci na obra de Monteiro Lobato. No aborrecido debate sobre o racismo, os extremos repontam garantido que o saci seria a primeira manifestação do “preconceito de marca” lobateano, mostrado como um marginal periférico; na outra ponta, alguns entusiastas com igual extremismo o revelam como propositor do “primeiro herói negro da nossa literatura”. Exageros e polarizações à parte, resta notar a gênese da criação de um personagem capaz de motivar reflexões sobre a memória popular repontada na cultura moderna.

Foi com empenho investigativo que entre os dias 27 de janeiro e 6 de março de 1917, nas páginas do jornal O Estado de São Paulo, Lobato fez estampar resultados de enquetes que, afinal, viraram seu primeiro livro “Saci-pererê: resultado de um inquérito”, publicado em 1918. Caracterizado o personagem, restava dar-lhe uma imagem. Foi neste sentido que o então estreante escritor propôs um concurso capaz de oficializar e sugerir uma forma tangível ao saci. Sobretudo, ao diabrete faltava uma figura, ou pelo menos o protótipo de imagem que deveria conter elementos básicos derivados das descrições colhidas.

Aspecto pouco notado na formulação folclórica, a junção descritiva aliada a imagem demandava resultados práticos e de efeitos estéticos captáveis, simples e eficientes. E sem uma figura básica, como marcar o saci na memória cultural brasileira? Convém não deixar para planos secundários que essa aventura remetia a um tempo em que a imagem passava a integrar os relatos jornalísticos. Os impressos então ganhavam função também por juntar texto e representações gráficas. Além disso, no momento da elaboração do “Inquérito”, o nascente escritor fazia vezes de crítico de arte, lance que exigia argumentos como satisfação aos leitores, em particular frente a um dos desafios maiores do tempo: a presença das artes plásticas junto à opinião pública. Uma dessas situações, por exemplo, diz respeito a um detalhe pouco explorado no conflito entre nossos modernistas e Monteiro Lobato. O virulento artigo “Paranoia ou mistificação”, escrito para comentar a Arte Moderna, transparecida na exposição de Anita Malfatti aberta em São Paulo em dezembro de 1917, tem servido como certidão do rompimento das partes. O que pouco se diz é que antes daquela rumorosa publicação, houve contatos bastante eloquentes entre Lobato e alguns personagens do Modernismo, como Oswald de Andrade e a própria Anita Malfatti. Um desses elos, aliás, se deu exatamente em função do saci, ou melhor do sentido do debate nacionalista que buscava fecundar a cultura com bases folclóricas.

No agitado contexto do “Inquérito sobre o saci”, Lobato propôs um concurso de pintura e escultura, cujo tema era a promoção da imagem do saci. Ainda que o certame fosse dirigido exclusivamente a artistas nacionais, o vencedor foi um imigrante radicado em São Paulo, o italiano Cipicchia, que apresentou uma figuração denominada “O Saci e a Cavalhada”. Anita Malfatti foi das poucas concorrentes a enviar um trabalho que, por difíceis explicações, desapareceu sem deixar vestígios físicos. Dela apenas se sabe exatamente pelo parecer de Lobato, em artigo publicado na Revista do Brasil, onde revelava que, no setor de pintura, o trabalho da concorrente fora desclassificado, mas segundo Cassiano Elek Machado mereceu extenso comentário, antecipando a insistência na questão dos “modismos”:

“A sra. Malfatti também deu sua contribuição emismo. Um viandante e o seu cavalo, em pacato jornadear por uma estrada vermelha degringolam-se numa crise de terror ao deparar-se-lhes pendente duma vara de bambu uma coisa do outro mundo. Degringola-se o cavaleiro, degringola-se o cavalo tentando arrancar-se do pescoço, o qual estira-se longo como feito da melhor borracha do Pará. Gênero degringolismo. Comotodos os quadros do gênero ismo, cubismo, futurismo, impressionismo, marinetismo, está hors-concours”.

Num esforço de conciliação, sem se desmentir, mas abrindo caminho para algum diálogo, finalmente, Lobato pontificava:

“Não cabe à crítica falar dele porque o não entende: a crítica neste pormenor corre parelha com o público que também não entende. É de crer que os artistas autores entendam-nos tanto como a crítica e o público. Em meio deste não entendimento geral é de bom aviso tirar o chapéu e passar adiante”...

Ainda que o “Inquérito”, somado aos escritos para crianças, se porte como marco inaugurador da invenção do saci brasileiro, não há como escapar dos efeitos daquele certamente artístico que tanto remetia ao gosto de uma crescente classe média como de uma sociedade urbanizada em busca de padrões culturais próprios. Pela dimensão plástica, a iniciativa de Lobato dava forma a caracterizações que até então eram, majoritariamente, escritas ou oralizadas. Isso não bastava mais. A revelação da materialidade pela pintura, escultura, cinema e fotografia, revela também a obstinação de Lobato para a atualização do estatuto cultural brasileiro moderno integrando vários códigos. O apelo para o chamado folclore – ou como preferia Lobato “mitologia brasílica” – implicava escolhas de personagens assimiláveis pelo gosto geral e, nesse sentido, entende-se que a marca do estereótipo nacional entraria como argumento debelador das tradições importadas.

Mais do que discutir racismo em Lobato, antes de tudo há de se buscar fundamentos de sua obra e trajetória de seus personagens, condição capaz de tirar do limbo simplificações que não param incomodar. Tanto há a se explorar no campo da investigação sobre a obra do mais importante escritor latino-americano na área da literatura infantil que chega a ser exaustivo colocá-lo entre o bem e o mal. Lobato está acima disso. E o saci também.

terça-feira, 27 de abril de 2021

TELINHA QUENTE 443

 

La Jauría conta a história de Blanca Ibarra (Antonia Giesen), uma estudante chilena de 17 anos e líder de um movimento feminista que desaparece durante um protesto organizado por alunas de sua escola católica. Ninguém sabe o paradeiro da jovem, até que, horas depois, uma gravação viraliza nas redes sociais, com imagens de Blanca sendo violentada por cinco homens.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

CAIXA DE MÚSICA 450

 

Hortelã é o primeiro álbum de Ivan Vilela feito em parceria com a cantora Pricila Stephan. São canções de autoria de Ivan Vilela e de outros compositores do sul de Minas Gerais. O LP foi gravado em 1985 e retrata, com lirismo, parte da musicalidade existente no Sul de Minas.

quinta-feira, 22 de abril de 2021

TELONA QUENTE 354

 

Um dos diretores europeus mais interessantes dos últimos anos, favorito ao Oscar de Melhor Estrangeiro, traz ao debate o abuso do consumo de álcool entre jovens e adultos.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

CONTANDO A VIDA 338

 VAGABUNDAS UTOPIAS.


José Carlos Sebe Bom Meihy


As palavras têm histórias, algumas lindas, outras nem tanto, há tristes e engraçadas, espalhafatosas, acanhadas, mas sempre faiscantes em suas andanças. Palavras são como novelas com enredos de amor e ódio, percalços, intrigas, conexões suspeitas, e falsas aparências. Quando acessadas, elas se exibem com vontade de palco e não escondem protagonismos inquietantes. Como seres vivos, nascem, crescem, ganham contornos, e há as que fenecem deixando melancólica saudade: sassaricando, fuzarca, chapuletada. Não nos esqueçamos daquelas espertas que se transformam provocando mudanças de sentido, sugerindo lugares adversos - sob este crivo, aliás o termo destino é exemplo eloquente, pois nasceu como trajeto de um ponto a objetivo certeiro, algo do tipo tiro ao alvo, mas, traidora, na prática deixou-se transformar, fazendo do próprio destino uma possibilidade ou alternativa arriscada. Tudo, porém, acontece num sopro variado entre o surgimento até prisões nos dicionários que lhes são “sentenças paralisantes”, como garantia Garcia Márquez.


Imagino o cultivo das palavras plantadas nas lavouras de etnólogos, semânticos, morfólogos e demais especialistas nos mistérios das línguas. Profissionais dedicados esses, devem habitar uma confraria reclusa a exegetas que, muito exigentes, tratam tudo com solenidade e precisão cirúrgicas. Afora essa corporação, porém, à nós singelos amadores da língua popular, sobra a leviandade de supor trajetórias contempladas na superfície de dizeres meio soltos, arranhados em pistas vagas, mas excitantes. Ah, a doce imprudência das escolhas palpiteiras; ah, o perfume das suposições!... Certamente isso há de soar heresia aos ortodoxos, mas a nós pecadores do verbo comum é algo divino. E tudo pode virar uma deliciosa aventura. Imaginar as histórias das palavras nos faz um pouco deuses, daqueles que libertam o livre arbítrio e nos deixam sondar o passado de cada vocábulo em perambulações tontas.


E para nós exegetas libertinos há profundezas no raso trato das palavras soltas no cotidiano. Dentre coleções, confesso, uma me chama mais a atenção do que outras mil. Por certo, meu psiquiatra particular terá explicações freudianas para tanto, mas o verbo vagabundear me atrai de maneira irresistível, e, sinceramente, acho que estou bem acompanhado nesta estranha idolatria. Sabe, formulei até trilha sonora a começar por “Abrigo de vagabundo” (Adoniran Barbosa), “Coração vagabundo” (Caetano), “Vá trabalhar vagabundo” (Chico Buarque), e pensam que para por aí, não mesmo, lembremos do “Astro vagabundo” (Moraes Moreira), “O vagabundo” (Leo Magalhães), e nessa ladainha, nem me deixou carente Renato Teixeira se declarando “errante, vagabundo/ assim eu vou vivendo/ na direção que o vento me levar/ desiludi mambembe/ de andarilho e bagual/ sou marinheiro nesse pantanal/ errante vagabundo”. E vagabundeando pelos significados me reencontro com destino, aquele mesmo que se perdeu na trajetória da meta exata. O suspiro desse entendimento, por sua vez, me faz buscar o berço latino do verbo “destinare”. É exatamente na odisseia dada pelo desvio de rota que vagabundear achou-se no direito de virar verbo utópico.

Sinceramente, acho pobre filtrar olhares sobre a vagabundagem pelo sentido utilitário do mundo do trabalho industrial. Ser vagabundo é muito mais do que simplesmente não produzir ou perder tempo. Os franceses são mais sensatos nesse sentido, pois na língua de Flaubert vagabundo é mais um estilo de vida do que propriamente não enquadramento em padrões “normais”. Nem é exatamente preguiça ou recusa de execução de tarefas. Confesso pendor leviano para o exame do tema vagabundo sem respeito à sua nobreza original, e até maldigo a sedutora série de livros que concatenam o assunto na ordem burguesa. Esconjuro, por exemplo, a tese para muitos irresistível de Paul Lafargue, genro de Marx, expressa no livro “O direito à preguiça”, e junto disparo contra outros ensaios que pontificam a confusão entre vagabundagem e ócio. E assim engato crítica ao texto “O elogio ao ócio” de Bertrand Russel e também ao sucesso de “Ócio criativo” de Domenico Masi, todos lidando com a vagabundagem de forma pejorativa. Nessa contramão, aliás, imagino nobreza no verbo vadiar que tem avô latino “vagativum” (lindo, né?!), pura tradução daquele que consciente peregrina sem destino. É aí que o termo vagabundo se encontra com seu sentido cumprindo em um outro destino: ficar sem nada fazer sem culpa, sem compromisso, sem lenço e sem documento, liberto dos deveres prescritos nos contratos de trabalho, sem dever à moral trabalhista ou à economia produtivista. Utopia?

“Destino”, “vagabundear”, “mudança de sentido das palavras”, “consciência da vida”, tudo numa dança de palavras que ritmam a dinâmica da vida moderna... Pois é, ao perder a bússola da orientação, vagabundagem afogou seu lugar romântico, virou quimera, e isso explica esta busca vagabunda do entendimento da sociedade moderna que não tem mais tempo para vagabundear como nos velhos tempos.

terça-feira, 20 de abril de 2021

TELINHA QUENTE 442





Com o poder de falar com os mortos, Raphael Balthazar trabalha como médico forense junto à polícia de Paris e consegue desvendar os crimes mais complexos da cidade.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

CAIXA DE MÚSICA 449

 


Roberto Rillo Bíscaro

O veterano Celso Viáfora retorna com um álbum digno de mestre.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

PAPIRO VIRTUAL 172

 



Amin, cirurgião israelense de origem palestina, sempre se recusou a tomar partido nos conflitos que opõem seu povo de origem a seu povo de adoção e dedicou-se integralmente a seu trabalho e à esposa, que ama apaixonadamente.


quinta-feira, 15 de abril de 2021

TELONA QUENTE 353

 

Roberto Rillo Bíscaro

A animação irlandesa Wolfwalkers, indicada ao Oscar 2021, além de visualmente esplendorosa é uma profunda alegoria da dominação inglesa.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

CONTANDO A VIDA 337

 “NELSOM RODRIGUES, OSWALDO MONTENEGRO E DRUMMOND”

ou

Quando eu fiz 60 anos



José Carlos Sebe Bom Meihy

Na contramão das bobagens que se dizem sobre a “eterna juventude”, faço ecoar Nelson Rodrigues sugerindo virtudes no amadurecimento. Não se trata de algo panfletário, diga-se de vez. Não mesmo. Esconde-se por trás do conselho “envelheça logo”, mais do que a usual picardia rodrigueana. Muito mais. O avanço da idade como sabedoria é lição solene, contradição absoluta de balelas do tipo “melhor idade”, “vinho velho é mais gostoso”... Mas como saber qual o momento da virada? Como, se manuais não existem? E debelo a simplificação da vida contabilizada em duas parcelas opostas que elencam a soma de acertos X erros. Sempre meditei a esse respeito e foi assim que me vali de uma trilha dada por Oswaldo Montenegro na canção “Metade”, e em minha melhor metade interior identifiquei a explosão existencial contida no verso “porque metade de mim é partida/ mas a outra metade é saudade”. Explico-me...

Aprendi atribuir à passagem dos 59 para os 60 anos o marco divisor de minha existência. Sim, como se sinalizasse uma fração quimérica e não medida em cronos, fazer 60 anos me equivaleu à mais séria decisão sobre meu devir. A carreira do pretérito, perfeito ou imperfeito, exigiu ponderações existenciais, que, afinal, ajudaram supor uma parada, algo como um respiro bilacquiano no tal “mezzo del camim”. Metade idílica sim, porque pode-se imaginar bons anos de uma velhice anunciada depois de um passado fora do script esperado. E bem-aventurados os que podem optar entre ser um ancião desses “legaizinhos”, velhinhos bons, com riso no olhar experiente e plenos de casos para contar. Quem não ousa acatar a quebra do tempo, em oposição, haverá de ser daqueles vovôs curtidos em ranzinzices, velhos chatos, pesados, reclamões. E sabem o que é pior nesse jogo da vida? Alguns nem notam e vivem continuidades sonâmbulas.

No meu caso, a fração se deu em dado momento, na exata passagem dos 59 para a os 60 anos, precisamente na véspera do meu aniversário. Por lógico, esta ponderação não veio gratuita e isto aliás carrega uma historinha com ares de pretenciosa. Conto: naquela virada da noite em que completaria minha quinta década, resolvi fazer uma pesquisa sobre pessoas nascidas no 15 de março e foi assim que (re)encontrei Oswaldo Montenegro - claro muito mais jovem, vindo ao mundo em 1965. Vasculhando um pouco a vida dele soube que em 1999 havia escrito uma outra canção que mesmo extraída de um contexto mais amplo, mexeu definitivamente com minha sensibilidade. “Lista” é nome da peça e isso foi disparo para uma decisão que tomei exatamente naquela investida: fazer uma declaração de amor à minha própria história e assumir meu juízo sobre quem e com quais coisas queria pavimentar o resto de meus dias.

Com a “Lista” em mente, como que prestando conta a mim mesmo, olhei meu plantel de parentes e amigos e quase que rezando fiz “uma lista de grandes amigos”, pessoas que “mais via há dez anos atrás”, e seguindo o andamento do bardo me perguntei “quantos você ainda vê todo dia/ Quantos você já não encontra mais?”. Fiz uma brincadeira íntima e me dei autoridade para semanas depois dar dimensão ao tal envelhecimento rodrigueano. Inventei um motivo, lançamento de livro, e para a solenidade fiz o que devia: separei de conhecidos casais, só as unidades queridas; deixei de fora os indesejados oficiais, pessoas com as quais convivia sem tanto (ou nenhum) querer; pessoalmente, dispensei três “autoridades superiores” e lhes disse, olho no olho, o que sentia a respeito de cada situação opressora vivida; respondi a duas cartas que amargavam silêncio e soltei o verbo libertar na base do “não quero nunca mais”. Houve algo complementar e de vocação sublime, pois, sobretudo escolhi tentar ser melhor, com conta acertada sobre o trajeto já cumprido. Devo dizer que não cheguei à perfeição alguma. Não, não, não, mas desde então estou progressivamente mais tranquilo e cultivo a generosidade como virtude mais exigente de meu lugar no mundo. No mais, vivendo as graças de ter respeitado os mandamentos dos 60 anos, retomo Drummond ao dizer que “há duas épocas na vida, a infância e a velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons”, estou saboreando minha guloseima anciã como gosto de decisão e coragem.

terça-feira, 13 de abril de 2021

TELINHA QUENTE 441

 

Soledad Montalvo e Mauro Larrea são pessoas cujos destinos inesperadamente se cruzam. A série levará os espectadores em uma jornada épica às comunidades de mineração do México do século XIX, passando pelos salões da alta sociedade de Londres, e pelo brutal comércio de escravos de Cuba. É em Jerez, na região espanhola da Andaluzia, onde os caminhos de Soledad e Mauro se entrelaçam, dando início a uma história que envolve superação de adversidades, como encontrar seu lugar no mundo, construir um império, e perder tudo em um dia.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

PROJETO DE LEI NO DISTRITO FEDERAL


Pessoas albinas devem ter tratamentos assegurados

A Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF), por meio Comissão de Educação, Saúde e Cultura (CESC), votou e aprovou, durante uma reunião remota nesta segunda-feira (5), o PL 1.758/2021. O projeto é de autoria do deputado Eduardo Pedrosa (PTC) e estabelece a garantia para que pessoas albinas tenham acesso ao tratamento dermatológico e oftalmológico na rede pública de saúde.

O cotidiano do albino é marcado pela intolerância à luz solar e ameaçado pelos riscos da cegueira e do câncer de pele, explana Pedrosa, ao salientar que “as pessoas com albinismo vivem em um processo discriminatório constante”.

De acordo com o projeto, as pessoas com hipopigmentação congênita, doença mais conhecida como albinismo, devem ter direito ao atendimento dermatológico, inclusive aos medicamentos essenciais e a tratamentos como crioterapia e terapia fotodinâmica, e ao atendimento oftalmológico especializado, assim como às lentes especiais e aos recursos necessários para o tratamento da baixa visão e da fotofobia. O texto prevê ainda o acesso a protetor solar de diversos fatores, à fototerapia, principalmente para lesões da face e tronco, e a tecnologias como o laser, bem como a técnicas cirúrgicas.

Em seu parecer favorável à matéria na CESC, o deputado Delmasso (Republicanos) argumentou que, por ser considerada uma pessoa com necessidades especiais, o albino precisa de apoio para que seja assegurado o exercício dos seus direitos básicos. Ele também defendeu iniciativas e políticas públicas que busquem sensibilizar a sociedade e as autoridades para o problema.

O projeto agora seguirá para apreciação das comissões de Constituição e Justiça (CCJ) e Economia, Orçamento e Finanças (CEOF), antes de ir a plenário. Participaram da reunião da CESC, transmitida ao vivo pela TV Web CLDF e pelo canal da Casa no Youtube, os deputados Arlete Sampaio (PT), Delmasso (Republicanos), Leandro Grass (Rede) e Jorge Vianna (Podemos).
Carreira Assistência Pública à Saúde.

ALBINISMO NA TV SENADO

O albinismo deixa os olhos vulneráveis à ação do sol e à claridade. Caracteriza-se pela falta de melanina no corpo, o que faz com que a pele seja extremamente branca e os olhos e cabelos sejam claros. Veja aqui histórias e relatos de pessoas albinas, projetos desenvolvidos por médicos da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e o trabalho da Associação das Pessoas com Albinismo da Bahia. E a senadora Mara Gabrilli fala da expectativa pela aprovação de proposta para beneficiar essas pessoas.

CAIXA DE MÚSICA 448

 

Roberto Rillo Bíscaro

Vamos relembrar a trajetória da dupla britânica The Style Council, que misturou soul music, jazz, bossa nova, interesse por moda e letras políticas. Nossa trilha-sonora será o álbum Our Favorite Shop, de 1985.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

TELONA QUENTE 352

 

Anthony tem 81 anos de idade. Ele mora sozinho em seu apartamento em Londres, e recusa todos os cuidadores que sua filha, Anne, tenta impor a ele. Mas isso se torna uma necessidade maior quando ela resolve se mudar para Paris com um homem que conheceu há pouco, e não poderá estar com pai todo dia. Fatos estanhos começam a acontecer: um desconhecido diz que este é o seu apartamento. Anne se contradiz, e nada mais faz sentido na cabeça de Anthony. Estaria ele enlouquecendo, ou seria um plano de sua filha para o tirar de casa?

quarta-feira, 7 de abril de 2021

CONTANDO A VIDA 336

 LEITURAS DE UM VIÚVO SOBRE VIÚVAS.


José Carlos Sebe Bom Meihy


Sim, confesso, é muito esquisito ser viúvo. Muito. Demais. A começar pelo verbo “ser”, que se coloca em condição de permanência, no lugar de outro verbo, o “estar”. Aliás, em termos verbais deve-se ter em mente a agência passiva, oculta por alguma elipse fantasmagórica que, por sua vez, alinha outro verbo, terrível, “ficar”. Sim “ficamos” viúvos sem sequer sermos devidamente consultados. A viuvez é uma condenação injusta, pois acarreta muitas vezes encargos pesados a quem foi vitimado por dores involuntárias, impostas pelo que se chama destino. É evidente que falo da regra, pois exceções existem, mas são casos a parte. E sobre nós falam barbaridades extremas. Somos aproximados de choro, vela, azar, apontados como carentes. Basta um sol com chuva que “tem casamento da viúva”, mas há mais, pois na Índia a coitada tinha que acompanhar o marido morto no barco incendiado. No Brasil antigo, a legislação a tornava vulnerável e impunha a perda dos “filhos do leito anterior” caso se casasse novamente. Houve período em que as heranças eram passadas para os filhos pois as mulheres seriam incapazes de gerenciar bens. E a série de piadas que projetam as mulheres viúvas à condição de megeras vingativas ou senhorinhas necessitadas.

Por certo, domina uma questão de gênero separando a aceitação de caos, pois existem muito mais viúvas do que viúvos. Em minha lista pessoal a cada três mulheres, um homem ficou só, ainda que sejamos elencados na categoria “sexo forte” e elas “sexo frágil”. Foi com esta rala estatística doméstica, que dei partida para entendimento da engenharia cultural construída pela sociedade que, afinal, estabelece um imaginário sobre a mulher viúva. Pela literatura, foi fácil definir um começo: a opereta escrita por Frans Lehár “A Viúva Alegre”. A peça taxada no diminutivo formal depreciado (opereta) já significava algo consequente, pois divergia do gênero ópera com aquela gravidade trágica, solene. No caso, foi em Paris que “A Viúva” estreou em 1904, como um elogio pândego à diversão, e assim logo se tornou uma espécie de matriz de todo gênero musical. O que se tem é uma trama onde a rica viúva precisa ser conquistada a qualquer custo senão o país imaginário em que vivia estaria falido.

Mais tarde, no contexto brasileiro, Nelson Rodrigues estreou em 1957 o “Viúva mas honesta”, sobre o acometimento exagerado de uma jovem que perde o noivo atropelado por um carrinho de sorvete. Classificada como farsa, a trama mostra um inconformado o pai que monta uma relação engraçada onde a viuvez é apontada como algo bizarro, resolvido apenas quando a filha resolve sentar-se, pois durante todo enredo ela ficava ereta.

A par dessas encenações há um pequeno rosário de livros sobre a viuvez que implica a mulher, aqui ou no outro mundo. Há um pouco de tudo, depoimentos, entrevistas, romances trágicos, conselhos. Na literatura brasileira, porém há um caso intrigante. Diria que o primeiro texto a sugerir desdobramento entre nós foi “Encarnação”, livro póstumo de José de Alencar. De 1877, o enredo dá conta de um amor que continua depois da morte da amada. A transcendência atrapalha a continuidade da vida de um viúvo, que não consegue esquecer a primeira esposa. Alencar puxa uma trama em que a viúva assombra o marido e faz a desgraça do segundo casamento. Como se fosse continuidade, outro livro que dialoga com o caso da atormentada “presença ausente” é o intrigante “A sucessora”, de Carolina Nabuco, que conta a trajetória de uma pobre empregada doméstica, Marina, que se casou com o abastado viúvo Roberto Steen, e juntos partem da fazenda no inteiro para a vida na mansão dele, no Rio de Janeiro. Desde a chegada a ex-criada é maldosamente contrastada com a “insubstituível senhora Alice”, cuja memória é constante e desafiadora do amor do homem e da aceitação geral. “A sucessora” foi lançado em 1934, antes mesmo de um outro livro, sucesso mundial, publicado na Inglaterra em 1938 sob o tema, com o título “A Mulher Inesquecível”, assinado por Daphne du Mourier. A semelhança do livro brasileiro é incrível e gera polêmica assaz intrigante, pois garante-se que Carolina fez a tradução e a enviou para uma editora inglesa que teria deixado vazar, sugerindo plágio. Interessa ver que a situação da viuvez ficou em evidência de maneira a comprometer a continuidade da vida normal das pessoas. E os viúvos reféns de saudade projetavam nas substitutas uma espécie de maldição. O sucesso de Rebecca, a personagem inesquecível de Daphny du Mourier fez voos longos chegando ao cinema em obra de Hitchcock e vencendo o Oscar de 1941.

É lógico que os textos sobre os viúvos são também numerosos, mas eles integram os homens em círculos de maior aceitação, são bem mais benevolentes. A literatura sobre a mulher mantém o controle dos destinos femininos e sobretudo a mantém como objeto de riso, fragilidade ou memória fantasma. Penso que a abordagem das viúvas tem vários endereços, mas garanto que para um viúvo recolhido e convicto, é um bom consolo.

terça-feira, 6 de abril de 2021

TELINHA QUENTE 440

 

Nos anos 70, o impiedoso assassino Charles Sobhraj ataca viajantes que exploram a "trilha hippie" do Sudeste Asiático. Baseada em fatos.

segunda-feira, 5 de abril de 2021

DESAPARECIMENTOS ALBINOS

Pelo menos 114 albinos desapareceram em Moçambique desde 2014

Estima-se que existam no país cerca de 20 mil pessoas com albinismo.

Pelo menos 114 pessoas com albinismo desapareceram em Moçambique desde 2014, em circunstâncias não esclarecidas, disse à Lusa fonte da Comissão Nacional dos Direitos Humanos (CNDH).

"Do número, 58 casos foram participados às autoridades competentes e há 55 processos-crimes instaurados", disse Sheila Massuque, do CNDH.

Em Moçambique, as pessoas com albinismo têm sido vítimas de perseguições, violência e discriminação devido a mitos e superstições, sendo colocadas entre as que mais sofrem violações de direitos humanos.

Segundo dados avançados a CNDH, estima-se que existam no país cerca de 20 mil pessoas com albinismo.

O Governo moçambicano considera que a situação no país ainda é preocupante e, por isso, importa desenvolver ações que garantam a sua proteção e os seus direitos.

"Estamos cientes da responsabilidade de continuar a desenvolver ações energéticas para a proteção das pessoas vivendo com o albinismo, aprovando instrumentos legais que estabelecem direitos especiais, tais como direito à educação, à saúde e ao trabalho", disse, na quinta-feira, Manuel Malunga, do Ministério da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos, durante um encontro que juntou o Governo, sociedade civil e empresários para discutir a situação do albinismo em Moçambique.

RELATO DE UM ALBINO ANGOLANO SOBRE DEFICIÊNCIA VISUAL

Prevenir a cegueira em crianças

Por: Celso Malavoloneke

Já perdi a conta das vezes que fui abordado por mães de pessoas com albinismo procurando saber como corrigir as deficiências visuais que nos acometem desde pequeninos. A minha resposta é sempre que levem as crianças ao oftalmologista o mais cedo possível, tão logo comecem a sentar-se e a gatinhar. Elas dizem-me que os médicos não aceitam atender crianças que não ainda falam, pois não se conseguem comunicar com elas para realizar uma consulta eficaz.

A princípio admirou-me. Nós, crianças com deficiências visuais – não só com albinismo – que nascemos nas décadas de 60, 70 ou mesmo 80 do século passado, fizemos as nossas consultas de vista não antes dos 10 anos. No meu caso, fiz todo o meu ensino primário, secundário e médio apenas com óculos escuros sem graduação. Mas isso acontecia porque éramos pobres e nas províncias onde vivíamos não havia condições médicas para oftalmologia pediátrica (consulta de vista para crianças). Nunca me tinha apercebido que, para além disso, há também o problema de os próprios médicos não o poderem fazer a bebés que ainda não falam e que esta questão persiste hoje nas nossas unidades sanitárias, em pleno século XXI. De repente, dei-me conta que temos aí mais um factor de discriminação e exclusão das crianças, sobretudo as que têm albinismo, e com propensão a deficiências na visão como miopia (baixa visão), nistagmo (tremores horizontais da pupila), fotofobia (encandeamento) e outros.


Inconformado, decidi pesquisar sobre o assunto. Porque não acreditava que numa época em que já se experimenta a prótese de pupila para recuperar a cegueira, a ciência médica não tivesse avançado no desenvolvimento de técnicas de prática de oftalmologia em bebés. Até porque, quanto mais cedo a vista for tratada, menos danificada ela fica. E de facto descobri que é possível sim tratar a baixa visão em bebés. A Organização Mundial da Saúde estima que, em todo o mundo, 19 milhões de crianças são deficientes visuais. Se detectado no início, até 80% dos casos são facilmente tratáveis. Nos países em desenvolvimento, 60% das crianças que ficam cegas morrem no espaço de um ano. Mas em muitos lugares, os oftalmologistas pediátricos são escassos. A pensar nisto, uma médica espanhola, em trabalho conjunto com a Huawei, desenvolveu uma tecnologia que torna mais simples o diagnóstico de problemas oculares em crianças pequenas: a TrackAI.


Tradicionalmente, os médicos diagnosticam doenças de visão em crianças pequenas, movendo um dedo ou um objecto em frente dos olhos e observando a reacção. Por seu lado, TrackAI consiste em inteligência artificial que analisa o olhar das crianças enquanto assistem a estímulos visuais em dispositivos. Os resultados precisam ser verificados por um oftalmologista, mas a tecnologia simplifica significativamente o teste em crianças pequenas, especialmente nos bebés que não conseguem falar ou ficar quietos. Esta tecnologia foi criada por meio de uma parceria entre a DIVE – uma startup fundada pela Drª. Victoria Pueyo, oftalmologista pediátrica em Zaragoza, Espanha – e o instituto médico IIS Aragon, em conjunto com a gigante de tecnologia Huawei.

Os algoritmos estão ainda a ser treinados para a recolha dos dados do movimento dos olhos de crianças com deficiência visual. Mas prometem salvar a visão de milhões de pessoas mesmo antes de falarem. Esta tecnologia é de uso tão simples que pode ser adaptada ao telefone celular e as mães comuns podem usá-la facilmente para verificar e monitorizar a saúde da visão dos seus bebés pequenos.


Esta acaba por ser mais uma das vantagens que Angola pode alcançar com o investimento urgente na capacidade de conectividade em todo o território nacional. Médicos oftalmologistas podem ser treinados no uso desta tecnologia e realizar consultas de alta qualidade a crianças com problemas visuais em qualquer parte do país. Isso responde também a quem se pergunta se o investimento na conectividade deve ser feito antes da produção de alimentos, saúde, educação, estradas e demais infra-estruturas básicas. A conectividade, hoje por hoje, é a avenida por onde passa e fica facilitado o desenvolvimento nestes e em todos os domínios da vida das pessoas.

Os artigos de opinião publicados no Notícias de Angola são da inteira responsabilidade do seu autor. O NA não se responsabiliza por quaisquer danos morais ou intelectuais dos textos em causa, confiando no rigor, idoneidade e credibilidade dos seus autores.

CAIXA DE MÚSICA 447

 

Roberto Rillo Bíscaro

Claudio Nucci, cantor e compositor paulista, festeja 40 anos de carreira solo com disco revisionista em que reúne convidados como Chico Chico, Paulinho Moska, Pedro Luís e Renato Braz.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

TELONA QUENTE 351




Depois de uma briga de trânsito, um psicopata persegue uma mulher e seu filho. Esta é a premissa de Fúria Incotrolável, mais novo filme de Russell Crowe. 



quarta-feira, 31 de março de 2021

CONTANDO A VIDA 335

 

UMA JANELA NO MEU TEMPO PANDÊMICO.

José Carlos Sebe Bom Meihy

Em pleno confinamento, imerso em sentimentos curtidos ao longo de mais de um ano restrito às paredes de casa, decretei alforria aos pessimismos escravizados em minhas senzalas pessoais. Soltei as agonias enroscadas nas farpas do tempo pandêmico e resolvi flanar, propor enredo à história deste meu/nosso momento extraordinário. Dei, consciente, ar a tanta fantasia que ensaiava mofo e nela aos enleios que insistiram em buscas de supostos campos de alfazema. Para tanto, por um bom momento, deixei quieto os noticiários, desliguei informações de políticas, apaguei dores por mortes de parentes, amigos, conhecidos ou não, e me permiti supor que estatísticas são poções de um feitiço imaginado, ficção pura. Na mesma toada, dei corda às ilusões que transformavam contaminados em anjos barrocos, e cuidadores em mestres de folguedos, algo próximo das gravuras de Heitor dos Prazeres, das músicas infantis de Toquinho e do ballet de Copélia. E foi muito bom.

Troquei recursos que abusam de sons por sonatas melodiosas, ouvi o mar imaginado, adivinhei matas em verdes plenos, dei acalanto às flores convencionais, coloridas e perfumadas. Ouvi silente o silêncio e nele a mansa voz católica de Adelia Prado declamando seu verso mais oportuno, “Janela”:

Janela, palavra linda/

Janela é o bater das asas da borboleta amarela.

Abre pra fora as duas folhas de madeira à-toa pintada,

Janela jeca, de azul.

Eu pulo você pra dentro e pra fora, monto a cavalo em você,

Meu pé esbarra no chão/

Janela sobre o mundo aberta, por onde vi o casamento da Anita esperando neném,

A mãe do Pedro Cisterna urinando na chuva,

Por onde vi meu bem chegar de bicicleta e dizer a meu pai: minhas intenções com sua filha são as melhores possíveis.

Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão, claraboia na minha alma,
olho no meu coração.

E esvaziado de ruins, pude gozar dos registros sobre meu distanciamento social cumprido. A solenidade do diálogo pessoal impôs brandura e compaixão. Periodizei etapas sob o critério da busca de alternativas redentoras, e, com certo apreço, reconheci o primeiro esforço: arrumar a casa, olhar os cantos do meu canto e reconhecê-los como lar: armários refeitos, roupas dispensadas, revisão de objetos descartáveis, diria que gastei os primeiros dois ou três meses driblando o medo trocando-o pela reorientação caseira. Era como me preparar para uma visita íntima, com o mais centrado encontro de mim com meu eu purificado. Dessa fase, talvez a lição maior tenha sido a constatação de que poderia viver com bem menos, sem alguns luxos tolos.

Diria que meu segundo movimento foi estabelecer ações que me davam prazer e que poderiam me ligar a outras pessoas, sem riscos. E cozinhar virou um verbo conjugado diariamente, sob a pretensão de ajudar duas vizinhas dependentes de assistência. Foram meses de envios quase diários e estabelecimento de afetos que nutriram aquelas duas vidas que, infelizmente, chegaram a termo no mês passado. No pulso desse movimento, troquei a obrigação pela gostosura e me melhorei como cozinheiro. E cresci como gente também. Na mesma sanha, defini que elegeria alguns poucos amigos para conversas semanais. Logo eu que detesto telefone, me deixei atrair por uma experiência que tanto conforto me trouxe. Optei por fazer diferença em um grupo de amigos de WhatsApp e me dediquei como causa amorosa, tentando encurtar distâncias e conhecer melhor quantos julgava saber.

Rendo graças a uma prática que aprendi no confinamento do menino de um colégio interno que fui: ler... Alguma luz divinal sugeriu que eu ordenasse algumas leituras de maneira a corrigir minha formação sempre fragmentada. Proust se me apresentou e resolvi retomar página, por página os sete livros que compõem “Em Busca do tempo perdido”. Nossa, foi uma viagem no país da memória. Nova série me plenificou bastante na visita dos “Sermões do Padre Antônio Vieira. Foram meses perfilando entendimento e admiração. Senti-me mais maneirista que nunca justificando Pessoa ao coroá-lo “imperador da língua portuguesa”. E passei para outra esfera ao ler tudo de Lobato, da obra infantil à adulta. Devo dizer que neste quesito briguei com a crítica, me vi convidado a perpetrar artigos, e lastimar o que tentam fazer com o nosso “taubateano rebelde”. Além dessas três séries, outros textos repontaram como brisa no escaldo de um verão louco.

Escrevi muito. Muito. Mais do que nunca, e pela escrita pude filtrar significados da passagem solitária pela pandemia. Essa foi/tem sido outra grande lição, a consciência da solitude. Trabalhando em casa, precisei aprender a dividir o tempo e não me permitir alucinar com a astúcia de sua passagem. Minhas recentes fases têm sido difíceis, pois não há como disfarçar a dor tantos amigos que partiram. É muito triste e esse imponderável me abate de jeito irremediável. Mas se é possível extrair alguma lição desta experiência coletiva, se puder superar o desdém de autoridades culpadas, e neste esforço recortar uma moral para a história da pandemia, com certeza diria que ela me valeu como a tal janela indicada por Adélia Prado, aquela de folhas que tanto se abrem “pra dentro e pra fora” e que, sobretudo, funcionam como “claraboia na minha alma, olho no coração”. Estou aberto ao que vier. Purificado. Grato por chegar até aqui, esperançoso de ir até lá, mas com a certeza de que fiz o melhor que pude abrindo minhas janelas “como asas de uma borboleta amarela”.

terça-feira, 30 de março de 2021

TELINHA QUENTE 439



Roberto Rillo Bíscaro

Baseada na investigação real sobre o assassinato de uma jornalista sueca, a minissérie The Investigation/Efterforskningen traz várias novidades. A Dinamarca mudou, de novo, o paradigma das séries policiais?

segunda-feira, 29 de março de 2021

CAIXA DE MÚSICA 446

 


Roberto Rillo Bíscaro

Em seu álbum de estreia, o qunteto norte-americano AmuZeum faz prog sinfônico, que remete aos áureos tempos do Yes, combinando elementos de neo-prog e AOR.

domingo, 28 de março de 2021

SESAU

Sesau cria a Linha de Cuidado das Pessoas com Albinismo em âmbito estadual


Para assegurar assistência integral às pessoas com albinismo, condição que, em Alagoas, atinge principalmente os afrodescendentes e que se caracterizada pela ausência parcial ou total de pigmento na pele, olhos e cabelos, a Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) definiu a Linha de Cuidado das Pessoas com Albinismo. Para isso, o secretário de Estado da Saúde, Alexandre Ayres, assinou a Portaria Estadual Nº. 2.657, que foi publicada na página 35 do Diário Oficial do Estado (DOE), e que pode ser acessada por meio do endereço eletrônico (https://www.imprensaoficial.al.gov.br/storage/files/diary/2021/03/DOEAL-2021-03-19-COMPLETO-alDQPvpSKJTL2bnOovvcLuQFoOcHyVLt1Kh-UqMFJxqgDHz1P7H96.pdf) .

Por meio da portaria, elaborada pela equipe multidisciplinar da Supervisão de Políticas Transversais da Gerência de Atenção Primária (GAP) da Sesau, com a participação de representantes de movimentos sociais ligados às pessoas com albinismo, fica assegurado o atendimento aos albinos, garantindo assistência médica e multiprofissional. Para isso, caberá à Sesau, gerir a atenção à saúde das pessoas com albinismo, ofertando equipamentos e insumos especificados nos Protocolos Clínicos, bem como, atuar para aprimorar a infraestrutura das unidades de saúde, contratar profissionais habilitados e disponibilizar a logística para a promoção do atendimento a cada um dos albinos residentes em Alagoas.

A portaria nº 2.657 especifica, ainda, que a Sesau irá disponibilizar medicamentos, protetor solar para corpo e lábios, óculos, lupas para auxílio visual, vestimentas com proteção ultravioleta, e demais acessórios essenciais para os cuidados das pessoas com albinismo, de acordo com os protocolos clínicos para conduta e tratamento. Também será responsabilidade do Governo do Estado, promover treinamentos, formação continuada e outras ações de educação em saúde para equipes envolvidas no cuidado integral à saúde da pessoa com albinismo.

A Linha de Cuidado das Pessoas com Albinismo em Alagoas também prevê o acesso à informação e ao aconselhamento genético aos familiares e às pessoas acometidas por essa característica genética. Ela também garante, que o Governo do Estado deverá promover a regulação das demandas das unidades de Atenção Básica para os centros de referência, organizando o acesso às pessoas que necessitarem de atenção especializada, bem como, integrar as pessoas diagnosticadas com albinismo em todas as ações disponíveis na Unidade Básica de Saúde (UBS) mais próxima da residência do assistido, visando à promoção da saúde.

O Estado também deverá, conforme ressalta a portaria nº 2.657, manter cadastro atualizado das pessoas com albinismo no âmbito do SUS e promover interlocução entre as Secretarias de Estado, garantindo ações de educação, saneamento básico, moradia, emprego e renda para pessoas albinas residentes em Alagoas. A Linha de Cuidado das Pessoas com Albinismo em âmbito estadual também prevê o fornecimento de uma carteira de identificação de saúde, que facilite o acesso às UBS e hospitais, além das ações de promoção da saúde integral das pessoas albinas.

Equipe Multiprofissional

Em seu artigo 4º, a portaria nº 2.657 determina que o atendimento às pessoas com albinismo deve ser realizado por equipe multiprofissional. Além de um médico clínico, também devem integrar o grupo assistencial, um médico dermatologista, um oftalmologista, um geneticista, enfermeiro, técnico de enfermagem, psicólogo, assistente social, terapeuta ocupacional, odontólogo e nutricionista.

Para assegurar a efetivação da Linha de Cuidado das Pessoas com Albinismo em Alagoas, será constituído um Grupo de Trabalho (GT) para acompanhar as diretrizes desta portaria nº 2.657, conforme especificado em seu artigo 5º. Conforme consta no parágrafo único, o GT constitui instância de apoio técnico, científico e de controle social da Atenção Integral às pessoas com Albinismo no Estado de Alagoas, inclusive para a atualização do protocolo da Sesau, quando indicado.

Dívida Histórica – Para o secretário de Estado da Saúde, Alexandre Ayres, a Linha de Cuidado das Pessoas com Albinismo em âmbito estadual, representa o cumprimento de uma dívida histórica com os albinos. Isso porque, em Alagoas, essa característica atinge, principalmente, os afrodescendentes e, por ser o Estado natal do líder negro Zumbi dos Palmares, que lutou ativamente pelo direito dos quilombolas, cabe a Alagoas zelar e promover as políticas públicas de saúde aos grupos populacionais específicos, conforme aponta o Relatório Final de 2012, da 14ª Conferência Nacional da Saúde.

“Temos uma dívida histórica com os quilombolas e albinos, principalmente no âmbito da saúde pública. E, como gestor do SUS [Sistema Único de Saúde] em Alagoas, é dever assegurar políticas de saúde que contemplem todos os grupos populacionais, sejam eles camponeses, ribeirinhos, quilombolas, mulheres, indígenas, afrodescendentes, LGBTs [Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros], idosos, pessoas com deficiência, portadores de doença falciforme, albinismo e outras patologias. Por isso, a implementação da Linha de Cuidado das Pessoas com Albinismo é um marco para Alagoas, para o SUS e para a nossa gestão à frente da Sesau”, ressaltou Ayres.

Construção Democrática


E além de representar um marco para a saúde pública em Alagoas, a Linha de Cuidado das Pessoas com Albinismo também ganha notoriedade por ter sido construída de forma democrática, com a participação de técnicos da Sesau e de representantes dos movimentos ligados aos albinos. “Mesmo em meio à pandemia da Covid-19, nos reunimos periodicamente, porque entendemos que a construção deveria ocorrer de forma participativa e democrática, ouvindo todos os segmentos da sociedade e respeitando as especificidades dos albinos. A partir de agora, iremos identificar quantos são e em que municípios residem, focando no aconselhamento genético, prevenção e tratamento de problemas relacionados ao albinismo, como os oftalmológicos e dermatológicos, que podem resultar em cegueira e câncer de pele”, salientou a gerente de Atenção Primária da Sesau, médica Alexandra Ludugero.

Visão defendida também pelo assessor técnico de Políticas Transversais da Sesau, Sidney Santos, ao enfatizar que o objetivo da implantação da Linha de Cuidados das Pessoas com Albinismo é informar sobre os direitos da categoria e, principalmente, assegurar o acesso à assistência em saúde de forma eficiente e qualificada. “Segundo verificamos, são 69 comunidades quilombolas em Alagoas e, a partir de agora, iremos fazer uma busca ativa dos albinos, com o apoio das Secretarias Municipais de Saúde. Vamos tirar essas pessoas da invisibilidade, por meio de ações que assegurem assistência integral, mas, principalmente, dermatológica e oftalmológica, além de assegurarmos o acesso a óculos escuros e protetores solar e labial, para evitarmos graves problemas de saúde”, sentenciou.

quarta-feira, 24 de março de 2021

CONTANDO A VIDA 334

SINDROME DE STENDHAL ou EXTASE, PRAZER E ÓDIO ANTE A BELEZA.

José Carlos Sebe Bom Meihy

Sim, pode parecer estranho, mas há pessoas que sentem perturbações incontroláveis frente a expressões de extrema beleza, em particular ante a obras de arte, monumentos, sítios históricos ou naturais, peças e lugares únicos. A noção de culto ou reverência consagrada funciona como espécie de memória ou depósito de referências que postas a prova atestam o melhor da civilização. E isto não é tão raro como possa parecer à primeira impressão, visto que essas ocorrências têm até registros célebres dos quais o seminal remete ao escritor francês Stendhal que, aliás, emprestou seu nome ao fenômeno: “síndrome de Stendhal”.

Em notável livro escrito em 1817, Nápoles e Florença: uma viagem de Milão a Reggio, o autor relatou o próprio estado de transcendência sentido ao ver os afrescos de Giotto, pintados no teto da Basílica de Santa Croce, em Florença. Vale a pena retomar a descrição de Stendhal ao dizer que sentiu “palpitações desordenadas” motivadas pela “formosura da imagem puxada em azul”. Sem ter claro o que se passava, com emoções incontidas, descreveu padecer naquele instante de “estremecimentos no corpo, o que em Berlim chamam de 'nervos abalados'”.

Por lógico, o tal deslumbramento não ocorre só em Florença e nem afeta apenas observadores famosos. Com o tempo, essa emoção se amiudou socialmente ganhando constância, carreando carga de preocupações comportamentais. Qualquer ser humano de sensibilidade fora do que se considera normal pode ser acometido desses enlevos, bastando que tenha melindres orientados para um tipo de percepção sobre o bom gosto consagrado. A exposição contemplativa em face de situações únicas provoca um circuito de identificação sensível, capaz de inverter os limites de cotidianos pouco entusiasmantes.

Há, sem dúvida, um fator que potencializa possibilidades: o contato direto com os estímulos que catalisam experiências artísticas exemplares. O teórico Walter Benjamin qualifica essas exposições com a palavra “aura”, ou seja, o impacto deslumbrado produzido pela relação direta, pessoal, com a obra de arte ou com situação relevante. A “circunstância aurática” é então potencializada em algumas pessoas que podem ter reações surpreendentes como ficar paralisadas, ter crises de choro, perder a noção de espaço ou tempo, e desmaiar em certos casos.

Desde o crescimento do turismo no mundo moderno, em particular da segunda metade do século passado em diante, tem havido significativo registros desses casos, fato que preocupa responsáveis por exposições e mostras de arte, giros por lugares históricos ou religiosos. Além dos contatos com peças exemplares e ambientes privilegiados, o cansaço natural de roteiros rápidos e o ritmo imprimido pelos programas exaustivos justificam esses acometimentos. De tal forma essas manifestações têm se repetido que há um novo campo da psiquiatria que passa a cuidar do assunto. Em 1979, na Itália, Graziella Magherini descreveu o fenômeno definindo sintomas relacionados a atordoamentos, taquicardia, palpitações que chegam a comprometer a consciência da pessoa que, em certos casos, perdem o equilíbrio, entram em pânico. A duração do fenômeno também é detalhe cuidado, pois há casos de demora na retomada da normalidade.

A relação humana com a beleza merece ser considerada em complexidades que vão além da objetividade razoável. Há dimensões ainda pouco sondadas que implicam, por exemplo, a noção de sublime e a consciência da racionalidade. O próprio Stendhal declarou que o contato que teve continha algo de “celestial”, mas convém supor que o termo “sublime” quase sempre é vulgarmente considerado no superlativo positivo. Segundo Kant, porém, o medo pode conter nível de beleza eletrizante. Cabe no entanto, imaginar que o maravilhoso provoca inclusive distúrbios amedrontadores. Sabe-se por exemplo, que seus efeitos despertam o que tecnicamente é conhecido como “choque iconoclasta” e inclusive leva pessoas a destruição de objetos cultuados. Isso se dá em diferentes campos, seja ante objetos de arte ou peças religiosas (sempre presente na memória brasileira a tentativa impetrada por um fanático que, em 1978 tentou roubar a imagem de Nossa Senhora de Aparecida). São incontáveis os ataques feitos quadros e estátuas famosas, mundo afora.

Em situações que se multiplicam não é raro encontrar relatos de pessoas que ante a escultura de Davi de Michelangelo se imobilizam atônitas; outros choram ao ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven; já vi pessoas se ajoelharem no Museu do Prado frente a tela do Cristo Crucificado de Velásquez. E quantos relatos há de delírio ao se deparar com o Monte Fugi, ou no Rio de Janeiro, com as expressões do contorno do Bondinho do Corcovado na em nominada Curva do Ó. Vitrais são espelhos mágicos para apreciadores e nesse quesito os da Notre Dame de Paris competem com os da Mesquita Nasir Al-Mulk de Shiraz no Irã.

Na contramão desses deslumbres também tem crescido a “cultura do simulacros”, ou seja o exagero de reproduções baratas de “obras raras”, fato que resulta no que Baudrillard chama de simulacros. Supondo a Síndrome de Stendhal, no entanto, o efeito fica ainda maior, pois o contraste se evidencia de maneira a produzir maior choque. Há estudos recentes afeitos aos acessos a obras de museus e passeios variados pela internet e a questão que se coloca é sobre a sensibilidade na era das máquinas. Quais serão as escolhas que faremos na relação com o extraordinário? Terão vigor os estudos sobre “Síndrome de Stendhal”, ou a arte perderá a força de culto?

terça-feira, 23 de março de 2021

TELINHA QUENTE 439

 

Na minissérie Por Trás de seus Olhos, uma mãe solo se envolve em um jogo perigoso ao ter um caso com o chefe e fazer amizade com a enigmática esposa dele.